A proliferação de documentários concebidos a partir de materiais de arquivo adquiriu uma inusitada dimensão — e não apenas nos ecrãs caseiros, também nas salas escuras. Serão muitas e variadas as motivações do fenómeno, a começar pela alteração de duas componentes fundamentais do território audiovisual: primeiro, um cada vez maior acesso a esses arquivos (cinematográficos, televisivos, etc.), por vezes através de importantes processos de restauro; depois, a apetência das plataformas de streaming para produzirem e difundirem títulos que alimentem a diversidade das suas “montras”. Com chancela Netflix, realizado por Rebecca Gitlitz, Chris & Martina: O Último Set é um dos bons exemplos de tal tendência. À partida, estamos perante um quadro de personagens e acontecimentos susceptível de justificar uma abordagem tradicional, marcada por memórias do desporto e, como sugestivo complemento dramático, envolvendo a saga de uma rivalidade que nunca anulou um genuíno fair play. É essa, aliás, a primeira via de elaboração narrativa da realização de Rebecca Gitlitz. Chris é a americana Chris Evert, nascida em 1954, em Fort Lauderdale, Califórnia: o seu historial como jogadora de ténis regista um total de 157 títulos individuais, incluindo um recorde de sete vitórias em Roland-Garros. Martina é Martina Navratilova, nascida em 1956, em Praga, na Checoslováquia, cidadã americana desde 1981: é também recordista de outro lendário torneio de ténis, Wimbledon, com nove vitórias, tendo arrebatado 167 títulos individuais. A rivalidade das duas jogadoras foi assunto central do ténis ao longo das décadas de 1970/80, tendo competido entre si nada mais nada menos que 80 vezes. Sem recorrer à facilidade de uma voz off banalmente descritiva que, em última instância, menospreze o valor das imagens e dos sons, o filme consegue consumar um genuíno trabalho documental. Dito de outro modo: os materiais utilizados valem pelo seu valor documental (passe a redundância), sendo organizados através de uma montagem cuja agilidade sabe equilibrar a depuração informativa com o gosto do espetáculo. Seja como for, a expressão do título (“o último set”) arrasta um simbolismo que já não se refere a qualquer confronto vivido num court de ténis. Acontece que, já neste século, primeiro Martina, depois Chris, ambas foram diagnosticadas com cancro. Daí que o filme não seja apenas um inventário das glórias que partilharam (ganhando e perdendo, ganhando ou perdendo), mas também um caminho em ziguezague entre os registos dessas glórias e vários momentos dos exames e consultas com que as protagonistas vão vivendo a sua situação de saúde — e partilhando as suas dores e esperanças. .Imagens e palavras O tratamento da “doença” em alguns registos televisivos não pode deixar de nos recordar que vivemos num mundo mediático em que a vulnerabilidade dos cidadãos (anónimos ou figuras públicas) é regularmente explorada de forma vergonhosa, entre voyeurismo e cinismo mascarado de piedade. Importa lembrá-lo para sublinhar um essencial contraste: sem ceder a qualquer simplismo na amostragem do que é ser atingido por um cancro, Chris & Martina: O Último Set é também um filme capaz de nos mostrar que é possível lidar com a doença através de imagens e palavras que não simplifiquem a complexidade humana de tudo o que está em jogo. Nada disso, bem entendido, significa que este seja um documentário que tente fingir qualquer “espontaneidade” decorativa. Rebecca Gitlitz organiza mesmo uma cena “central” (várias vezes retomada na montagem) em que Chris e Martina assistem a um dos seus épicos confrontos — é também uma maneira de mostrar que, à sua maneira, de modo direto ou metafórico, o cinema existe como um forum de partilha de experiências de vida. .'Ange'. À procura das emoções e da sua música