É um confronto inesperado com um assunto sempre posto de lado, o da Revolução Liberal (1820-1834), que está agora à disposição dos portugueses através de um Dicionário Crítico. Inesperada também a espessura do volume, 1638 páginas, investimento que raramente gera apetência editorial como aconteceu neste caso com a D.Quixote. E não poderia fazer-se por menos pois o leitor encontrará neste Dicionário ensaios de 59 investigadores, coordenados por quatro historiadores: Rui Ramos, José Luís Cardoso, Nuno Gonçalo Monteiro e Isabel Corrêa da Silva; que abrangem todos os ângulos considerados necessários para refletir este momento da história de Portugal.Diga-se que este volume segue o modelo bem sucedido que os historiadores que coordenaram o Dicionário Crítico da Revolução Francesa, Mona Ozouf e François Furet, criaram para registar os duzentos anos daquele acontecimento e que, coincidentemente, a Revolução Liberal portuguesa também perfaz a mesma distância temporal. a Introdução justifica-se essa escolha: “Não se trata de um dicionário 'enciclopédico', mas 'crítico', o que significa que as entradas não são verbetes sintéticos, mas ensaios interpretativos.” O modelo português tem, no entanto, uma novidade, a de contar com uma sexta parte em que se fazem as “Comparações Internacionais” entre a revolução portuguesa e outras, como as europeias, do continente americano, da Ásia, entre outros acontecimentos similares e mais ou menos contemporâneos.A primeira grande questão que se coloca face a este “tijolo historiográfico” é a de se, finalmente, estamos perante um estudo que dá a versão completa de um dos momentos mais importantes e ignorados da nossa História. Um dos responsáveis por esta aventura, Rui Ramos, dá a resposta sobre a função deste Dicionário Crítico da Revolução Liberal: “Diria que o Dicionário com as suas 1638 páginas, 103 entradas e 59 autores, dará, mais do que um tratamento completo, uma apreciação variada que irá permitir examinar aquele que foi um acontecimento e um processo muito complexo da passagem do Portugal do Antigo Regime para o Portugal Liberal. Esta investigação resulta de diversos pontos de vista, muitas vezes com mais do que uma interpretação sobre um mesmo momento, porque os autores pertencem a várias gerações e tradições historiográficas, refletindo-se dessa forma também no leitor, que poderá examinar o mesmo evento ou personagem sob enfoques diferentes.” A opção por este modelo deve-se, explica o historiador, pela possibilidade de “arrumar uma pluralidade de abordagens e de interpretações de uma maneira consistente e apresentar de forma mais clara a complexidade deste fenómeno histórico e a leitura dos historiadores”. Acrescenta que, tal como na versão francesa, “o modelo permite uma organização muito prática sobre a época ao separar momentos, protagonistas, ideias, instituições e dinâmicas sociais, memorialistas, historiadores, entre os muitos pontos de vista que nos interessavam”.Será este o tratamento definitivo ao período histórico em estudo ou pode o leitor interessado no tema vir a ser confrontado posteriormente com outras visões. Para Rui Ramos a resposta não é difícil: “Na historiografia nada é definitivo, no entanto quando existem obras de referência, como pretende ser este Dicionário para quem estudar a época, está habilitado a desenvolver interpretações, até diferentes das que aqui estão impressas, como se verificou com o conjunto de estudiosos ao encontrar uma divergência para com as interpretações feitas há meio século.” Não são, contudo, opiniões diferentes entre uns e outros que tenham gerado conflitos intransponíveis, como refere: “Houve muita disponibilidade entre todos para colaborarem sabendo a dimensão da obra e a lista de participações dava para antecipar que seriam várias as perspetivas. Esta não é uma obra de escola, mas uma reunião de contributos de muitas procedências nacionais e estrangeiras, daí que não aspire a impor uma interpretação canónica. Foi importante existirem diferenças e, por isso, se o chamou de Dicionário Crítico.”Para o coordenador houve “liberdade de interpretação” por parte dos autores, de que resulta existirem conclusões umas mais polémicas do que outras: “Neste estudo, os historiadores conviveram a um nível de respeito mútuo que pode não existir para outras épocas da História. Afinal, quanto mais contemporâneo é o tema mais polémico tende a ser, por se confundirem questões historiográficas com políticas relevantes na atualidade.” Destrinça melhor: “O século XIX tem a vantagem de estar muito mais distante e de se ter tornado uma época menos interessante para o público como o fora nos anos 1970. Ao mesmo tempo, esta distância oferece um lado menos negativo, que é o facto dos debates historiográficos deixarem de ter essa relevância de atualidade; ou seja, transformou-se numa discussão histórica e permitiu uma maior capacidade para reunir académicos disponíveis para aceitar uma diversidade de interpretação sobre um momento apaixonante, repleto de grandes personagens e de enormes mudanças, que no presente pôde ser olhado de uma maneira mais tranquila.”É impossível não questionar se a opinião de Alexandre Herculano, que considerou ser a Revolução Liberal a maior mudança política e social em Portugal, se mantém correta após a publicação deste Dicionário. Segundo Rui Ramos, existe um ponto consensual quando se está a caracterizar a Revolução Liberal como o motor de uma enorme transformação: “Apesar de não ter direito a ser comemorada com feriados ou outras cerimónias, o que levou a que os portugueses tenham perdido a noção da importância desta rutura política que aconteceu entre o pronunciamento militar de 24 agosto de 1820 e o fim da guerra civil em 1834, este período tem características que espelham bem o que Herculano afirmou em meados do século XIX. Entre elas, o de existir uma violência associada a esta mudança que não tem comparação com nenhuma outra revolução na história de Portugal nos séculos que se seguiram. Ou seja, o que esteve em causa foi o fim de um mundo e o começo de um outro. Tal como Almeida Garrett também iria dizer, que 'acabou o Portugal velho e começou o Portugal novo'.”Quando se questiona se os efeitos da Revolução Liberal ainda se fazem sentir hoje, o historiador responde: “Vivemos num mundo que foi criado com a Revolução Liberal, pois quando falamos de parlamento, eleições, cidadania, direitos, administração local, estamos a habitar um mundo que não existia antes de 1820. Estamos também numa sociedade que foi brutalizada por acontecimentos como o das invasões francesas, que transformaram Portugal num campo de batalhas das grandes potências europeias uma década antes da Revolução Liberal. E não só, pois é um momento em que confluem vários traumas, como o da deslocação do governo do Portugal europeu para o futuro reino do Brasil, bem como do grande desequilíbrio que a independência do Brasil provoca na economia portuguesa; além das divisões na família real, com um filho do rei que protagoniza a independência do Brasil em 1822 e, dois anos depois, o outro filho que também se revolta contra o pai, numa disputa que irá provocar uma grande politização da sociedade portuguesa e de que tudo está em causa na governação e nos destinos do país.”Como já foi referido, o Dicionário Crítico da Revolução Liberal inclui um vasto capítulo além do modelo que o inspirou, no qual se compara a Revolução Liberal portuguesa com outras estrangeiras. Para Rui Ramos, essa sexta parte é resultado do desenvolvimento da historiografia dos últimos trinta anos: “Percebeu-se que todos os processos históricos à época, por mais específicos que fossem, ganhavam em ser compreendidos num contexto internacional. No caso da Revolução Liberal ainda mais, porque os próprios atores estão conscientes das circunstâncias e são motivados pelo contexto internacional. Basta dizer que a revolta no Porto dá-se poucos meses depois de uma similar em Espanha, e o que os liberais reivindicam é terem uma constituição como a espanhola. Daí que se possa dizer que não poderíamos compreender os nossos acontecimentos sem esse horizonte internacional.”Sendo os rumos semelhantes em Portugal e Espanha, o que não seria de esperar é que o fossem de alguma forma também com países tão distantes como a China e o Japão. O historiador explica: “Porque se está a entender a Revolução Liberal não apenas como um processo de modernização do Estado e da sociedade em Portugal, mas a fazer analogias com os de outros países que podem não ter passado por revoluções liberais e cuja modernização foi diferente. É o caso do Japão, onde não se verifica uma revolução liberal, mas um processo de transformação por via de constitucionalização do Estado e de reforma de um sistema feudal. Essa diferença é interessante para a compreensão do processo português, tal como a análise bastante abrangente das mudanças nas américas, na Ásia, no Império Otomano e nos estados europeus, por exemplo, porque, sendo processos específicos, estão também debaixo de um grande chapéu onde nos podemos abrigar para entender a modernidade política e social da Revolução Liberal.”.DICIONÁRIO CRÍTICO DA REVOLUÇÃO LIBERALVários autoresD.Quixote1638 páginas.OUTRAS NOVIDADES LITERÁRIAS.UMA VIDA COM JULIÃO SARMENTOSendo um livro de memórias, de um casal, de uma crítica literária, de um artista e de um tempo, de autoria de Helena Vasconcelos, vemos por estas páginas fixada uma vivência de mais de uma década com Julião Sarmento. Não é coisa muito habitual nas novidades literárias que vão aparecendo, daí que faça falta para se conhecerem épocas e pessoas, principalmente quando é escrito em jeito de confissão despreocupada com certos pruridos e graduação das revelações enquanto conta situações que a autora define como as de duas pessoas em que “cada um serviu de 'espelho' ao outro”. Entre o muito que há de sedutor neste relato estão os detalhes do que foram aqueles anos – não tão distantes assim –, que uns dizem terem sido loucos, outros cometeram loucuras sãs, e que permitem viajar por um tempo em que tudo parecia ser mais fácil. Além das muitas pinceladas que a autora dá sobre a vida artística do seu par e do seu crescimento, tudo isto recheado de textos de um diário que proporciona alguma sépia em contraste ao colorido de hoje..O QUE ESTÁ PARA VIRHelena VasconcelosQuetzal237 páginas .LIBERAIS E ABSOLUTISTASPicaresca e aventureira é a reedição de um romance de Paulo Moreiras já com alguns anos e que numa edição revista vem oferecer ao leitor um fantástico panorama do que foram os anos selvagens das lutas liberais de há, mais ou menos, dois séculos. A narrativa empolga, mesmo que possa enervar os partidários de D. Miguel ou de D. Pedro, e oferece um retrato não oficial do que acontecia por um país devastado por ódios entre os portugueses de então. .O OURO DOS CORCUNDASPaulo MoreirasCasa da Letras287 páginas