Claudia Piñeiro não esqueceu conselho de Saramago

No dia em que passam 20 anos sobre o anúncio da atribuição do Nobel da Literatura a José Saramago, a autora argentina Claudia Piñeiro recorda o conselho literário que o escritor lhe deu.

A escritora argentina Claudia Piñeiro já esteve em Portugal três vezes e de cada vez vai conhecendo mais um pouco do país. Mas antes de ser convidada para um debate na Gulbenkian e participar nos festivais literários de Óbidos e da Póvoa de Varzim, o Folio e o Correntes d'Escritas, já conhecera um português que lhe dera um bom conselho literário. Trata-se de José Saramago, que fazia parte do júri do Prémio Clarín do Romance 2005 que escolheu o seu livro As Viúvas das Quintas-Feiras como o vencedor da edição.

Hoje, quando passam exatamente vinte anos sobre o anúncio da atribuição do Nobel da Literatura a Saramago, em 1998, Claudia Piñeiro falou com o DN a propósito do seu novo romance, Uma Pequena Sorte, mas não esqueceu da noite em Buenos Aires em que o escritor português lhe disse repetidamente que ele e a autora espanhola Rosa Montero, também membro do júri, queriam falar com ela. Piñeiro recorda assim Saramago: "Ele disse-me que queriam falar comigo, mas havia tanta confusão na cerimónia que eu não fui logo ter com eles. E de cada vez que nos cruzávamos, Saramago repetia: "Queremos dizer uma coisa sobre o final do livro." Ele perseguia-me por todo o lado até nos reunirmos. Então, ambos sugeriram que trabalhasse o romance no final, porque eu revelava mais do que devia e não dava espaço para a imaginação do leitor."

Para Claudia Piñeiro, a conversa transformou-se numa "aula magistral de literatura e uma opinião muito generosa dos dois membros do júri que me ajudaram a melhorar o fim". Diga-se que o romance vencedor foi um dos maiores sucessos editoriais argentinos, tendo vendido mais de meio milhão de exemplares.

Antes de falar do seu mais recente romance traduzido em Portugal, Piñeiro comenta as eleições no Brasil: "Estamos muito preocupados na Argentina com o que se passa no Brasil e com estas ideias, a homofobia por exemplo, que considerávamos ultrapassadas e não o estão. Esta situação também se verificou na Argentina quando do debate sobre o aborto, com grandes pressões da Igreja e da extrema-esquerda. O mais estranho é que metade da população brasileira pensa assim e a população da Argentina ficou surpreendida com o que o seu vizinho pensa.

A escritora é uma utilizadora das redes sociais e revela que já foi insultada e leu muitas promessas de leitores que afirmavam que nunca mais leriam os seus livros devido às suas posições. Foi o caso de quando houve grandes pressões para ser dispensada de uma entrevista ao autor cubano Leonardo Padura por causa da sua posição quanto ao aborto: "Foi mais do que uma censura, um impedimento ao trabalho. Até porque a entrevista não era para manifestar a minha opinião sobre o aborto mas como escritora a entrevistar um colega sobre um romance. Esse era o tema."

Piñeiro tornou-se uma das mais conhecidas escritoras argentinas, mas não era para ser esse o seu destino profissional. Queria formar-se em Sociologia, no entanto a ditadura militar impediu-a de o cursar e foi para Economia. Trabalhou nessa área, mas como não a satisfazia tentou a literatura: "Sempre escrevi desde criança." Refere que o seu próprio pensamento é mais literário do que económico: "A Economia só me serviu para ser organizada no trabalho."

Acostumada ao sucesso dos seus romances, textos de teatro e contos - prefere o primeiro género -, Piñeiro concorda que a literatura já disse mais aos leitores do que atualmente: "Creio que deixou de ter o peso de antigamente, mas isso deve-se ao facto de a sociedade ter mudado e estar mais ligada a certos programas de televisão e às séries. É isso que as pessoas consomem. Portanto, não sei se a literatura deixou de falar ou se as pessoas aderiram a outras formas de comunicação e formatos."

Considera que deixou de fora deste Uma Pequena Sorte quase tudo o que é autobiográfico: "Não sei como a história nasce. Aparece e começa a dominar o pensamento, depois combina-se com outras e segue o seu caminho. No caso deste romance começa com um acidente ferroviário que sei que aconteceu na terra onde eu morava, um lugar onde as pessoas iam na rua e apontavam para uma mulher a quem que o carro fora esmagado pelo comboio numa passagem de nível e lhe matou o filho. Essa memória de infância e a cara de uma mulher marcada pela tragédia misturou-se na minha cabeça e apareceu o romance."

Após ter vendido meio milhão de exemplares de As Viúvas, Claudia Piñeiro garante que não ficou condicionada pelo sucesso: "O livro que escrevi a seguir era totalmente diferente, com a história de uma mulher que tinha Parkinson. Se alguém estava à espera de uma continuação, enganou-se. Cada livro é muito diferente do anterior e acredito que os leitores aceitam que os meus livros sejam diferentes porque a voz é a mesma."

Quando se pergunta à escritora se este livro é representativo da literatura feminina, Claudia Piñeiro garante que tudo depende sempre da leitura das mulheres e dos homens: "Creio que os homens aceitam cada vez mais o seu lado feminino. Alguns disseram-me que choraram ao pôr-se no lugar da mulher ou do filho. Comoveram-se. Mas foi sempre mais fácil às mulheres lerem livros protagonizados por homens e nenhuma mulher dirá que não lê Carta ao Pai de Kafka ou A Invenção da Solidão de Paul Auster apenas porque a narrativa decorre entre pai e filho. Há homens que dizem que não vão ler Virginia Woolf, Simone de Beauvoir ou Marguerite Duras porque consideram que os seus livros só tratam de mulheres." Conclui: "Os homens tinham esses preconceitos, no entanto este romance, Uma Pequena Sorte, é tanto o drama de uma mulher como poderia ser de um homem."

Uma Pequena Sorte

Claudia Piñeiro

Editora D. Quixote

252 páginas

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