Como nascem os filmes? Que acontece (que é preciso acontecer) para que um espectador descubra essa “coisa” a que damos o nome de filme? Conhecemos as respostas mais frequentes, obviamente incontornáveis. Assim, sabemos que há um realizador a que talvez chamemos autor. Se formos um pouco mais específicos, poderemos citar a importância dos técnicos, com tradicional destaque para o director de fotografia (esquecemo-nos quase sempre de quem trata os sons)... Mas, afinal, quem se ocupa da projeção dos filmes? A partir desta sexta-feira, dia 2 de janeiro, e ao longo deste mês, a Cinemateca Portuguesa propõe um ciclo, tão inesperado quanto sedutor, para responder a tais dúvidas. O título: “Uma cinemateca em chamas – histórias de projeção e projecionistas”.O desafio é tanto mais didáctico quanto a actual consolidação da projeção digital (independentemente dos seus recursos e qualidades) favorece o esquecimento, por vezes o menosprezo, da projeção tradicional, afinal inerente, em exclusivo, a mais de um século de cinema. Que é como quem diz: a passagem dos filmes em película envolve os detalhes e requintes da profissão de projecionista. Como se refere no texto de apresentação do ciclo, “com a digitalização e automatização das salas, a figura do projecionista quase desapareceu dos cinemas comerciais.” Quem o substitui? Um “gestor de conteúdos”, não poucas vezes mobilizado para essa tarefa pouco cinéfila que é... vender pipocas.Os títulos programados não esquecem as singularidades técnicas da função do projecionista, embora não numa dimensão meramente “tecnicista”, antes reflectindo memórias, sensações e sensibilidades que envolvem a vida pública dos filmes. Com um dado a ter em conta: os oito projecionistas da Cinemateca contribuíram para uma “secção paralela” do ciclo, cada um deles escolhendo um dos filmes a exibir.Há filmes que colocam directamente em cena profissionais da projeção cinematográfica, inclusive no tempo do cinema mudo. É o caso de Sherlock Jr. (1924), de Buster Keaton, centrado, justamente, num projecionista que vive delirantes aventuras (ele que estuda a arte de ser detective) através de uma digressão onírica que lhe permite “passar” do seu labor para o filme que está a projectar. Em A Rosa Púrpura do Cairo (1985), Woody Allen consumou algo de semelhante, embora com uma variante “material” de singular delicadeza poética: enredada nas tristezas da sua vida conjugal, a espectadora de um filme (Mia Farrow) encontra um mensageiro de esperança no herói (Jeff Daniels) desse mesmo filme. Pura identificação emocional? Não, a personagem “sai” das imagens a preto e branco, visitando-a no mundo de cores em que ela vive. .São belos exemplos do modo como os filmes reflectem a sua própria condição de objectos de cinema, mas o ciclo está longe de se esgotar num inventário de histórias de projeção e projecionistas. De forma explicita ou não, o que está sempre em jogo é o facto de o cinema existir – e ser projectado, precisamente – como a “invenção” de um mundo que alarga as dimensões e os significados do mundo do lado de cá do ecrã. Mesmo que o cinema comece na câmara portátil usada por Bruno Ganz em A Cidade Branca (1983), filme de culto do suíço Alain Tanner e verdadeira ode à cidade de Lisboa. .Daí a importância de mais alguns clássicos que nos ajudam a compreender a vida das imagens que o cinema reproduz e reinventa. Lembremos o exemplo incontornável de Sunset Boulevard/Crepúsculo dos Deuses (1950), de Billy Wilder, com Gloria Swanson a representar, em perversa derivação autobiográfica, uma velha actriz do período mudo cuja mitologia acaba por ter tanto de exuberante como de fúnebre. Será preciso recordar o momento emblemático em que ela celebra, precisamente, a projeção? Ou seja: um feixe de luz que vem lá de trás, derramando-se na brancura do ecrã para gerar essa paradoxal ilusão realista a que damos o nome de filme.Pelo meio será possível (re)descobrir verdadeiras raridades, a começar por Targets/Alvos (1968), primeira longa-metragem de Peter Bogdanovich e um dos derradeiros títulos da longa filmografia de Boris Karloff, o actor cuja fama é indissociável da sua performance como monstro do Frankenstein (1931), de James Whale — também Bogdanovich concebeu uma cena inesquecível envolvendo a figura de um projecionista. Destaque ainda para We Can’t Go Home Again (1973) e A Idade da Terra (1980), filmes terminais do americano Nicholas Ray e do brasileiro Glauber Rocha, ambos de espírito resolutamente experimental, lidando com o cinema como máquina de representação do mundo ameaçada pelas convulsões da história.Até à vanguardaQuase todas as sessões apresentam uma curta-metragem antes do título principal, propondo correspondências muito sugestivas. É o caso de Masculino Feminino (1966), de Jean-Luc Godard, retrato terno e cruel de uma nova geração (“filhos de Marx e da Coca-Cola”) em que há uma cena numa sala de cinema, com Jean-Pierre Léaud a abandonar o seu lugar para protestar (na cabine de projeção!) pelo facto de a proporção das imagens não estar a ser respeitada. A anteceder este filme emblemático da Nova Vaga francesa será mostrado Those Awful Hats (1909), um “panfleto” de 3 minutos em que David W. Griffith se dirige às senhoras da plateia solicitando os devidos cuidados para retirarem os seus chapéus de modo a facilitarem a visão dos espectadores mais atrás e, sobretudo, não obstruindo o feixe de luz que vem da cabine... de projeção.Mais ou menos a meio do ciclo (dia 17, 16h00), haverá uma proposta pedagógica com o título “Sessão especial com quatro projectores”. A descrição é para ser tomada à letra, já que na sala serão montados projectores dos formatos 8mm, 9,5mm, 16mm e 35mm: através de pequenos filmes sobre o trabalho dos projecionistas, trata-se de propor um resumo da longa história dos formatos cinematográficos – será uma boa rima com o ciclo dedicado a Maya Deren que também se inicia esta sexta-feira, 2 de janeiro, na Cinemateca, celebrando o gosto experimental de uma genuína autora vanguardista.O futuro é já hojeAmericana, de origem ucraniana, Maya Deren (1917-1961) disse um dia que gostava de realizar um filme “livre da influência de outras linguagens artísticas como a literatura, o teatro, as artes plásticas e pictóricas”. Não bastaria tal afirmação para definir uma postura experimental, mas no seu caso tais palavras decorrem de uma verdadeira sensibilidade vanguardista, enraizada na certeza (ou na incerteza, se preferirem) segundo a qual o cinema não existe para “prolongar” as outras artes – a sua linguagem, mais do que reproduzir o mundo, encara-o como algo que pode ser continuamente reinventado. .Também a partir de hoje, a Cinemateca recorda Maya Deren através de uma retrospectiva integral com um título panfletário e poético: “No cinema posso fazer o mundo dançar”. Convém não esquecer que os seus filmes, normalmente de curta duração, surgiram num contexto em que o gosto da experimentação era realmente transversal, afinal acolhendo influências do Dadaísmo e do Surrealismo, ao mesmo tempo integrando novas perspectivas de análise do comportamento humano, emergindo a psicanálise como um domínio especialmente sedutor. Para lá de todas as diferenças de produção e estética, será curioso lembrar que A Casa Encantada (1945), de Alfred Hitchcock, integrando uma sequência onírica desenhada por Salvador Dali, surgiu dois anos depois de Meshes of the Afternoon, a primeira realização de Maya Deren.Algumas vezes participando nos seus filmes como actriz, em composições que reflectem as suas relações com as coreografias da dança, Maya Deren foi construindo uma filmografia escassa mas eloquente – At Land (1944), A Study in Choreography for Camera (1945), The Private Life of a Cat (1946), etc. – em que a “amostragem” das coisas do mundo tem tanto de literal como de enigmático. Em Ritual in Transfigured Time (1946), filme que conta com a participação da escritora Anaïs Nin, deparamos mesmo como um verdadeiro ensaio sobre conceitos alternativos, não lineares, de espaço e tempo.O ciclo dará a ver também alguns clássicos do experimentalismo, incluindo os emblemáticos Le Ballet Mécanique (1924) de Fernand Léger, e Étoile de Mer (1928), de Man Ray. Será também uma maneira de reforçar a actualidade de todas estas referências, sobretudo face ao “naturalismo” simplista das mais poderosas linguagens televisivas. Afinal de contas, a procura futurista do cinema é para ser vivida como um desafio do presente..Um filme perdido de John Ford para descobrir na Cinemateca.O som do cinema mudo faz-se ouvir na Cinemateca