A meio da 79ª edição do Festival de Cannes (a decorrer até sábado), faz sentido dizer que a presença do Japão no Mercado do Filme — com o estatuto de “convidado de honra” — não se esgotará numa operação meramente promocional. De facto, os três filmes japoneses presentes na seleção de 22 longas-metragens de onde sairá a Palma de Ouro, distinguem-se por qualidades muito particulares, da sofisticação da sua produção até ao gosto de histórias de muitas subtilezas humanas (e humanistas!). O seu apelo universal é, por isso, de uma só vez, económico e cultural.Depois de Nagi Notes, de Koji Fukuda, título que abriu a competição, a maior surpresa em termos temáticos terá sido Sheep in the Box, de Hirokazu Kore-eda (vencedor da Palma, em 2018, com Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões). Cineasta de delicados dramas familiares, Kore-eda propõe agora uma derivação de ficção científica, num “futuro próximo”. No centro dos acontecimentos está um casal que perdeu o filho num acidente. Ao saberem que há uma nova indústria de fabricação de “crianças-robots”, de acordo com o modelo que os pais quiserem integrar no seu quotidiano, acabam por “encomendar” um duplo do seu filho...O visual futurista (bastante contido, confundindo-se com o presente) está longe de ser o objetivo principal do filme. Em boa verdade, Kore-eda retoma as suas obsessões familiares, de tal modo que Sheep in the Box volta a confrontar-nos com crianças, mesmo sendo “robots”, que vivem num desamparo estranho ao universo dos adultos. Nesta perspectiva, o novo filme relança uma visão trágica e poética que não é estranha ao seu Ninguém Sabe (2004), centrado num grupo de crianças que sobrevivem na casa que habitavam com a mãe, depois desta os abandonar — vale a pena recordar que Cannes foi também a primeira montra internacional de Ninguém Sabe, tendo valido a Yûga Yagira (então com 14 anos) o prémio de melhor ator.Seja como for, o maior trunfo da representação japonesa é, sem dúvida, o belíssimo All of a Sudden (título francês: Soudain), de Ryusuke Hamaguchi, ele que, com o seu Drive My Car, foi um verdadeiro fenómeno de culto na edição de 2021 (tendo ganho o prémio de argumento). É também o seu primeiro filme em língua francesa, ou melhor, com diálogos repartidos entre o francês e o japonês — as suas personagens centrais são Marie-Lou Fontaine (Virginie Efira), diretora de um lar de acolhimento em que se ensaiam novos métodos de acompanhamento dos mais idosos, e Mari Morisaki (Tao Okamoto), uma criadora e produtora teatral.Na competição, com os seus 196 minutos, Soudain é o recordista de duração. Claro que os filmes “não se medem aos palmos”, mas apetece dizer que não é todos os dias que podemos descobrir uma narrativa tão atenta às nuances da sua temporalidade — como viver o tempo já assombrado pela morte? —, sabendo criar um tão especial ambiente de observação e escuta, sensualidade e realismo. A noção de “brusquidão” que o título sublinha confunde-se com a paixão por todos os detalhes que a vida pode conter ou oferecer.Aliás, à sua maneira, Soudain possui o fôlego (também ele sensual) de um genuíno debate filosófico, já que a relação Marie-Lou/Mari vai gerar uma teia de ideias sobre a evolução do lar em que decorre grande parte da ação — sem esquecer o contraponto das cenas rodadas no Japão — e, nessa medida, uma metódica reflexão sobre os efeitos de um mundo mercantil nas relações humanas. Simplificando, diremos que Soudain parece ser, até agora, o filme mais “óbvio” para uma merecida Palma de Ouro.Thomas Mann em 1949Curiosamente, outro filme de “5 estrelas” surge, por contraste, como o mais curto da competição: Fatherland, realizado pelo polaco Pawel Pawlikowski, tem apenas 82 minutos e evoca a visita de Thomas Mann à Alemanha, em 1949, para receber o Prémio Goethe — além do escritor de A Montanha Mágica, interpretado por Hanns Zischler (presença emblemática na primeira fase da filmografia de Wim Wenders), a outra personagem central é a sua filha Erika Mann, a cargo de Sandra Hüller. . Numa ambiência austera, em imagens a preto e branco, Pawlikowski evoca o desalento de um escritor confrontado com a pátria que, agora, além das feridas brutais da guerra, exibe também os sinais de uma clivagem gerada pelos primeiros sinais da Guerra Fria — a visita de Mann a Weimar, no leste alemão, é mesmo objeto de insinuações demagógicas por parte de alguma imprensa. Em resumo: num sentido eminentemente clássico, Fatherland consegue ser um filme histórico capaz de integrar na sua visão o retrato de um homem de excepção, a par dos sinais das convulsões que marcaram a sua existência. .Entretanto, dos dez títulos ainda por revelar, concorrentes à Palma de Ouro, Amarga Navidad, de Pedro Almodóvar, será o que gera mais expectativas. Em qualquer caso, importa deixar uma nota de entusiasmo sobre El Ser Querido, de Rodrigo Sorogoyen, drama centrado no reencontro difícil de um cineasta com a sua filha, actriz, ainda que o motivo principal seja o convite para ela participar na sua nova realização. Nos papéis centrais, Javier Bardem e Victoria Luengo são assombrosos, expondo esse mistério ancestral que faz com que possa não existir qualquer fronteira entre a vida vivida e a vida filmada..Cannes. Emoções japonesas e francesas.Festival de Cannes recorda John Lennon