Técnicos do Estado visitam sexta-feira arquivo da Global Media Group

Arquivo inclui património do DN e JN, entre outros documentos.

Na sequência de um requerimento assinado por diversas personalidades, como os ex-Presidentes da República Ramalho Eanes e Jorge Sampaio, a Direção-Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas (DGLAB), organismo do Ministério da Cultura, decidiu esta segunda-feira abrir o processo para a eventual classificação do arquivo do Diário de Notícias.

Assim, os técnicos da DGLAB irão visitar já esta sexta-feira as instalações do arquivo da Global Media em Lisboa, deslocando-se depois, em data a combinar, às instalações do Porto. "Para já, o que está em causa é ver o material que existe, averiguar da sua importância e da necessidade ou não de ele ser classificado", revela Pedro Tadeu, diretor da Direção de Documentação e Informação da Global Media Group.

"Nós temos todo o interesse em manter este património e queremos fazê-lo bem. E também estamos interessados em manter este arquivo acessível ao público. É isso que temos feito e é isso que temos de garantir: a sua preservação e a sua disponibilização", explica Pedro Tadeu, sublinhando que, ao contrário do que foi dado a entender por algumas notícias, o arquivo do DN não se encontra ao abandono. "Existe uma equipa de seis pessoas que está a trabalhar todos os dias, em Lisboa e no Porto, digitalizando materiais, tratando do que já existe, atendendo o público. Esse trabalho está a ser feito há décadas."

Silvestre Lacerda, responsável pela DGLAB e diretor do Arquivo Nacional Torre do Tombo, explica ao DN que aquela instituição conhece bem a importância do arquivo da Global Media Group e há muito que acompanha a sua situação. Até agora não tinha havido motivos para intervir mas, tal como está previsto no decreto-lei 148/2015, qualquer cidadão ou grupo de cidadãos pode apresentar um requerimento para abrir um processo de classificação e esse pedido deve ser avaliado pela DGLAB. "É isso que vamos fazer agora", explica. "Há um grupo de pessoas que acredita que este património está em risco. Nós vamos avaliar o arquivo e perceber se há ou não motivos para que seja classificado." Se tudo correr bem, o processo burocrático ficará concluído em 20 dias, tal como previsto na legislação.

Num artigo publicado esta segunda-feira, no DN, Pedro Tadeu tinha também chamado a atenção para o facto de este arquivo - a que todos se referem como "o arquivo do DN" - é na verdade muito mais extenso, incluindo, por exemplo, os arquivos do Jornal de Notícias e do Açoriano Oriental, mas também vários outros documentos que têm um "incalculável valor patrimonial e documental".

A abertura do processo de classificação tem, para já, como consequências imediatas, o facto de este não pode ser vendido nem exportado. No entanto, todos os projetos que estavam em curso poderão continuar - como, por exemplo, o protocolo com o Arquivo Sophia de Mello Breyner, em Gaia. De qualquer forma, a eventual classificação deste património não interferirá com a sua propriedade, tratando-se apenas de um mecanismo que assegurará a sua preservação: um "dever de salvaguarda", como explica Silvestre Lacerda.

Um "arquivo único e indispensável"

O apelo público para classificar o arquivo do DN foi subscrito pelos historiadores Fernando Rosas, Pacheco Pereira e Irene Pimentel, os escritores Francisco José Viegas e José Luís Peixoto e os jornalistas Adelino Gomes, António José Teixeira, Diana Andringa, José Carlos Vasconcelos, José Mário Silva e José Pedro Castanheira, entre muitas outras personalidades que estão preocupadas com a conservação daquele que consideram "um arquivo único e imprescindível".

"Dada a excecional relevância histórica, cultural e cívica do acervo documental em questão e atendendo aos riscos de extravio, deterioração e até destruição que neste momento o espreitam, os abaixo-assinados vêm requerer à Direção Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas (DGLAB), ao abrigo do regime geral dos arquivos e do património arquivístico regulado pelo decreto-lei no 16/93, de 23 de janeiro, a classificação do arquivo histórico do Diário de Notícias como património arquivístico protegido, com vista à sua salvaguarda, organização e futuro acesso público", lê-se no texto.

O arquivo do Diário de Notícias consiste em "450 metros de prateleiras, mais de 11 mil coleções de jornais e revistas de todo o mundo, quase 35 mil livros", refere-se. De acordo com este documento, o arquivo está atualmente "arrumado num armazém, inutilizável e em risco de poder vir a desaparecer no contexto da crise que atravessa a empresa proprietária, o grupo Global Media".

Os subscritores argumentam que "o seu valor histórico e documental é absolutamente ímpar no panorama arquivístico nacional", correspondendo a mais de 150 anos de publicações em três séculos diferentes, "uma memória única e valiosa" dos períodos "da monarquia, da República, da ditadura e da democracia em Portugal" e "da revolução industrial, das guerras, do fascismo, do comunismo, da União Europeia".

"Pela primeira página do Diário de Notícias passaram as histórias que contam a história do mundo e do país: o fim da guerra civil dos Estados Unidos da América, o assassinato de Lincoln, a invenção da dinamite por Alfred Nobel, a Comuna de Paris, os primeiros jogos de futebol, a guerra dos Boers, a erupção do Krakatoa, a vacina de Pasteur, a torre Eiffel, a invenção do gramofone, do cabo submarino, do raio-X, da impressão digital e do cinema, a reinvenção dos Jogos Olímpicos, a guerra dos Boxers na China, Zapata, Lenine, as trincheiras da Primeira Guerra, Versalhes, Ataturk, a penicilina, a Coca-Cola, a pastilha elástica, Gandhi, a Grande Depressão", assinalam.

O arquivo do Diário de Notícias inclui "as cerca de 55 mil edições" do jornal e "um milhão de fotografias, 3,5 milhões de negativos fotográficos, 50 mil chapas de vidro, zincogravuras e provas de contacto, 10 mil desenhos originais (entre os mais de 70 ilustradores do jornal estiveram Rafael e Columbano Bordalo Pinheiro, Stuart Carvalhais, Almada Negreiros, D. Carlos e D. Amélia)", detalham os subscritores deste documento.

Entre os artigos publicados no jornal, são destacados uma crónica do escritor francês Victor Hugo a elogiar a abolição da pena de morte em Portugal, a reportagem de Eça de Queiroz sobre a inauguração do Canal do Suez e as entrevistas de António Ferro a Mussolini e Adolf Hitler.

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