Da Índia com amor (e nostalgia)

Uma pérola escondida no catálogo da Netflix. A Rosa de Bombaim, de Gitanjali Rao, estreado há poucos dias, é uma animação indiana melancólica, com sabor a açafrão e um toque de romance à Bollywood.

No interior de um cinema de Bombaim, uma vasta audiência fanática vibra com o herói na grande tela: um homem de camisa aberta, peito musculado e óculos escuros que entra em cena para salvar a beldade nas mãos do vilão. Do lado do público vê-se um jovem mais pacato que assiste à cena com um espanto inocente, até que a projeção falha no momento do beijo e os restantes espectadores saem da sala a protestar com o que parece ter sido um ato deliberado de censura. O jovem, no entanto, permanece sentado, introspetivo. Aquele será o filme da sua vida. De resto, a identificação com a personagem heroica vai acompanhá-lo nas ruas da cidade onde se cruza com uma rapariga que faz guirlandas de flores para vender - é a futura mulher em apuros.

A sequência de abertura da animação A Rosa de Bombaim, de Gitanjali Rao, com esse filme dentro do filme, assinala a homenagem a Bollywood que se pretende estabelecer, desde logo, através do protagonista masculino. Salim é um refugiado de Caxemira que vende ramos de flores do outro lado da rua em que Kamala, a rapariga dos seus sonhos, está sentada a fazer pacientemente as guirlandas. Ele, muçulmano, carrega uma tragédia familiar; ela, hindu, também tem o seu fardo: fugiu de um casamento arranjado na sua aldeia, e em Bombaim sustenta a irmã mais nova e o avô, não só com os ornamentos florais mas sobretudo com o trabalho noturno de dançarina num bar ilegal (de onde provém aqui a figura do vilão, um chulo).

Separados pela religião, os dois amantes platónicos apenas podem trocar olhares de longe e imaginar-se juntos. É aí que Gitanjali Rao muda a técnica do desenho e dá azo à criatividade visual - apanágio do filme - em sequências oníricas, de evasão, que mostram Kamala em apelativos cenários pictóricos da Índia antiga, como uma princesa do Império Mogol (1526-1857).

Estes interlúdios de fantasia que quebram a dureza da realidade são uma constante no labor da animação de Rao, que através de outra personagem, Ms. D'Souza, antiga estrela de cinema, busca ainda a nostalgia das películas dos anos de 1950, pintando as ruas com um idílico preto-e-branco sempre que ela passa.

Ms. D'Souza dá aulas particulares de inglês à irmã de Kamala e é, aliás, a grande fonte de melancolia cinéfila de A Rosa de Bombaim. Entre antiguidades e relíquias, com o gira-discos sempre a tocar canções de outro tempo - quais notas vintage de melodrama -, ela vive a viuvez como um regresso permanente ao passado.

Algo que se aplica, da mesma forma, à realização feminina de Rao, imbuída do espírito dos clássicos, como se percebe, por exemplo, pela referência à cena icónica do par romântico debaixo do guarda-chuva em Shree 420 (1955), de Raj Kapoor, precisamente, um filme sobre um vagabundo chapliniano que veio do interior para Bombaim à procura de trabalho.

Um migrante como Salim e Kamala.

É assim, entre histórias de amor, do passado e do presente, que A Rosa de Bombaim fala da classe trabalhadora na maior cidade da Índia, assentando esse retrato social numa combinação de cores e sons que timbram a autenticidade.

Quer dizer, a quintessência desta animação está, por um lado, na rica paleta que faz sobressair os tons de vermelho, laranja e açafrão, a dominar o ambiente urbano, e, por outro, na musicalidade própria das ruas de Bombaim, com a sua cacofonia mecânica e a agitação multicultural - que pode até integrar a festividade de uma procissão de casamento. Tudo isto ganha uma expressão absoluta pela pintura à mão, frame by frame, de Rao, que deslumbra pelo sentido de detalhe e pela fluidez das técnicas entre as sequências "realistas" e os devaneios da mente da protagonista.

Raro como é encontrar-se uma animação made in India, este é um caso notável de delicadeza artesanal, primor visual, que incorpora as especificidades de uma cultura, arte popular e contexto citadino, sem se prestar à leitura turística. Pelo contrário, A Rosa de Bombaim nasce justamente de uma visão desencantada da "grande cidade" e tenta tecer a sua angústia num paralelismo entre diferentes personagens que contam a narrativa de um mesmo lugar, uma urbe ligada à memória do cinema e para onde confluem os foragidos - daí a dispersão que se pode sentir a certa altura, por não ser apenas um romance que está em causa.

Esta pequena preciosidade, por sinal, despejada no catálogo da Netflix sem nenhuma pompa e circunstância, é a estreia mais feliz naquela plataforma durante o último mês. Um filme lançado na Semana da Crítica de Veneza, em 2019, que só agora, depois de ter feito o circuito dos festivais, está disponível online.

Sendo apenas a primeira longa-metragem de Gitanjali Rao, o trabalho desta indiana já tinha merecido altos elogios em 2006, na Semana da Crítica de Cannes, com a curta Printed Rainbow, sobre uma velha filumenista que, através das capas coloridas das suas caixas de fósforos, mergulha a imaginação em diversas paisagens. Ora bem, o mesmo se vê acontecer em A Rosa de Bombaim, com Salim e o filme de Bollywood, Kamala e Império Mogol, Ms. D'Souza e a era de ouro do cinema hindi. Figuras que cedem às delícias da evasão pelas leis românticas da pintura animada.

dnot@dn.pt

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