"D. Filipa de Lencastre gostou de Portugal, encantou-se não só pelo rei como pela terra"

Entrevista a Maria João Fialho Gouveia, que acaba de publicar D. Filipa e Dom João I - Unidos pelos Amor e pelo Reino (ed. Bertrand). Do casamento do mestre de Avis com a princesa inglesa nasceria a ínclita geração tão elogiada por Camões.

O casamento do D. João com Filipa de Lencastre é um casamento de conveniência, arranjado para favorecer os laços Portugal-Inglaterra depois de Aljubarrota. É possível dizer que houve uma espécie de amor verdadeiro neste casamento ou é exagerado?
Não é exagerado. Começou por ser um casamento político. D. João I era filho de um rei e de uma burguesa, portanto convinha elevar-lhe a estirpe e arranjar-lhe um casamento dentro da realeza europeia para o consagrar como um rei, a realeza, o sangue elevado. E de facto foi-lhe dado à escolha duas irmãs, Filipa e a irmã mais nova, Catarina, que mais tarde veio a casar-se com o rei de Castela. Catarina tinha 16 anos e Filipa tinha mais dez e ele escolheu a mais velha, engraçou com ela. Casaram-se por questões políticas, para fortalecer uma aliança que já existia entre Portugal e Inglaterra, mas depois acabaram por se encantar um com o outro. A nível cultural tinham muitas semelhanças. D. João I, tendo sido mestre de Avis, era cultíssimo e vinha da corte de D. Pedro, que também era um homem bastante elevado, e a corte de Filipa, que era neta do rei Eduardo III de Inglaterra, também era uma corte muito elevada que apadrinhava os artistas. Tinha lá escritores, pintores, pensadores, e ela habituou-se a gostar de cultura.

Essa parte cultural também explica porque é que eles dão origem à ínclita geração. Fala destes príncipes Camões e o próprio Pessoa considera essa geração fantástica. Porque eram todos eles figuras muito mais cultas do que era habitual na época, mesmo na realeza?
Sem dúvida. Embora goste muito de D. João II, que foi um rei extraordinário, tenho de dizer que se calhar D. João I foi "o" rei porque a cultura da corte dele e da família era muito invulgar na época, porque eram todos do mesmo nível. D. Duarte e D. Pedro escreveram, o infante D. Henrique gerou as Descobertas, muito ligado ao conhecimento à ciência náutica. Na altura as senhoras não educavam os filhos mas ela não abdicou disso e foi Filipa a educadora dos filhos, daí essa elevação. Tinham bibliotecas fantásticas nos seus palácios, cultivavam serões com músicos, poetas, danças, etc, E depois Filipa gostou de Portugal, encantou-se não só pelo rei como pela terra e abraçou de tal maneira a causa portuguesa que chegou a governar em episódios esporádicos e foi uma rainha muito apaixonada por esta nação que passou a ser sua.

Nos filhos tão extraordinários há também uma mulher, que é Isabel de Borgonha, o que significa que eram um casal arejado de ideias. A educação não foi só para os homens mas também para a filha.
Isso é uma coisa curiosa. No livro ponho-os lado a lado porque também quiseram que Isabel tivesse essa educação. Houve uma que morreu bebé, Branca, mas Isabel também se tornou uma mulher notável, tanto que veio a casar-se com o duque da Flandres, que também era um homem muito culto, e também se apaixonaram e viveram felicíssimos e recriam uma corte muito culta, e precisamente por essa educação que recebeu dos pais. E porque na corte portuguesa nessa altura, ao contrário do que acontecia com D. Fernando, em que era uma devassa total, se cultivou a cultura, se alimentou o gosto pela cultura e pela arte, isso ajudou a que todos tivessem um nível muito elevado.

D. Filipa morre na altura da conquista de Ceuta.
Dias antes de eles partirem.

Mas é ela que os arma cavaleiros. Esta mulher também está na história dos Descobrimentos?
Ela também apoia. Ao princípio ficou preocupada, quando soube que os filhos iam e nessa altura só não foi D. Fernando que ainda era muito jovem. Mas ficou muito preocupada quando soube que D. Duarte ia... e o marido, que ela pensava que não ia.

Isso é extraordinário: o rei e o príncipe herdeiro na aventura militar noutro continente. E Filipa preocupada como mulher e mãe.
​​​​​​​Mas ela depois disse que primeiro estava a nação e os interesses da pátria. O rei fez depender a conquista de Ceuta não só do conselho régio como da opinião da mulher. Ninguém partiria para Ceuta sem ela dizer que sim. Ele confiava imenso nela e acabou por ficar nas mãos dela. Já no seu leito de morte ela acabou por armar os filhos cavaleiros e o marido deu-lhe uma coroa de espinhos, que era uma parte do madeiro de Cristo, e depois chegaram as espadas e ela armou-os duas vezes. Eles esperaram, não partiram antes de a mãe morrer e depois da morte dela partiram.

D. João I sobreviveu mais ou menos 15 anos à mulher. Como é que ele era como viúvo?
Não se lhe conhece amantes. O único caso que se conhece é antes do casamento quando ele devia respeitar os votos de celibato e não respeitou. Ele era mestre de Avis, conheceu uma burguesa judia alentejana, Inês Pires, com quem acabou por ter dois filhos: Afonso, que se tornou duque de Bragança, e Beatriz. O rapaz tornou-se primeiro duque de Bragança casando-se com a primeira filha de D. Nuno Álvares Pereira. Uma curiosidade: D. Nuno Álvares Pereira quando ganhou aos espanhóis em Aljubarrota tinha só 23 anos. Era um estratega fabuloso mas era um miúdo. E D. João era um pouco mais velho do que ele.

O facto de, ao contrário do que era tradição, o túmulo de D. João I e D. Filipa ser de casal, na Batalha, é também uma celebração deste casamento único?
​​​​​​​Sim, os túmulos são lado a lado. Não me recordo se é uma tradição inglesa mas penso que sim. Se bem que os de Pedro e Inês já tenham estado em várias posições: frente a frente para que quando ressuscitassem se vissem um ao outro, lado a lado. Mas neste caso D. João mandou construir o panteão para a sua família, e existe na Batalha, e realmente os túmulos estão lado a lado. Ele ficou muito entristecido com a morte dela, foi um casal que ligou muito bem. Se oficialmente houve amantes, não sei. Antes do casamento conhece-se Inês Pires e a tal célebre história do beijinho que ele roubou a uma cortesã no palácio da vila de Sintra, e que a rainha o terá apanhado no ato. As outras damas da corte trataram de espalhar com grande velocidade a história e ele mandou pintar o teto da sala, que é a Sala das Pegas, aquelas aves da família dos corvos pretos e brancos que falam muito, e mandou pintar com o número das senhoras da corte, que eram 129, pôs uma rosa para dar a entender que eram senhoras e pôs debaixo a sua divisa pour bien. Como é que explicou a D. Filipa que tinha beijado por bem, isso é que a história não nos conta.

Faz sentido, pelo protagonismo da D. Filipa, que ela esteja no Padrão dos Descobrimentos, onde é a única mulher?
​​​​​​​Faz todo o sentido porque ela participou no projeto de preparação de Ceuta, armou os filhos cavaleiros e abraçou a ideia de Portugal conquistar e crescer. Se alguém merece estar ali como senhora, é ela.