Mantendo a tradição, Thierry Frémaux fez o lançamento do 79.º Festival de Cannes em diálogo com os jornalistas. Foi uma conferência de imprensa em que o delegado geral do certame “antecipou” alguns aspetos da edição deste ano, cruzando-a com muitas outras questões - desde o facto histórico de a ideia original do festival ser indissociável de um momento (à beira da Segunda Guerra Mundial) em que, culturalmente, era importante uma demarcação em relação ao Festival de Veneza, então dominado por tendências fascistas, até às interrogações suscitadas pelo uso da Inteligência Artificial no mundo dos filmes.Frémaux foi claro ao afirmar que seria absurdo supor que os responsáveis por um festival de cinema devessem exprimir “uma” posição sobre a abrangência de tal conjuntura - recorde-se, a propósito, que Iris Knobloch, a atual presidente é também a primeira mulher a ocupar tal cargo. O mesmo se poderá dizer em relação a questões que envolvam temas da atualidade política. O festival existe como montra de um mundo multifacetado, não fazendo sentido supor que, por exemplo, a constituição do júri da Palma de Ouro (este ano presidido pelo sul-coreano Park-Chan wook) fosse determinada por qualquer critério político - com alguma ironia, Frémaux referiu mesmo que se encontra duas vezes com os membros do júri, a primeira numa receção de boas-vindas, a segunda para ser informado das decisões tomadas pelos seus membros. . Mais veemente foi o seu comentário ao facto de o cartaz oficial de Cannes - com uma imagem de Susan Sarandon e Geena Davis no filme Thelma e Louise, de Ridley Scott, estreado no festival de 1991 - ser descrito ou mesmo avaliado em função daquilo que seriam as suas conotações “feministas”. Lembrando que, como sempre, o cartaz nasceu de uma “escolha artística”, Frémaux fez mesmo questão em desmontar as ideias falaciosas que confundem a defesa de paridades com a exigência de “quotas”.Daí a necessidade de conhecer a amplitude dos fenómenos muito para lá das fronteiras do cinema, dos seus criadores e da sua indústria. Assim, lembrou Frémaux que a seleção oficial deste ano (que não se esgota nos 22 filmes que concorrem à Palma de Ouro, incluindo secções como “Un Certain Regard” e a zona das curtas-metragens) apresenta 36% de títulos assinados por mulheres, enquanto essa mesma percentagem entre os mais de 2000 filmes propostos era de 28%. Com especial ternura, citou um conselho da sua amiga Agnès Varda (1928-2019), ela que foi durante muito tempo um solitário símbolo feminino da produção francesa (e não só): “Thierry, nunca seleciones um filme apenas por ser realizado por uma mulher.”Jogo de emoçõesLa Vénus Électrique, o filme que serviu de abertura oficial (extra-competição) pode ser encarado também como um curioso sintoma dos contrastes, por vezes das contradições, em que existe muito cinema contemporâneo. Estamos, afinal, perante um objeto “tematicamente” fora de moda - não há nele qualquer ênfase militante ou demonstrativa, prevalecendo a tentativa de regressar a um modelo de espetáculo em que romanesco e artifício andam de mãos dadas.Mesmo que possamos considerar que a realização de Pierre Salvadori (também coautor do argumento) é desigual na gestão dos seus ritmos emocionais, há qualquer coisa de singularmente apelativo na história do pintor traumatizado pela morte da sua companheira (Pio Marmaï) e da vidente que o engana através da “comunicação” com a sua amada (Anaïs Demoustier). O ano de 1928, em Paris, surge, assim, através de um ambiente de feira em que qualquer emoção atrai a emoção contrária - tudo devidamente “intensificado” pelas cores da direção fotográfica de Julien Poupard. Não ficará como uma das obras-primas deste festival, mas a nostalgia cinéfila foi uma boa escolha para começar. .Cannes à procura dos futuros clássicos .O cinema não esquece as suas revoluções