Como fez questão em sublinhar Thierry Frémaux, delegado geral do festival, Mark Cousins é sempre bem recebido em Cannes. E há boas razões para isso: ele, que começou por ser crítico de cinema, tem desenvolvido um invulgar trabalho de investigação enquanto cineasta. Entre as múltiplas referências da sua filmografia, lembremos esse empreendimento monumental que é A História do Cinema: Uma Odisseia (2011), ou ainda Os Olhos de Orson Welles (2018), tendo com base os desenhos do realizador de O Mundo a Seus Pés, e O Meu Nome É Alfred Hitchcock (2022), analisando em pormenor as formas narrativas do cineasta de Janela Indiscreta e Psico.Cousins voltou à Côte d’Azur, mais precisamente à secção Cannes Classics, com The Story of Documentary Film. Como o título indica, trata-se de revisitar o género documental para, desde o mudo (a partir dos irmãos Lumière, realmente), conhecer e compreender como os criadores utilizaram o filme para observar o mundo à sua/nossa volta. O festival apresentou os dois episódios referentes à década de 1970 — a série completa tem 240 minutos.Fazendo ele mesmo a voz off dos seus filmes, Cousins apresenta-se como um analista que não esquece a importância de alguma contenção. Na verdade, sentimos que tudo aquilo que nos apresenta resulta de um depurado labor de investigação e análise, ao mesmo tempo sabendo evitar o tom de quem estaria a apresentar uma “tese”. O valor fundamental de projectos como The Story of Documentary Film decorre do gosto de partilhar imagens e sons, gosto que, além do mais, não se esgota numa informação canónica nem determinista. Nesta perspectiva, para lá de algumas referências emblemáticas da Europa e da América, esta viagem aos anos 70 integra, sobretudo, memórias pouco (ou nada) conhecidas de produções de origem africana e asiática..Cannes. Emoções japonesas e francesas.Festival de Cannes recorda John Lennon