Casa de Papel está de volta e é o acontecimento da quarentena

A história e o arco romântico dos assaltantes de A Casa de Papel tem algumas mudanças nesta nova
temporada que dia 3 arranca na Netflix, mas a fórmula é a mesma. O DN já viu e antecipa tudo sem "spoilers".

Mais de 34 milhões de subscritores no mundo inteiro da Netflix terão visto a série que fez parar Portugal. Dia 3 a nova temporada chega ao gigante de "streaming" pronta a bater todos os recordes numa altura em que o mundo está em casa e precisa de se "distrair". Em tempos de domínio do digital, o fenómeno que se vive em relação a esta série sobre um assalto em Espanha é o equivalente ao impacto de uma telenovela quando a cultura popular ainda ficava paralisada com os enredos e revelações.

Vistos os primeiros episódios o que se pode logo à partida avisar é que peripécias, reviravoltas e intrigas à boa maneira da telenovela sul-americana não vão faltar, mesmo considerando alguma sofisticação técnica e uma escala de produção onde não são poupados meios. Isso e romances e rompimentos amorosos à desfilada entre o grupo de assaltantes. É como se o criador Alex Pina enchesse todas as cenas de tensão com mil e uma pontas soltas e aumentasse o ritmo sempre com a interrogação premente de como tudo vai acabar.

A regra deste "clickbait" versão televisiva é jogar com as atribulações dos últimos eventos da anterior temporada e tornar tudo ainda mais dramático e frenético. Perde-se em subtileza mas ganha-se em eficácia - é razoável perceber que os fãs da série não vão poder protestar. Como produto televisivo para viciar, todos os ingredientes estão a funcionar como uma máquina afiada. Se lhe falta alma, a adesão às personagens é já tão grande que o efeito de familiaridade compensa tudo. A quarta temporada, frise-se, tem tudo para continuar a provocar um efeito de adesão em cadeia. Se antes as pessoas comentavam nos cafés ou no trabalho o que poderia acontecer em cada "cliffhanger", agora vão falar por SMS ou por telefone da maneira como o Professor ou Lisboa se safam.


E por este fenómeno ser bastante mais próximo da linguagem da telenovela do que do cinema, o primeiro episódio arranca exatamente no caos onde o último da terceira série acabou: o golpe do Professor ao Banco de Espanha em grande perigo de ser resolvido pelas forças da lei. Temos Nairobi em risco de vida e a ter que ser operada pelos seus companheiros de assalto, o Professor a pensar que Lisboa está morta e a comprometer a sua visão de plano estratégico, bem como uma uma revolução na chefia do assalto no interior do banco. Mas nem tudo são más notícias para a equipa de vermelho: há sérias hipóteses de conseguirem um aliado dentro da equipa da polícia. Enquanto isso, lá fora, há cada vez mais manifestantes a torcer pelo sucesso do gangue e o stress dentro da equipa policial também aumenta.

Em termos de reflexão política sobre o desejo irracional de mandarmos às urtigas a ordem financeira do capitalismo, a quarta série não se aventura por aí além. Seja como for, um dos segredos deste conceito e parte do seu charme global, está na forma como explora o cansaço e a deceção das pessoas perante as ditaduras dos bancos centrais. Não é desta que vamos antipatizar com a moral do Professor: "isto é mais do que um assalto". O ataque às instituições financeiras é, de certo modo, uma parábola aos novos
movimentos de ativismo social, maioritariamente sem caução política. A sua missão de Robin dos Bosques moderno tem agora até uma espécie de complacência quixotesca: a certa altura, ele e Marselha atravessam as paisagens rurais de Huelva ao lado de moinhos . Nessa leveza humorística, o guião desta temporada marca alguns pontos.

A crónica de bons malandros criada pelo canal espanhol Antena 3 talvez ainda não tenha atingido o ponto de saturação. Para desanuviar um possível cansaço da fórmula do jogo do gato e do rato com a polícia, a fórmula de thriller tem desta feita maior incidência no passado das personagens. Temos mais Berlim e os flashbacks bem metidos mostram-nos segredos relacionados com Palermo, sobretudo nos meses nos quais vemos o gangue a preparar os detalhes do assalto. Convém estar ainda preparados para uma descrição muito pouca humanizada da polícia, tão incompetente como cruel. Mas dizer quem são os novos vilões desta temporada 4 é dar o ouro ao ladrão, salvo a chalaça.

O Professor, Rio, Estocolmo, Lisboa, Nairobi, Helsínquia e Denver estão todos de volta, isso é garantido. Depois de três temporadas todas muito equilibradas entre si fica apenas a dúvida se a noção de surpresa ou de "twist" ainda terá o mesmo impacto. Tudo muda nesta roleta russa de planos desviados e traições. Talvez mude em demasia e com um floreado inverosímil, mas a lógica de que o melhor plano é aceitar que a vida nos estrague os planos continua a funcionar às mil maravilhas.

A quarta série volta a provar que Nawja Nimri é uma atriz acima da média, a melhor de longe de toda a série. A sua raça na composição da inspectora Sierra é outra das mais-valias destes 8 episódios novos. Ainda assim, a protagonista Úrsula Corberó continua em bom plano como Tóquio, nesta nova linha narrativa a ter um espaço fulcral dentro do assalto. A atriz está já lançada em Hollywood. Supostamente vamos vê-la ainda este ano em Snake Eyes, um "spin-of" do universo de G.I Joe. Corberó contracenará com o ator do momento, Henry Golding, saído recentemente de The Gentlemen- Senhores do Crime, de Guy Ritchie.

Paralelamente, no mesmo dia em que a temporada fica disponível, a Netflix lança ainda o documentário La Case de Papel- El Fenómeno, um olhar sobre a forma como a série conquistou o mundo inteiro. O documentário não foi mostrado à imprensa mas sabe-se que é uma celebração promocional desta ficção que, só por si, fez com que muitos aderissem à forma de se consumir séries na Netflix.

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