"Escrever não é uma coisa de um grupo de iluminados, qualquer pessoa o pode fazer"

Já vendeu mais de um milhão de livros em vários países. Este mês lançou A Raridade das Coisas Banais, o 31.º livro. E diz que, finalmente, se sente escritor.

Foi jornalista, redator de publicidade, ultimamente tem experimentado, com parcimónia, os palcos da comédia. Mas é nos livros e na sua extensão para as redes sociais que Pedro Chagas Freitas, de 43 anos, é conhecido, aliás, muito conhecido tem leitores que se confundem com verdadeiros fãs.

Com um novo livro acabado de lançar, o romance A Raridade das Coisas Banais - o primeiro original sob a chancela da Oficina do Livro - confessa que não sabe se consegue escrever melhor do que neste. Mesmo assim, Chagas Freitas sublinha que os escritores não são seres iluminados, apenas pessoas com olhares únicos e diferentes, como todas as outras pessoas.

Porque é que vende tantos livros?
Se eu soubesse uma fórmula... se calhar escrevia um livro com essa fórmula. A questão é mais como tudo começou, e foi através das redes sociais que se foi criando uma onda e teve o seu expoente máximo com o lançamento do livro Prometo Falhar.

Mas o seu sucesso não foi assim tão repentino...
Lancei o primeiro livro em 2005. Apresentei-o em Guimarães, sou de lá, e estive duas horas a assinar livros para 200 pessoas. Nesse momento fiquei convencido que era escritor. Estava tão convencido que decidi agendar outra apresentação na Fnac do Chiado onde foram... quatro pessoas, duas delas eram os meus pais. Foi uma grande desilusão. Na viagem de regresso a casa comecei a pensar como poderia ir buscar os meus leitores. Então criei um blogue - que na altura era inovador, mas que agora parece uma coisa do tempo dos dinossauros - e entre 2005 e 2014, ano em quando lancei o Prometo Falhar, andei a escrever no meio do deserto, todos os dias religiosamente publicava textos no blogue. Fui escrevendo, escrevendo e lancei 19 livros antes do Prometo Falhar e entretanto, nesse período surge o Facebook em Portugal. Lembro-me de ter uma reunião com a editora para escolher que livro publicar nessa altura, em 2014, e eles disseram-me que não podia ser o Prometo Falhar porque queriam lançar um livro com princípio, meio e fim.

O Prometo Falhar não é um livro com princípio, meio e fim?
É um livro que não tem etiqueta, é uma coisa que não sabemos bem o que é. É um híbrido. O livro está em dezena de países e é vendido de forma diferente em vários mercados. No Brasil é um livro de crónicas, em Itália e Espanha é um romance..., mas já vi o livro em bibliotecas na secção de autoajuda e mesmo na de Filosofia. A maioria das mensagens que recebi das pessoas que o abandonaram explicavam que não conseguiram acompanhar a história. É um livro que deve ser lido fragmentado. Regressando à história, após o seu lançamento começa a vender muito, é marcada uma apresentação no Porto e passados cinco dias, em Lisboa, já ia na terceira edição. E dois anos depois ainda estava no primeiro lugar de vendas. Ainda hoje está no topo de vendas. É um produto, se o virmos como tal, que não tem etiqueta... nem receita.

É o livro que define o seu estilo como escritor?
Não. Seria mais fácil, mas não. Quando escrevo gosto de ter uma abordagem diferente em cada livro. Há pessoas que adoram alguns livros e odeiam outros. Tenho um livro de humor negro, A Repartição [2017], que é uma peça de teatro humorística e não tem qualquer relação com o Prometo Falhar. Tive pessoas que não gostaram dessa abordagem diferente e há aqueles que tinham desistido de mim e ao pegarem nele [A Repartição] acharam piada. Não me interessa repetir fórmulas, era mais cómodo escrever mais 200 livros iguais ao Prometo Falhar...

Mas a perceção é que o Pedro Chagas Freitas é o autor do Prometo Falhar e desse género de livros, ponto final!
É. Mas é uma coisa que já não consigo combater. Serei sempre o gajo que escreveu o Prometo Falhar, não tenho hipótese. A minha esperança é que alguém se dê ao trabalho de ver que cada livro que escrevo é diferente dos outros.

A alguém que nunca o tenha lido, qual é então o que recomenda?
O que lancei agora. É de longe o meu melhor livro. Aconselho sempre o mais recente porque é aquele com que mais me identifico. Mas não sei se consigo escrever melhor do que este. Estou mesmo convencido que é este.

É um romance?
Sim, um romance, com princípio, meio e fim. Quando acabei de escrever este livro estava tão entusiasmado que o enviei a pessoas que nem conheço, de áreas artísticas díspares, como o Valete ou o Eduardo Madeira para perceber o que eles achavam. O resultado está na contracapa do livro...

Este livro já é na nova editora, a Oficina do Livro, agora faz parte do portefólio da Leya. O que vai mudar a partir de agora?
Em termos de vendas?

"Com este novo livro já me sinto escritor. Não como ser iluminado, atenção, mas sim como alguém que veio de um lugar diferente dos outros"

Da pressão das vendas, da pressão para escrever mais, dos timings...
...felizmente, ou infelizmente, escrevo mais depressa do que é exigido. Este novo livro está pronto há cinco meses. Não tenho a pressão de ter de lançar um livro por ano, tenho muitos livros que ainda não publiquei.

Porque é que a crítica literária não lhe liga nenhuma?
Não faço ideia. É algo que nem perco tempo a pensar o porquê de não gostarem. Escrevo o que me apetece e não escrevo a pensar se aquela ou aquelas pessoas vão gostar.

Será porque vende muito?
Não, não vou por aí, nessa ideia de que não gostam de mim porque sou um escritor popular que vende. Há casos em que deve ser isso, noutros casos leram um dos livros e não gostaram. Digo sempre, a quem não gosta, para lerem outro, porque são muito diferentes.

Há uns anos, numa entrevista ao DN, disse que tinha como referências José Saramago, Herberto Helder. Continuam a ser as suas referências?
Quando os descobri foram uma revelação para mim, e ainda hoje revisito-os muito. O José Saramago pela inventibilidade, pelos "e se?", pela abordagem de sair da normalidade da realidade e procurar esses "e ses?". E o Herberto Helder pela beleza da escrita que nos faz gostar mesmo quando não entendemos bem o que lá está.

E o que anda a ler agora?
Sempre que acabo um livro que gostei muito tento falar dele e aconselhá-lo. O último que li, terminei em março, foi o Fala com o Ex, de Rachel Lynn Solomon. Antes desse li a Solidão dos números Primos, de Paolo Giordano. Já autores portugueses leio um pouco de tudo. Gosto muito dos livros do Afonso Cruz, José Luís Peixoto e Lobo Antunes, evidentemente. Gosto de variar. Só há dois livros no mundo: os que mexem comigo e aqueles que não. Além disso, os livros que me fazem escrever são os melhores. O Lou Reed disse um dia que não media o seu sucesso pelas pessoas que iam aos seus concertos mas pelo número de bandas que nasciam depois desses espetáculos. É fantástico sempre que alguém me diz que começou a escrever depois de ler os meus livros.

Tem rituais ou hábitos de escrita?
Não, não tenho nenhum ritual. Era muito mais interessante dizer que só consigo escrever em frente ao mar (risos) ou se estiver a chover (risos) mas não tenho nada muito definido. A única coisa que muda quando escrevo é a obsessão... é o acordar a meio da noite para mudar algo no livro, ou mesmo para escrever ou apontar ideias... é quase doentio. Mas sou metódico a esquematizar o que quero escrever, para mim essa é a parte mais difícil Depois disso é uma questão de método: cinco páginas por dia, independentemente do meu filho, que tem quatro anos, me deixar ou não (risos).

E já vive só da escrita?
Podemos dizer que sim. Também faço palestras e cursos de escrita criativa e até stand up já fiz.

Vai apostar no stand up?
Gosto muito de ver stand up, e a partir do momento em que fui convidado para um programa de stand up na TVI, fiquei cada vez mais interessado. Quando subo ao palco quer para palestras ou para fazer stand up conto histórias, ou seja, faço sempre a mesma coisa. Há pessoas que riem, outras que refletem... escrever não é uma coisa de um grupo de iluminados, qualquer pessoa o pode fazer. Agora se vai ser lido por cinco ou por cinco milhões, isso ninguém sabe. Acredito, e digo isto porque acredito mesmo, que todos podemos escrever, todos olhamos para as coisas de uma forma que mais ninguém olha, todos vivenciamos coisas que mais ninguém vivenciou, todos somos únicos.

Tem mais leitoras que leitores?
Depende dos livros. Mas os de ficção e romances são mais mulheres. É uma coisa que acontece em todo o mundo, as mulheres compram muitos mais livros desse género, por isso, tenho mais leitoras do que leitores. E depois com o Prometo Falhar, que é tudo menos romântico, ficou a ideia de eu ser um escritor romântico e acabou por ter muito público feminino que vai à procura de uma coisa cor-de-rosa. Depois leem e percebem que não é nada disso e ficam desiludidas. Mas consigo medir as reações dos leitores pelas páginas do Facebook e do Instagram.

É um escritor muito presente nas redes sociais. Não é, de certo modo um risco por ser um espaço em que muitos se refugiam para fazer críticas gratuitas. Como lida com isso?
Sim, comunico muito pelas redes sociais, são um bom laboratório. O Ricky Gervais uma vez disse que não suportava as pessoas que fazem like numa página para depois dizerem que não gostou tenho uma regra: só digo nas redes sociais aquilo que possa dizer olhos nos olhos. Tenho uma espécie de mantra para alguns comentários mais ofensivos: eliminar, banir, atualizar. Mas se fizerem uma crítica sustentada tento criar um diálogo com essa pessoa.

Ainda se autointitula como "um gajo que escreve cenas"?
​​​​​​​Tinha um amigo escritor, que infelizmente já morreu, o Luís Miguel Rocha, que ficava louco comigo quando eu dizia isso. Dizia-me "és um escritor, um best seller"... Com este novo livro já me sinto escritor. Não como ser iluminado, atenção, mas sim como alguém que veio de um lugar diferente dos outros. Mas não escrevo para ser reconhecido.

filipe.gil@dn.pt

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