De Aurélia de Sousa a Sónia Almeida. A luz sobre as mulheres artistas

arte

De Aurélia de Sousa a Sónia Almeida. A luz sobre as mulheres artistas

Inaugura na quarta-feira "Tudo o que Eu Quero - Artistas Portuguesas de 1900 a 2000" que reúne, e põe em diálogo, as obras de quatro dezenas de mulheres artistas. Até 23 de agosto na Fundação Calouste Gulbenkian.

Se tudo tivesse corrido como o previsto, a exposição "Tudo o Que Eu Quero" que o Museu Gulbenkian inaugura esta quarta-feira, dia 2, só chegaria em 2023 depois de ter passado pelo Palais des Beaux Arts de Bruxelas (Bozar) e pelo francês Centro de Criação Cultural Olivier Debré em Tours, no âmbito da Presidência Portuguesa da União Europeia. A inauguração, prevista para fevereiro, foi cancelada após um incêndio que consumiu várias salas onde seriam mostradas obras de artistas portuguesas produzidas entre 1900 e 2020. De Aurélia de Sousa a Sónia Almeida.

A antecipação, por força dos compromissos de empréstimo já assumidos, obrigou a adaptações - das salas em U de Bélgica às duas salas de distintas dimensões em Lisboa. "Foi uma questão de ocupar espaço e espaço é tudo o que as mulheres sempre quiseram", observa Helena de Freitas, curadora da exposição com Bruno Marchand. O título vem de Lou Andreas-Salomé (1861-1937, psicanalista, "uma das figuras mais notáveis no campo da reimaginação do lugar das mulheres no espaço social, intelectual, e amoroso dos últimos séculos", escrevem no catálogo.

Helena de Freitas explica o que a exposição não é: "Não é um inventário de nomes. Não faz hierarquias. Não é histórica". O que é então? "É uma exposição de arte, não é um manifesto. É uma exposição que quer criar diálogos", frisa a curadora, respondendo a solicitações que vêm de todos os núcleos que compõem a exposição. Juntam artistas de diferentes gerações, unidas por temas ou ideias. Por exemplo, os capotes negros de Ana Vieira, na peça "Pronomes", e várias imagens de Helena Almeida. A "Sala de Jantar" da mesma Ana Vieira e os corpos de Maria José Oliveira. Ou os quadros de Paula Rego ao lado das pinturas de Menez.

"Antes de chegar ao fim, o que gostávamos muito é que a pessoa não pensasse que está numa exposição de mulheres, mas numa exposição extraordinária e que isso [o género dos artistas] deixe de ser um tema", diz Bruno Marchand, a uma semana antes da abertura, entre quadros por pendurar e a azáfama da construção. "Trata-se de inverter, contrariar ou reequilibrar o histórico apagamento a que as artistas mulheres e as suas produções estiveram sempre sujeitas. Estamos convictos de que ainda nada está consolidado na igualdade de género", escrevem os curadores.

"Tudo o que Eu Quero" começa logo por trocar as voltas ao visitante. O átrio, habitual ponto de partida, será o ponto final, com vista para "A Noiva", de Joana Vasconcelos, o candelabro construído com 12 mil tampões. Mas é na galeria de exposições temporárias que tudo começa.

No centro desta pequena sala está o auto retrato de Aurélia de Sousa (1900), "a obra número um", segundo Bruno Marchand. É a mais antiga das que aqui se podem ver, a que "sinaliza a passagem da musa para a autora". Antes, era apenas o objeto do olhar do artista.

O quadro é de pequenas dimensões (456 mm x 364 mm), marcado pelo olhar intenso de Aurélia de Sousa, que, contrariando o que era habitual, estudou pintura na Academia Julian em Paris e tinha 34 anos quando pintou esta obra... Está frente a frente com uma obra de Vieira da Silva, uma das muitas que vêm de outros museus ou coleções privadas.

Além deste encontro entre Aurélia de Sousa (1866-1922) e Vieira da Silva (1908-1992), duas pintoras que trabalharam em Paris, Helena de Freitas chama a atenção para a relação destas obras com as pinturas de Rosa Carvalho (1952) e as suas "Paisagens de Interior" (1992). A artista foi buscar uma pintura icónica de Velásquez, Rembrandt, Boucher, David e Goya onde o corpo feminino é tema e executa uma cópia dos elementos retirando a figura feminina.

Ao todo, 40 artistas estão na exposição (nenhuma nascida depois de 1980). Obras são muitas mais. "Tentámos sempre que possível ter mais do que uma obra por artista, pois, diz Bruno Marchand, a ideia foi "dar uma amostragem do universo destas autoras e não apenas sinalizar".

Os curadores falam de um deslizamento de núcleos. A mesma artista conversa com outras. A palavra dita de Luísa Cunha e a poesia concreta de Salette Tavares. Ana Vieira também conversa com Maria José Oliveira, os filmes de Filipa César com "As Mulheres do Meu País", de Maria Lamas.

Bruno Marchand considera a projeção deste livro, originalmente editado em fascículos entre 1948 e 1950, outra "âncora" desta exposição. "Um trabalho antropológico, como reação ao fascismo", diz Helena de Freitas, notando de seguida: "As fotos são muito boas".

"[Maria Lamas] inaugura sem querer uma reivindicação política que passava por uma experiência estética", diz Bruno Marchand. "Sabia que para contar aquela história, para mostrar o estado da população feminina, precisava de um elemento visual - a fotografia", considera Bruno Marchand.

"Maria Lamas rompe com os modelos oficiais de caracterização folclórica e pitoresca da população trabalhadora feminina, o que lhe permitirá desenvolver uma via ideológica documental muito particular, sobretudo, no que diz respeito à articulação de imagem e texto. A sua relevância advém não só pela matéria sociológica e antropológica produzida sobre a condição das mulheres portuguesas, mas também pelo significativo corpo de imagens que ela própria realizou de norte a sul do País, complementadas com imagens de outros autores e proveniências", escreve no catálogo a curadora Emília Tavares.

Parceria do Ministério da Cultura e da Fundação Calouste Gulbenkian, a exposição fará, como planeado, uma digressão entre março e junho do próximo ano ao Centre de Création Contemporaine Olivier Debré (CCC OD), e estará patente no edifício da dupla de arquitetos portugueses Manuel e Francisco Aires Mateus em Tours.

"Tudo o que Eu Quero"
Fundação Calouste Gulbenkian, Edifício Sede - Galeria Principal e Sala de Exposições Temporárias do Museu
De 2 de junho a 23 de agosto.
Das 10:00 às 18:00, exceto terças-feiras
Entrada Livre

lina.santos@dn.pt

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG