Descobertas duas pilastras pintadas por Columbano Bordalo Pinheiro no Museu do Caramulo
PAULO NOVAIS/LUSA

Descobertas duas pilastras pintadas por Columbano Bordalo Pinheiro no Museu do Caramulo

As pilastras, com cerca de três metros de altura, apresentam “figuras muto festivas”. Ficaram tão bem guardadas na garagem que ficaram ali 70 anos”, diz a família de Abel Lacerda, que as terá comprado
Publicado a
Atualizado a

A família de Abel Lacerda, fundador do Museu do Caramulo, descobriu na casa deste colecionador de arte duas pilastras de madeira, pintadas por Columbano Bordalo Pinheiro, disse à agência Lusa a sua sobrinha neta.

Madalena Gouveia Reis contou que o seu tio avô, Abel Lacerda, “tinha guardado na garagem” da casa que construiu no Caramulo, em Tondela, distrito de Viseu, “umas colunas que teria comprado, não se sabe onde, nem a quem”.

“Há poucas semanas, numa conversa aqui em casa, o nosso tio, Miguel Lacerda [filho de Abel Lacerda], quis-nos mostrar umas colunas que estavam ali há mais de 70 anos, e com pinturas, dizia, de Columbano” Bordalo Pinheiro (1857-1929), contou.

Os sobrinhos netos, Tiago, Salvador e Madalena, filhos do irmão de Abel, João Lacerda, mostraram-se “surpresos, porque é uma casa vivida, de família, portanto, não há tesouros escondidos, e ao levantar a cobertura” que as protegia viram “uma pintura muito interessante”.

Feitos “alguns contactos e enviadas algumas fotografias para amigos de museus e especialistas em arte” a “confirmação chegou de imediato”, ou seja, “tratava-se realmente de pintura de Columbano Bordalo Pinheiro”.

PAULO NOVAIS/LUSA

Um desses especialistas foi o curador Pedro Lapa, ex-diretor do Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado, que estudou a obra de Columbano.

À agência Lusa, Pedro Lapa disse que analisou as pilastras por fotografia, mas hoje, com as imagens digitais, “é possível ver detalhes e pormenores e, sem dúvida, trata-se de pinturas decorativas de Columbano” Bordalo Pinheiro.

“Estas remetem para a época de umas que estão no Hotel da Lapa. A dança, o galanteio são temas abordados e deverão ser do mesmo período. São pinturas interessantes, mais ‘despreconceituadas’, há uma maior liberdade e isso dá-lhe um valor muito especial e criativo, até mais desprendido”, indicou Pedro Lapa, historiador de Arte, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que também foi diretor artístico do Museu Coleção Berardo.

PAULO NOVAIS/LUSA

Para este responsável, estas pinturas decorativas de Columbano, sem uma avaliação ‘in loco’ para “perceber a textura da pintura, é possível situá-las nos finais do século XIX, início do século XX”.

Para a família, a origem das pilastras tem a ver com a história de vida de Abel Lacerda que “colecionava arte para o museu e para a própria casa, que servia de entreposto” enquanto era construído o espaço museológico.

“Isto acontece nos anos [19]50 e ele viveu aqui entre 1954 e 1957, ano em que morre, e o Museu inaugura em 1959. Portanto, estas pilastras foram ficando para trás e aqui estavam estas duas peças”, com cerca de três metros de altura, relatou Madalena Gouveia Reis.

Agora, começa uma “investigação mais profunda” sobre as suas origens, embora a família já tenha uma teoria, a de que Abel Lacerda “percebeu que eram duas pilastras muito interessantes” e, “com certeza teve oportunidade, comprou-as, e ficaram tão bem guardadas na garagem que ficaram ali 70 anos”.

“Todas as outras obras de Abel estão no Museu [do Caramulo] e estas [pilastras], surpreendentemente ficaram para trás. E é um conjunto absolutamente espetacular”, realçou Madalena Gouveia Reis.

As duas pilastras apresentam “figuras muto festivas”, pintadas na madeira, o que leva a supor à família de Abel Lacerda que podem estar relacionadas "com um salão de baile de um palacete ou até de um pequeno teatro ou ainda de um espaço público”.

PAULO NOVAIS/LUSA

Para já, continuou, a ideia é “restaurar as peças tanto na pintura como na própria madeira”, uma vez que se trata de “um trabalho muito delicado que tem de ser feito com todo o cuidado, profissionalismo e tempo”.

Depois, “obviamente, ficarão expostas no Museu do Caramulo”. O objetivo é aproveitar o centenário da morte de Columbano Bordalo Pinheiro, em 2029, para o fazerem.

“Seguramente, será um momento para apresentar o resultado do processo de investigação e conservação desta maravilhosa descoberta”, afirmou.

Inaugurado em 1959, o Museu do Caramulo nasce dois anos depois da morte do seu fundador, Abel Lacerda, filho de Jerónimo Lacerda, médico que criou a Estância Sanatorial do Caramulo, para tratamento da tuberculose.

O Museu do Caramulo tem no seu espólio várias coleções: de arte, de automóveis, motos e bicicletas; de brinquedos antigos; e uma da II Guerra Mundial.

O núcleo de arte inclui obras de artistas como Pablo Picasso, Salvador Dalí, Joan Miró, Marc Chagall, Vieira da Silva, Heim Semke, Júlio Pomar, Eduardo Viana, Jorge Vieira e, de expressões anteriores ao século XX, de criadores como Domingos Sequeira, Vieira Lusitano, Vasco Fernandes e Quentin de Metsys, além de coleções de cerâmica, arte japonesa, egiptologia e arqueologia.

O espaço também acolhe mostras temporárias como a que tem atualmente até outubro, com automóveis de Fórmula 1 (F1).

Descobertas duas pilastras pintadas por Columbano Bordalo Pinheiro no Museu do Caramulo
Corsa GSE em versão desportiva será apresentado no Caramulo em setembro
Diário de Notícias
www.dn.pt