Filósofo francês Jean-Luc Nancy morre aos 81 anos

Nancy tem várias obras traduzidas em Portugal, a começar por "Resistência da Poesia", pela Vendaval (2005), passando por "O 'Há' da relação sexual'", pela Quasi (2008), ou "À escuta", pela Chão da Feira (2014), entre outras

O filósofo francês Jean-Luc Nancy morreu esta terça-feira, aos 81 anos, confirmou o jornal Le Monde junto do seu editor, depois de uma notícia avançada por um jornal regional da Alsácia.

Nascido em Caudéran, hoje parte de Bordéus, em 1940, formou-se em Filosofia pela Universidade da Sorbonne, em Paris, em 1962, onde trabalhou com Georges Canguilhem e Paul Ricoeur, que foi o seu orientador da dissertação de mestrado sobre a filosofia da religião de Hegel, segundo a biografia disponível na página da European Graduate School, na Suíça, onde foi professor, ocupando a cátedra precisamente com o nome do filósofo alemão.

Assistente no Instituto de Filosofia da Universidade de Estrasburgo, em 1968, terminou a sua tese de doutoramento em 1973 sobre o discurso analógico de Kant, também sob orientação de Ricoeur. Nesse ano tornou-se assistente na Universidade de Ciências Humanas, em Estrasburgo, onde deu aulas até se reformar, em 2002.

Com Philippe Lacoue-Labarthe, Jacques Derrida e Sarah Kofman dirigiu uma coleção de filosofia nas edições Galilée, pelas quais publicou mais de 30 títulos ao longo da carreira, desde "Le Titre de la Lettre", em 1973, a "Mascarons de Macron", já este ano.

Entre as suas principais obras, muitas das quais dedicadas ao conceito de comunidade, encontra-se a trilogia "La Communauté dés(ce)uvrée", "La Communauté affrontée" e "La Communauté désavouée", argumentando, no primeiro dos títulos, que "a comunidade pode ser definida através da natureza política da sua resistência contra o poder imanente", como se pode ler na página da Imprensa da Universidade do Minnesota, que publicou a tradução para inglês em 1991.

Escritor fértil, publicou vários trabalhos sobre temas atuais que foram desde a pandemia à emergência dos novos radicalismos de direita, tendo-se envolvido numa discussão sobre a covid-19 com o italiano Giorgio Agamben, no ano passado, que culminou com Nancy contar a história de que, quando lhe foi recomendado um transplante de coração, Agamben sugeriu que recusasse o conselho médico.

"Tivesse eu seguido o seu conselho, teria provavelmente morrido pouco depois. É possível errar. Giorgio é, ainda assim, um espírito de tamanha fineza e generosidade que é possível defini-lo, sem qualquer ironia, como excecional", escreveu Nancy.

Num ensaio sobre "Neofascismo" republicado pela Los Angeles Review of Books em 2019, argumentava que "o fascismo tem como premissa uma rejeição do postulado democrático: rejeita a vontade da democracia de se regular a si mesma de acordo com uma ideia do povo que, em si, responde ao visionário ou caráter ideal desta ideia e, em seu lugar, substitui-a pela sua própria decisão de afirmar a realidade tangível do povo".

"No longo prazo, o povo acaba a sofrer aquilo que o fascismo lhe impõe. Mas leva tempo [...] e também depende de como o povo é capaz de entrar no exercício do postulado que caracterizei. Este exercício é difícil e apela a um certo tipo de virtude para resistir à atração de ídolos. Esta virtude é a que temos de cultivar em democracia", concluía o filósofo.

Em 2000, publicou um ensaio pessoal intitulado "O Intruso" sobre a experiência de receber um transplante de coração, que foi adaptado ao cinema pela realizadora Claire Denis. Nele, Nancy escreveu: "O Intruso entra à força, surpresa ou ardil, em todo o caso sem o direito e sem ser primeiro admitido. Tem de haver algo do intruso no desconhecido; de outro modo, o desconhecido perderia o seu desconhecimento: se já tem o direito de entrar e permanecer, se é esperado e recebido sem que parte dele seja inesperado ou indesejado, não é mais o intruso nem o desconhecido."

Numa conversa publicada pela revista Frieze, o filósofo afirmou: "Não há, para mim, diferença entre as supostas grandes questões e grandes assuntos e as pequenas questões que se relacionam com o quotidiano. Toda a vida é parte do infinito. O mero facto de indicar um quotidiano separado é inadequado: não há mais quotidiano do que eterno; cada dia é uma possibilidade de eternidade. Os meus interesses são os mesmos, esteja ou não a considerar uma fotografia ou toque, cinema ou democracia".

Nancy tem várias obras traduzidas em Portugal, a começar por "Resistência da Poesia", pela Vendaval (2005), passando por "O 'Há' da relação sexual'", pela Quasi (2008), ou "À escuta", pela Chão da Feira (2014), entre outras.

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