Como um estrondo 

De Apichatpong Weerasethakul , vencedor de uma Palma de Ouro, aí está o tão esperado Memória, crónica de uma mulher a lidar com alucinações sonoras. Tilda Swinton é a peça central de um filme para ser visto com as nossas antenas no ar perante toda esta metafísica.

A bandeira de que este é um filme com valores sensoriais já fatiga desde o Festival de Cannes no verão passado. O novo filme de Apichatpong Weerasethakul claro que é uma demência sensorial, claro que é uma meditação sobre o poder do som do cinema, mas tudo isso é tão óbvio que se torna preguiça sublinhar. Aquilo que importa realçar sobre esta obra do tailandês é a sua teimosia em demonstrar um poder de um cinema que nos transporta a estados alterados como um presságio de um novo caleidoscópio cinematográfico. Tal como Mekong Hotel ou O Tio Bonmee que se Lembra das Suas Vidas Anteriores, o convite para entrarmos no seu transe de mistério traz dimensões de uma transcendência da qual se sobrepõem valores místicos ou desígnios culturais. De Joe, como é conhecido no mundo mais ocidental, espera-se sempre o perfume do desconhecido, o imprevisível, mesmo que este Memória seja o objeto que nos vem dizer que há um ponto de não retorno que se torna orgânico.

Tilda Swinton interpreta uma escocesa que durante uma estadia na Colômbia começa a sofrer de um estranho fenómeno: apenas ela ouve um estranho bang. Um som que a deixa sobressaltada, algo para o qual a lógica parece não ter explicação. Serão vibrações do passado ou achados de uma outra vida? Um estrondo que parece também apontar a uma pista de sobrenatural. No epicentro da estranheza há um desejo de perdição na selva, território favorito do cineasta. Afinal, esta mulher está ou poderá estar a reverberar fantasmas de uma história de violência colombiana. Mas nada é explícito e enquanto visita uma pessoa amiga no hospital percebe que essas intensas audições podem ser algo para além do real. O espectador vai percebendo, a léguas, que é lirismo de cinema ou uma "maladie" de ficção da mais refinada arte cinematográfica. É o tal mistério que desta vez tem mais intensidade e que apresenta um confronto mais (ainda mais, sim) meditativo com o espectador. Só se pede para não entrarmos cansados, mesmo quando o repto pode sugerir deixarmo-nos ir. Ir, mas para onde? Tal como a personagem de Swinton somos convidados para testemunhar algo que não se explica, da mesma maneira que não se explicam alucinações da nossa memória. Memória de algo que não vivemos. Ou como um barulho que nos desconcerta pode ser a chave para uma decifração de uma história de extraterrestres, história essa que pode misturar morte e naves espaciais, sono e o dom de esquecer ou recordar.

Em última instância, o cineasta que é também artista visual, está a querer baralhar os esquemas das possibilidades de cinema. Está a distorcer filtros do narrativo para sublimar o orgasmo da experiência de tons e formas. E nesse usar do som ou do ruído como arma de material de cinema está a interrogar o público quanto à sua zona de desconforto numa sala de cinema. Aí, não haja dúvidas, este é um filme para se ver em grande ecrã a fim de se partilhar essa tal experiência sensorial. Uma experiência que provoca desejo de ficção e escapismo, mas que ainda é método profilático do prazer do arrebatamento. Numa entrevista a sair domingo neste jornal, Tilda e Joe (como o realizador é conhecido) têm muito a dizer sobre isso mesmo.

Se Memória ainda pode ser visto como o cúmulo do intrigante, este é igualmente o filme que nos coloca a nós espectadores como parte da tal experiência sensorial. A nossa perdição sobre isto tudo é fator de cumplicidade com aquilo que Joe pretende. A dada altura, podemos estar baralhados ou perdidos, mas continuamos naquele território. Continuamos nesta arraial de ficção-científica que, afinal, é lenta, deliberadamente lenta, tão lenta que é fácil de dizer que é "slow sci-fi". Acima de qualquer coisa, este é um filme de um cineasta que faz das tripas-coração para provar que este é um delírio só dele, que apenas poderíamos estar dentro de um sonho de Apichatpong Weerasethakul. Enfim, sonho ou pesadelo, desde que tenha transcendência, algo que às vezes este argumento (coisa estranha de se referir no seu cinema...) manda às urtigas e tudo se fique pelo lado mais sinalizador...

Mais do mesmo? Sim, mas quando o mesmo traz novas camadas tudo parece manter a raíz hipnótica, mesmo quando se torna indisfarçável que não é de todo o melhor filme do realizador. Memória também parece não ter ambições desse tipo, apenas quer ser um entretido predicado neurológico acerca da vibração deste planeta, vibração que se firma num conto em que se pede a reflexão da beleza e tristeza no mundo. Ao fim ao cabo, mais do que espectadores do cinema, aqui, tornamo-nos recetores de um espetáculo sensorial global cujo abalo sonoro é tão só uma variante de uma fantasia cinematográfica que convoca vultos da loucura.

No meio disto tudo, há uma Tilda Swinton que se deixa tomar explicitamente pela desorientação desta mulher. Um corpo estranho pensado para ser estranho, nada contra, apenas é bom perceber-se que ainda há quem imagine ficção, cinema ou televisão, como algo de bruscamente inquietante. Os hipsters vão continuar a ter aqui um porto de abrigo. Em Cannes, o júri de Spike Lee ficou convencido e Memória venceu o respetivo prémio do júri.

dnot@dn.pt

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