Atores - a armada portuguesa

Num ano de ouro para o cinema português com filmes ótimos em Cannes, várias comitivas de atores invadiram o festival, com destaque para Welket Bungué e Nuno Lopes, cada um com dois filmes. Neste festival os atores têm de aparecer, não podem ser tímidos...

Um festival como Cannes é famoso por negligenciar os atores. Aqui os reis são os autores. A figura principal é o cineasta. Sempre foi assim, mas aos poucos os atores estão a ter protagonismo, veja-se esta edição que homenageou Tom Cruise e o compatriota Forest Whitaker. E veja-se também como os atores portugueses chegaram em força ao festival, a maior parte num esforço das suas produtoras. Já se percebeu que é sexy uma equipa a apresentar um filme num festival ter muitos atores na plateia ou mesmo no palco. Isto para não esquecer que igualmente a ideia de "ator português" é cada vez mais um predicado internacional.

Veja-se o exemplo de Welket Bungué, que depois de há dois anos ter estado na passadeira vermelha da Berlinale por Berlin Alexanderplatz, de Buhran Qurbani, este ano subiu os degraus de Cannes em competição com Crimes of The Future, de David Cronenberg - não é todos os dias que se tem esta atenção mediática ao lado de Kristen Stewart, Léa Seydoux ou Viggo Mortensen.

E a grande surpresa é que este luso-guineense tem mesmo uma participação forte no filme de David Cronenberg, contracenando em muitas cenas diretamente com Mortensen. Bungué que ontem também voltou ao Palais para apresentar a curta de Falcão Nhaga em que é protagonista, Mistida, na Cinéfondation. Uma interpretação notável de um ator que no Brasil tem tido algumas chamadas, sendo que a mais recente, A Viagem de Pedro, está atualmente nos cinemas nacionais. Esta dupla presença de Bungé coloca-o num nível internacional de respeito, logo ele que em Portugal e na Guiné também é conhecido como cineasta de curtas de teor experimental...

Mas o maior contingente de atores surgiu também na seleção oficial com Restos do Vento, de Tiago Guedes. É significativo o facto de todo o elenco ter estado presente, desde os mais novos como Ivo Arroja, Afonso Laginha e Leonor Vasconcelos, bem como os mais velhos, João Pedro Vaz, Maria João Pinho, Isabel Abreu, Albano Jerónimo, Gonçalo Waddington e Nuno Lopes.

Atores que souberam fazer-se notar: houve comunicados sobre esta invasão e as suas redes sociais não esconderam um investimento num styling extremamente ambicioso. É bom que os atores e os seus agentes percebam a importância da exposição de Cannes.

Nuno Lopes, por seu turno, aproveitou também para se fazer notar em Tout le Monde Aime Jeanne, de Céline Devaux, filme francês rodado em Portugal e com co-produção minoritária de Luís Urbano. É mais um título francês para dar embalagem à internacionalização galopante de Nuno Lopes.

Ontem outra comitiva de respeito assaltou o Théâtre de la Croisette: os atores de Fogo-Fátuo, de João Pedro Rodrigues. Vieram os protagonistas, o excelente Gonçalo Cabral e Mauro Costa, mas também atores com participações reduzidas, como é o caso de Ana Bustoff e Raquel Rocha Vieira.

A produtora Terratreme apostou numa festa com direito a after-hours para haver mais star-power.

Antes, também Ana Padrão veio à Semana da Crítica para ajudar a promover o filme coqueluche do festival, Alma Viva, de Cristèle Alves Meira. Outra atriz portuguesa que é gigante num filme feito a meias com França e Portugal, tal como Tourment sur Les Iles, de Albert Serra, onde Alexandre Melo, crítico de arte, aparece como ator. Melo deverá subir os degraus do Palais esta sexta-feira com o produtor português, Joaquim Sapinho.

dnot@dn.pt

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