Cidália Moreira, a "fadista cigana"

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Cidália do Carmo Moreira, conhecida como a "fadista cigana", tem hoje 79 anos porque nasceu a 11 de Outubro de 1944, em Olhão.

Em 2008, confessou ao programa Heranças d"Ouro, da RTP, que atravessou uma infância difícil, pois que seu pai, dono de uma mercearia-taberna, "sem copos era terrível e com copos era uma jóia de homem, vamos lá a gente entender isso". A mãe faleceu tinha ela ano e meio e só conheceria um dos seus nove irmãos, razão pela qual diz ser incapaz de confirmar se é mesmo, ou não, de etnia cigana. Criada por uma madrasta, ao que parece megera, por duas vezes tentou o suicídio, e, aos 16 anos, meteu-se num comboio para Lisboa e deu o salto para a liberdade, de que nunca se arrependeu. O casal que a acolheu na Mouraria foi a sua segunda família e, graças ao seu padrinho no fado, Felipe Pinto, começou a cantar no restaurante A Viela, à Rua das Taipas, ao lado de Beatriz Ferreira, Beatriz da Conceição e Berta Cardoso, no tempo em que essa casa passara já das mãos de Celeste Rodrigues para as do fadista Sérgio. Depois, um ver-se-te-avias pelos principais retiros do canto da capital, da Severa à Adega Mesquita passando Luso e pel"A Toca, de Carlos Ramos, a qual tinha como director artístico o citado Filipe Pinto, definido por Amália como "um tipo extraordinário" (nado e criado na Calçada dos Barbadinhos, onde começou a trinar serenatas, Pinto foi operário da Fábrica de Tabacos de Xabregas, litógrafo e pracista da distribuidora do vinho do Porto Rainha Santa, distinguindo-se nos meios artísticos, e não só, pela indumentária cuidada e pelos sapatos de tacão alto, que lhe valeram o epíteto de "Marialva do Fado").

Instada a cantar no Brasil, Cidália resistiu muito, julgando que lá era selva, pejada de bichos e de cobras. A mando de Frederico Valério, compositor de alguns dos seus principais êxitos, como Primeiro Amor, lá aceitou viajar até ao trópico, mas apenas por três meses. Ficou quatro anos, de 1969 a 1973. O empresário Joaquim Saraiva, dono dos restaurantes Lisboa à Noite, do Rio, e Adega Lisboa Antiga, em São Paulo, contratou-a para actuar alternadamente nesses dois estabelecimentos, junto a um elenco composto por Márcia Alcina, Ellen de Lima, António Campos, Terezinha Alves, além do retumbante espinhense Armandino Marques Meira -- esse mesmo, Dino Meira.

Senhora de uma extensa discografia, Cidália Moreira fez diversas e apoteóticas digressões pelo estrangeiro, na mira das comunidades migrantes (França, Espanha, África do Sul, EUA, Canadá, Brasil), e destacou-se no teatro de revista, onde participou em êxitos pré e pós-revolucionários como Ora Bolas Pró Pagode (Capitólio, 1972, com José Viana, Lígia Teles, Barroso Lopes, Dora Leal, Carlos Miguel, etc.), Cá Vamos Cantando e Rindo ou Força, Força, Camarada Zé (estreada 1975 no Maria Vitória, com Florbela Queirós, Eugénio Salvador, Henrique Santana et all.).

Tempo agora para falar do Professor Karma, nome artístico e metafísico de Raúl Januário Júnior, nascido na Nazaré em 1928 e falecido em Lisboa em 2001, cidade onde se fixara em 1939 e onde fez o liceu e se tornou funcionário dos CTT, carreira que acumularia com a de palhaço "Raulito", nos anos 50, e músico (foi aluno de Vitorino Matono, o mítico acordeonista de Avis) e, depois, mágico e mentalista, além de astrólogo, escritor, ocultista, ilusionista, hipnoterapeuta, psicólogo e cosmopsicobiologista (ainda hoje consta registo do Instituto Cosmopsicobiológico Professor Raul Karma, à Avenida Defensores de Chaves, n.º 54-3.º Dt.º). Informa a Wikipédia, num texto bastante pró-Karma, que ele "obteve doutorados em hipnoterapia e filosofia e metafísica aplicada em instituições internacionais", a saber: National Schools de Los Angeles; Brantridge Forest School (inglesa, sob orientação do Dr. Copen, onde se doutorou em Hipnoterapia), The Neotaion College of Philosophy (de Kansas City, no Missouri, onde obteve láurea de Filosofia e Metafísica Aplicada); Institute Psychology Foundation (da Bélgica, "onde concluiu com brilhantismo o curso de Psicologia Aplicada"). Esclarece ainda a Wikipédia que, "sempre orientado pelo seu mestre Dr. Martins de Oliveira [Saturnino Martins de Oliveira, jornalista do Porto], enveredou pelo estudo do Zoísmo Superior e Hipnomagnetologia, ciência que despertou o interesse de vários investigadores, principalmente na América, Rússia, Holanda e Alemanha, onde biopsicotécnicos estudam a lei da motricidade." Mais se diz que, em data inominada, os 1200 participantes no IX Congresso Internacional de Magia, de Barcelona, elegeram Karma como o Maior Mentalista do Mundo e que obteve um doutorado honoris causa pela Universidade de Nova Iorque, das mãos do arcebispo Lorenzo Michel de Valitch, e ainda que, nesse périplo pelas Américas, "foi recebido na Casa Branca pelo Senado Americano", visitando também o centro espacial da NASA, a convite desta, e a maior hidroeléctrica do Canadá. Noutro lugar da Internet, o blogue "Histórias do Tempo que passa", do jornalista Luís Farinha, que foi seu amigo e colega nos CTT, fala-se dos pais de Karma, a Dona Maria do Karma, digo, Carmo, e o sr. Raúl Januário, guarda-fiscal, "homem de respeito", moradores na Travessa das Mónicas e muito opositores a que o filho fizesse a vida como mago. Farinha também tentou dissuadi-lo do oculto e até foi falar com ele a um circo montado num terreno devoluto à Rua Damasceno Monteiro, onde Raul actuava como Raulito, mas em vão.

Já como Professor Karma, faria números no Circo Mexicano e no Circo Mariano, com a sua partenaire da altura, a médium Béti (Maria Alzira da Conceição), da qual mais tarde se separou para se enlaçar com Cidália. Foi ainda no tempo de Béti, e ao lado desta, que o professor mentalista, além de um número de telepatia a 50 quilómetros de distância, entre Setúbal e Lisboa, faria a sua maior proeza: em 27 de Setembro de 1964, por sugestão de Matias Celorico Palma, proprietário do restaurante turístico regional Chicote, à Praça do Areeiro, onde Karma já actuava, o mágico mentalista, ao volante de um descapotável da marca Haflinger, cedido pela Auto-Portuguesa, Lda., foi do Saldanha ao Areeiro, num percurso de 2250 metros, com os olhos cobertos por uma venda, guiado tão-só pelo espírito. Num longo documentário da RTP, "O Karma do Prof. Karma", feito no Verão Quente de 1975, aquele gabava-se, aliás, de possuir o recorde mundial de condução com olhos vendados, alcançado em Angola, parece. Noutro programa televisivo, hipnotizou uma galinha em directo.

Cidália e Karma foram companheiros durante mais de três décadas, até à morte deste, em 2001, e tiveram uma filha, Cleópatra, falecida prematuramente. As duas tragédias levaram a uma paragem na carreira da "fadista cigana", que esta sintetizou em entrevista à revista Vidas, em 2011: "Como todo o ser humano, a Cidália Moreira também não passa imune às contingências da vida. Há imprevistos que, por vezes, nos obrigam a abrandar um bocadinho." Na mesma ocasião, diria que hoje o artista "está banalizado" e que a televisão matou "muito do mistério de ver um artista cantar". Ainda assim continua a fazê-lo, pese que mais moderada e recatadamente, mas sempre com fulgor e brilho. Uma mulher de garra, em suma. Curvemo-nos, pois, diante dela, que tanto o mereceu e merece.

*Prova de vida (8) faz parte de uma série de perfis de verão.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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