Há cerca de um ano, na Côte d’Azur, na secção competitiva da 77ª edição do Festival de Cannes, foram revelados dois filmes que, podemos apostar, com o passar das décadas, conquistarão o estatuto de objetos de culto — em boa verdade, esse é um processo já em marcha. São eles: Megalopolis, de Francis Ford Coppola, e The Shrouds, de David Cronenberg. O júri oficial, presidido por Greta Gerwig, conseguiu a proeza não muito feliz de os ignorar no palmarés. O primeiro, lançado nas salas portuguesas em outubro do ano passado, é uma verdadeira enciclopédia das possibilidades narrativas que, reagindo à ditadura formal do aparelho televisivo, o cinema continua a protagonizar; o segundo, uma indefinível e fascinante aventura nas fronteiras do humano, chega agora ao circuito comercial com o subtítulo As Mortalhas.Que acontece, então, em The Shrouds – As Mortalhas? E que mortalhas são estas? Talvez seja necessário fazer um esforço para dar nome às “coisas” que acontecem no filme, quanto mais não seja porque a sua dinâmica de estranheza e sedução fará com que, a determinado momento, já não tenhamos nomes para lhes dar. Nessa altura, restará o enigma mais antigo do cinema. A saber: a capacidade de as suas imagens e sons nos colocarem perante o inominável.As mortalhas têm que ver com um cemitério. Mais exatamente, Karsh (Vincent Cassel), um homem de negócios especialmente atento às transformações tecnológicas do nosso mundo, criou um sistema a que deu o nome de GraveTech (“grave” de túmulo ou sepultura) como forma de fazer o luto pela morte de Becca, a sua mulher. Entenda-se: luto através das imagens. Que imagens? Imagens dos cadáveres: enredados numa mortalha resultante de uma técnica inovadora, Becca e os outros corpos sepultados, em decomposição, podem ser observados a partir do exterior (em rigor, através de uma aplicação de telemóvel apenas acessível aos familiares de cada um dos defuntos). . Filme de terror, então? Nem de longe, nem de perto — nada a ver com as convenções correntes de um género afogado no comércio de infinitas sequelas. Aliás, em diversas declarações públicas, antes mesmo deste filme, o próprio Cronenberg tem recusado aceitar a classificação de “body horror” que algum jornalista (ou crítico de cinema) de equívoca imaginação ajudou a colar ao seu cinema e, em particular, a formas surreais de representação dos corpos humanos que encontramos em filmes como A Ninhada (1979), A Mosca (1986) ou Irmãos Inseparáveis (1988).A primeira confissãoPara acedermos ao misto de negrume existencial e alegria poética, pulsão de morte e pulsão de vida, que define a personalidade de Karsh, valerá a pena citar com alguma demora as suas palavras. Assim, logo numa das primeiras cenas, ele descreve com precisão o modo como vive (ou tenta viver) através das memórias de Becca: “Quando desceram o corpo da minha mulher para a terra tive um anseio intenso e visceral de entrar para o caixão com ela. Foi tão forte... Não suportava que ela estivesse ali sozinha e que eu nunca mais soubesse o que lhe estava a acontecer. Não foi uma coisa literária ou intelectual, foi algo aqui mesmo, que me puxava — com muita força.”Quem escuta esta confissão é uma mulher que, perante o radicalismo da experiência narrada por Karsh, pergunta... se pode fumar, para logo a seguir desaparecer da sua história. Em todo o caso, ainda o questiona sobre uma possível cremação do corpo de Becca, ao que Karsh responde negativamente: “Não, ela era judia.” Karsh não é judeu, define-se mesmo como “qualquer coisa bielorussa e ortodoxa de leste”. E acrescenta a sua explicação: “Para os judeus, o corpo deve desintegrar-se lentamente para que a alma, obcecada por esse corpo, e que ama esse corpo, que paira sobre esse corpo e tem relutância em abandoná-lo, que apenas viu o mundo através dos olhos desse corpo, tenha tempo para gradualmente deixar ir esse corpo, despedir-se dele, e depois ascender ao Céu.”Será que, na sua estrutura de fábula tecnológica do século XXI, The Shrouds acaba por nos servir uma história redentora, desembocando numa paisagem celestial? A resposta é claramente negativa (ainda que, com a prudência de não revelar mais do que o devido, possamos dizer que, ironicamente, o plano final nos apresenta um céu com alguma promessa de futuro). O que está em jogo na odisseia de Karsh começa na ausência dessa secreta imponderabilidade que ele encontra na herança primitiva da cultura judaica: sem alma para viajar para um mundo “alternativo”, como viver com o corpo ausente de Becca?A cena em que Karsh descobre a profanação do seu cemitério, com várias campas destruídas, incluindo a de Becca, é tanto mais perturbante quanto não pode deixar de nos remeter para imagens (de vários contextos políticos e diferentes épocas históricas) em que vemos os efeitos de actos de violência contra cemitérios judaicos. Em qualquer caso, no universo de Karsh, assombrado pela presença/ausência de Becca — ausência do corpo, presença do cadáver —, passado e presente estão unidos num tempo sem medida humana. Que é como quem diz: capaz de desafiar as medidas humanas do tempo. A certa altura, evocando a sua mulher, ele diz: “Eu vivia no corpo de Becca. Era o único sítio onde eu de facto vivia. O corpo dela era... o mundo — o significado e o propósito do mundo.”A segunda confissãoEscusado será dizer que tais palavras não “encaixam” em nenhum discurso corrente, típico das lengalengas “sociológicas” que circulam pelo quotidiano televisivo. Para lá da sua dimensão existencial, do seu questionamento filosófico e também do seu subtil humor, The Shrouds é mesmo um objeto elaborado contra o simplismo profilático de muitos discursos sociais, incluindo muitas narrativas publicitárias, que encenam o corpo como uma máquina pessoal que podemos tratar (e “gerir”, como dizem os tecnocratas) como se fosse uma “app” de transparentes automatismos. Reencontramos em Cronenberg essa consciência paradoxal, angustiada e feliz, sobre a qual escrevia Roland Barthes quando, há mais de meio século, assumindo uma herança de uma só vez literária e psicanalítica, descrevia a sempre possível aventura do corpo “seguir as suas próprias ideias”. Porquê? Porque “o meu corpo não tem as mesmas ideias que eu”. . Não tem, por isso, nada de acidental que, uma vez mais, as palavras confessionais de Karsh sejam escutadas por uma mulher, Terry. Ou por várias mulheres? A pergunta justifica-se, não só porque Terry é irmã de Becca, mas também porque ambas são interpretadas por Diane Kruger (num trabalho de delicados contrastes que, num mundo ideal, lhe teria valido vários prémios de interpretação). Aliás, Kruger interpreta ainda uma terceira figura, de seu nome Hunny (forma derivada de “honey”: querida), nada mais nada menos que o avatar do computador de Karsh, capaz de lhe garantir a boa execução de muitas tarefas de comunicação e investigação, mas também de escutar as suas queixas existenciais...Ainda que não caindo na miséria emocional de muitos “talk shows”, lembremos que este é também um filme de luto de Cronenberg (ele próprio o disse) pela sua mulher, Carolyn Zeifman, falecida em 2017. Reencontramos, assim, a ferida nuclear do universo do cineasta. A saber: a pluralidade indecifrável que as suas personagens masculinas contemplam no universo das mulheres; sem esquecer, já agora, que a caracterização de Vincent Cassel no papel de Karsh (a começar pela cabeleira grisalha) o torna num “duplo” de Cronenberg. Enfim, o desejo insaciável de reconhecer — e, no limite, amar — essa impossibilidade de decifração confunde-se com a vida íntima do próprio cinema, desejo tão extremo que chega ao ponto, como acontece em The Shrouds, de desafiar o silêncio da morte.