Quando perguntamos porque devem as pessoas ir a Braga ao novo MUZEU - Pensamento e Arte Contemporânea, José Teixeira responde, entre risos: “Para não irem à farmácia”. O presidente do grupo dst e colecionador das obras de arte contemporânea que agora podem ser vistas no museu que abre amanhã, 25 de abril, acredita que a cultura não só dá saúde como leva a imaginação a chegar “a lugares impossíveis”. José Teixeira prefere um trabalhador emancipado a um trabalhador obediente, e por isso a cultura é quase uma obrigação na empresa (ver texto abaixo). “A arte tem utilidade. O argumento de que a pintura de uma cama não serve para dormir nela é um argumento com gramática simplista. Somos mais aristotélicos, por Aristóteles considerar haver um valor terapêutico na arte”, sublinhou o empresário aos jornalistas na apresentação deste novo polo de arte contemporânea no norte do país.A coleção de arte do empresário integra cerca de 1500 obras de 240 artistas, portugueses e estrangeiros e no MUZEU estão expostas cerca de cem peças. O Palácio Vilhena Coutinho, que em tempos albergou um tribunal, vizinho dos Paços do Concelho de Braga, esteve quase para ser um hotel, até que José Teixeira viu a oportunidade de concretizar uma ideia que já vinha a alimentar: um espaço para partilhar com a sociedade as obras que lhe enchem as paredes de casa (e do campus empresarial). A arte não é só para as elites e contribuir para a democratizar é um desígnio de José Teixeira, que também é dono da galeria ZET, com espaços em Braga e Lisboa - o “z” do MUZEU remete para Zé Teixeira e para a ZET. “Eu lembro-me de, muito novo, ir a uma galeria e, ao entrar na porta, receber um olhar que era ‘tu não és daqui, não és desta tribo, a arte não é para ti. E eu quis, quando criámos a ZET, que fosse um processo ao contrário, que se democratizasse o acesso à arte”. .O empresário revela que pôr à disposição do público as obras de arte que colecionou - e que continua a colecionar -, mais do que responsabilidade social, é um dever. “Porque haveria de ser proprietário de coisas e fazer uma cerca e dizer a beleza é só para mim? Não, a beleza é para todos. A maior parte destas obras, as principais, estavam em minha casa, a minha mulher, as minhas filhas e os meus irmãos viam-nas. E eu trouxe-as para aqui e foi uma alegria brutal, até me arrepio - dar é receber”. O palácio foi requalificado pelo arquiteto José Carvalho Araújo (com as portas trabalhadas pelo artista José Pedro Croft) e o espaço expositivo, de três mil metros quadrados, distribui-se por cinco pisos. Sob o mote Sejamos realistas, exijamos o impossível, podem ser vistas obras de arte de 85 artistas, 45 nacionais e 40 internacionais, de 16 países. Entre os artistas portugueses estão Pedro Cabrita Reis, Julião Sarmento, Fernanda Fragateiro, João Penalva, Pedro Calapez, Helena Almeida, Paula Rego, Ana Vidigal e muitos outros. Internacionais estão representados nomes como Alex Katz, Artur Lescher, Cândida Höfer, Nan Goldin, Richard Long ou Jeff Koons (também há uma obra de Pablo Picasso). O alemão Anselm Kiefer tem uma sala só para ele, com oito obras, entre elas a escultura Ave Maria Turris Ebúrnea (2017) que aparece no documentário que o cineasta Wim Wenders fez sobre o artista, Anselm - O Som do Tempo. Cinco destas obras foram adquiridas propositadamente para o museu diretamente ao artista. “O Kiefer é a pessoa de que tenho mais obras, e sabe quem é que vem a seguir? Aquele que é o meu padrinho de casamento, aquele com o qual eu comecei a ter obras de arte, que é o Alberto Péssimo”, diz José Teixeira. “Tenho a Verónica, tenho o Cristo tenho a obra do meu pai, tenho uma menina de Velásquez e tenho uma obra que foi a troca que eu fiz com ele por um portão de garagem da casa, quando tinha 20 anos”. Foi com esta permuta com Alberto Péssimo, cenógrafo da Companhia de Teatro de Braga, que a coleção de arte de José Teixeira começou a nascer, há quarenta anos. Quanto a Anselm Kiefer, o empresário descreve-o como “o funambulista máximo, o homem que arrisca mais. Porque há muitos outros artistas em que o funambulismo deles é estender uma corda rente ao chão a ver se caem - só podem é tropeçar na corda. E eu gosto é daqueles que põem a corda sem rede. Kiefer pega na destruição das cidades e atira-nos com elas à cara. É um homem muito provocador com os temas sociais, trabalha-os muito e isso interessa-me muito também”. O colecionador destaca ainda “o Rui Chafes, esse lado espiritual”, ou “o Cabrita da loucura”. Uma das obras de Pedro Cabrita Reis em exposição representa o papa Inocêncio IX e é constituída por 18 quadros em óleo sobre tela - I.X #1 (after Velásquez & Maybe Bacon). “Em relação ao papa Inocêncio que ele aqui tem, eu não tinha esta peça, tinha três outras obras do Cabrita, mas acabaram por ir outra vez para a minha casa, porque ele ligou e disse, ‘Zé, eu vou amanhã ao museu com os meus escuteiros e vou montar a peça dos papas. Eu respondi: ‘não venhas sem fazer preço’. Comprei-lhe a peça, mas foi um negócio justo”, conta José Teixeira. A data de abertura do MUZEU, 25 de abril, não foi escolhida ao acaso. “Quando nós começámos a ver a agenda do ano dissemos abril, então vamos abrir Abril, porque Abril está um bocadinho fechado ou, pelo menos, algumas pessoas andam a fechar Abril”, diz o empresário que vê o museu como espaço de pensamento e reflexo dos valores do grupo. O museu, fruto de um investimento de 40 milhões de euros, vai ter um orçamento anual de 2,5 milhões, entre 700 e 800 mil serão custos de manutenção da estrutura, e o restante será para a compra de novas obras, revela o presidente do grupo dst. O MUZEU tem uma equipa de 20 pessoas (algumas partilhadas com a galeria ZET) e quem a lidera é Helena Mendes Pereira, diretora-geral e curadora, que selecionou com o empresário as mais de cem obras da coleção em exposição. Helena diz que a curadoria foi um processo participativo, envolvendo também, em alguns casos, os próprios artistas. Dividida pelos núcleos Memória e Utopia, Praça, Elogio ao Trabalho, Corpo, Poesia e Protesto, Alma da Casa, Olimpo (galeria Kiefer), Infinito e Mais Além, a organização das obras no espaço reflete a forma como a coleção foi constituída, ao gosto de José Teixeira (e assim continuará a ser, garante o empresário).“Nós temos uma coleção muito diversa, que não foi construída by the book, para responder a nenhum livro de História de Arte, é uma coleção que recebe vários inputs. Recebe, por um lado, o input dos projetos que a dst foi apoiando, como os artistas que passaram pela galeria ou os que estiveram em residência artística, e depois há a outra parte, que são os artistas de que o engenheiro gosta, o gosto pessoal do colecionador”, diz a curadora. . Por isso, não há uma ordem diacrónica, há um diálogo de artistas de diferentes gerações e geografias. A ideia inicial era explorar a temática do 25 de Abril, mas faltavam obras. “Esses 50 anos do 25 de Abril têm um corolário, um conjunto de artistas, um tipo de obras e nós não temos isso. Mas o universo revolucionário interessa-me muito como curadora, e queria um título que viesse da rua, que viesse do poder popular. Então comecei à procura de frases e fui parar à de Gérard-Aimé”. Trata-se de Sejamos realistas, exijamos o impossível, que aparece numa fotografia de um grafiti na Pont de Neuilly, no contexto do Maio de 68, e dá título à exposição inaugural do museu. “Essa frase, de alguma forma, também trazia a ideia da dst da utopia, do imaginário impossível, de fazer o que ainda não foi feito”. Helena Mendes Pereira diz que vale a pena ir a Braga ao MUZEU, “em primeiro lugar, pela qualidade da coleção, e pela oportunidade de ver um conjunto de artistas internacionais em grande número, que não há noutros locais”. E destaca alguns: “O Kiefer, evidentemente - é a única sala de museu no mundo dedicada exclusivamente ao Kiefer -, o Butzer, o Jason Martin e o Julien Opie. Tenho pena de serem todos homens, mas na arte portuguesa há uma oportunidade para vermos as maiores artistas portuguesas mulheres do nosso tempo”. Bernardo Pinto de Almeida, convidado a participar neste processo, destaca precisamente “a fortíssima presença de um significativo conjunto de mulheres artistas”, nomes como Paula Rego, Helena Almeida, Maria José Oliveira ou, de gerações mais recentes, Fernanda Fragateiro, Ana Vidigal e Sandra Baía. O crítico de arte considera que o MUZEU integra “obras de notável envergadura”, que lhe garante “uma identidade própria, singular”. .Um poema diário no email e o consumo de cultura a contar para a avaliação. É assim na dst No campus do grupo dst há obras de arte espalhadas por todo o lado, dentro e fora de portas. A propósito da abertura do novo museu, a empresa levou jornalistas nacionais e internacionais a percorrer o espaço da sede, do tamanho de 32 campos de futebol, explica Helena Mendes Pereira, que nos acompanha neste percurso. Passamos por obras grandes de artistas como José Pedro Croft, Pedro Cabrita Reis, Fernanda Fragateiro e muitos, muitos outros. A curadora diz que é a "coleção permanente da dst" e que vai ser feito um catálogo com elas. Fernanda Fragateiro também está presente nesta visita e junto da sua escultura Em Construção a artista explica que a obra nasceu de uma ruína, a base de uma ponte que não chegou a ser concluída. É feita em betão e aço galvanizado, e a cor laranja de algumas partes dialoga com a obra, não muito longe dali, de Eduardo Souto Moura, utilizador de betão dessa cor, e que desenhou uma das fábricas do complexo industrial. Álvaro Siza Vieira também projetou uma das unidades industriais do sítio. A estes dois arquitetos premiados com um prémio Pritzker junta-se mais um: Norman Foster. O renomado arquiteto britânico criou com a dst, naquele campus, o Living Lab, um protótipo em escala real de construção pré-fabricada e modular. A chamada construção industrial é uma aposta da dst e foi Norman Foster quem contactou a empresa para este projeto, revela Helena Mendes Pereira.No campus empresarial há espaço para um centro de saúde, uma creche (em construção), uma capela (de Nuno Ferreira Capa) , m cabeleireiro, atelier de pintura, aulas de filosofia, uma sala para teatro - cultura para usufruir em horário laboral, garantem.José Teixeira explica que todos os dias os trabalhadores recebem no email um poema escolhido por um deles e na avaliação anual o consumo de cultura, como a leitura de livros, idas ao teatro, etc., também conta. O grupo dst tem hoje mais de meia centena de empresas, emprega quatro mil trabalhadores e fatura cerca de 700 milhões de euros anuais. Nascida em 1945, a Domingos da Silva Teixeira dedicava-se à exploração da pedra. Hoje centra-se na engenharia e construção mas está também nas renováveis, telecomunicações, ferrovia, ambiente e noutros setores. José Teixeira, engenheiro para quem a cultura representa liberdade de espírito, não esquece o passado. “Eu fui um trabalhador infantil, vivi tempos miseráveis, difíceis, a minha casa não tinha livros, comecei a ter livros com a carrinha da Gulbenkian”. Para o presidente da dst, só faz sentido partilhar: “A riqueza que nós temos foi criada também a partir da comunidade, porque havia estradas, luz, universidade, hospitais, ensino público. É devolver à comunidade alguma parte do que se ganhou.” .'Arte & Moda'. Um novo olhar sobre a coleção Gulbenkian, que junta obras de arte e alta-costura .Inovar para sobreviver: oleiros e artistas unem-se para chegar a novos públicos e garantir o futuro