Cinco filmes para descobrir um pouco da China
De que falamos quando falamos de cinema chinês? A pergunta, ainda que convencional, justifica-se tanto mais quanto as convenções não bastam para conhecermos as atuais linhas de força de uma produção cuja imensidão nos escapa. Para nos ficarmos por uma mera quantificação, lembremos que, em 2025, os ecrãs da China deram a ver 474 novos títulos, dos quais 368 de produção nacional — isto num ano em que a frequência atingiu 1240 milhões de espetadores (informação recolhida na Screen International, em janeiro deste ano). A partir de hoje, 18 de setembro, Lisboa acolhe uma Semana do Cinema Chinês, susceptível de nos ajudar, pelo menos, a pressentir a variedade de uma produção que, além do mais, se distingue por recursos técnicos de invulgar sofisticação.
Trata-se de uma organização com chancela do Festival Internacional de Xangai, em colaboração com a Associação Il Sorpasso e duas salas de cinema — Ideal e Fernando Lopes —, contando com o apoio da Administração Nacional de Cinema da China e da Embaixada da República Popular da China em Portugal. Em boa verdade, a semana ocupa apenas três dias (hoje, sábado e domingo), com cinco filmes, em sessões com entradas gratuitas. O Ideal exibe A Table for Two (hoje, 20h00), que repete no Fernando Lopes (amanhã, 19h00); esta sala projeta os restantes títulos: Nobody e Her Story (amanhã, o primeiro às 16h00, o segundo às 21h30), e A Writer’s Odyssey II e As the Water Flows (ambos no domingo, às 16h00 e 19h00, respetivamente).
Há um cliché que associa automaticamente o cinema chinês a epopeias de tempos mais ou menos remotos. Não deixando de ser um cliché, o certo é que possui algum fundamento histórico. O exemplo de A Writer’s Odyssey II, de Lu Yang, é sintomático: centrado num escritor enredado numa fantasia que baralha realidade e ficção, resulta de sofisticados meios de produção, idênticos aos que, por vezes, erradamente, são considerados exclusivo dos grandes estúdios ocidentais. Algo de semelhante se poderá dizer de Nobody, Yu Shui, aventura de desenhos animados cujo tratamento cromático evoca as clássicas aguarelas.
Os filmes a exibir são recentes, com datas de produção de 2024 para cá. O que pode justificar uma velha interrogação, de uma só vez cinéfila e social, quer dizer, cultural: de que modo podemos encontrar aqui alguns sinais das atuais vivências dos cidadãos chineses? Algumas respostas estão nos restantes três títulos, a começar por Her Story, de Shao Yihui, centrado numa mãe solteira e na sua filha que se mudam para um novo bairro, na procura de uma vida realmente nova — é um dos fenómenos de popularidade do cinema chinês dos últimos anos.
A Table for Two, de Wu Jing, e As the Water Flows, de Bian Zhuo, envolvem também sistemas de relações que, de uma maneira ou de outra, desafiam as certezas e os sonhos das personagens envolvidas. No primeiro caso, deparamos com uma matriz clássica do melodrama, iniciada com o conhecimento fortuito, na mesa de um restaurante, de um homem e uma mulher; no segundo, seguimos a odisseia sentimental de um velho senhor que, depois da morte da mulher, vive o seu luto de formas que suscitam a reprovação das filhas — mesmo evitando generalizações simplistas, fará sentido dizer que este é um cinema especialmente atento aos sinais de cumplicidade ou ruptura entre as gerações.

