O que me surpreendeu um pouco neste livro foi o facto de o narrador ser uma mulher, Beta, que vive com uma avó. É difícil? Eu gosto de me perigar, de me pôr fora de pé, e obriguei-me aqui a fazer diferente. Não queria cair na mesma voz do livro anterior, queria que este livro fosse suficientemente parecido com o anterior para ser meu, mas suficientemente diferente para ser outro. Houve, portanto, uma série de opções narrativas que fiz para conseguir alcançar essa diferença e uma delas foi a de escolher a voz de uma mulher. Isso também foi entusiasmante para mim porque é difícil, e eu gosto do que é difícil..A Beta é guia turística. Atribuiu-lhe essa profissão porque permitia falar do Porto? É uma estratégia narrativa que permitia ao autor cumprir a sua intenção, uma das suas intenções, melhor dizendo. Uma das intenções era justamente poder abordar esta questão da gentrificação, do turismo de massas e uma outra coisa que também me interessava fazer a par com isso que era mostrar uma parte da história e do património da cidade..Há um momento muito interessante que é quando Beta explica como é que consegue cativar os turistas que a seguem. Vai aos sítios que conhece, que são típicos, onde se pode comer as coisas autênticas, sem aquelas comissões que muitas vezes deturpam tudo. Quem estiver a ler livro está a ter pistas para sítios onde ir no Porto? Claramente. Escolhi aqueles lugares porque acredito realmente que são sítios que podem ainda mostrar a gastronomia autêntica e tradicional da cidade. Eu não quis mostrar os restaurantes que vêm hoje nos guias turísticos e que são os mais óbvios porque têm a cozinha mais fancy. .Quem lê pode acreditar? Pode ir? Pode ir lá porque são sítios até que eu frequento. Há aqui uma dimensão de fidelidade histórica no sentido dos locais que se podem visitar e fidelidade a estes pontos de interesse gastronómico que fazem do livro, em certa medida, também quase um guia. As pessoas podem seguir as recomendações do livro, embora elas estejam misturadas com a ficção..Em relação à Sé, que é central em todo o livro, sente que estás a fazer uma descrição quase sociológica do que é o bairro ou ele já não é bem aquilo? Eu acho que o livro procura, de alguma forma, que o leitor problematize o facto desta Sé ser um espaço em transformação. Até há muito pouco tempo, a Sé do Porto era a verdadeira Cidade Invicta, aquele Porto dentro da Cerca Velha é que era a Cidade Invicta. A cidade nasceu ali e foi ali que durante mais anos se manteve inviolada e inviolável. A ponto de muita gente ali ainda há muito poucos anos, e se calhar ainda nos dias de hoje, viver como se vivia na Idade Média, sem casa de banho, por exemplo Por isso é que no livro aparece uma personagem que não tem casa de banho em casa, e é assim no livro porque é assim na realidade..É o bairro da Sé que é original, e capaz de refletir o Porto autêntico, mas há uma pobreza que também transparece muito no livro, não só por essa ausência de condições nas casas, mas pelas dificuldades das pessoas… Claro que sim. De facto, este Porto manteve-se assim perto da Idade Média durante muito tempo, mas nos últimos anos, em 5, 10, 15, 20 anos, as coisas alteraram-se profundamente. Portanto, aquela cidade autêntica, digamos assim, que existia, hoje em dia já não existe. As pessoas que moravam ali já lá não moram ou estão a deixar de morar lá. Assim, aquele bastião último da identidade tripeira está a deixar de existir, com tudo o que isso tem de bom e de mau..A questão da gentrificação também transparece muito no livro, está a acontecer a várias zonas do Porto, mas na Sé é muito evidente. A gentrificação ali já está completada ou ainda não? Não, claramente não está. Coexistem as duas realidades e chega a ser até caricato e divertido ver grupos de turistas chineses ou franceses ou ingleses a invadirem as ruas e, ao mesmo tempo, as senhoras que foram ao pão ou que estão cá fora a assar sardinhas e febras ou a estender a roupa no meio da rua, com os turistas a passarem por entre a roupa estendida porque as ruas são muito estreitas… é muito engraçado ver isto, é um contraste muito grande entre o Porto de ontem e o Porto de amanhã. O livro procura justamente pôr em contraposição estas duas realidades e a Beta é uma espécie de porta-voz dessas contradições quando diz: “a mesma cidade que me dá o pão tira-me a casa”, porque a obriga a sair daquela casa que foi a única que ela conheceu e que vai ser transformada num alojamento local ou num apartamento de um prédio mais moderno que não está acessível a todos os bolsos..Esse é o outro lado da gentrificação, porque as pessoas muitas vezes elogiam a recuperação das casas, o ficar mais bonito… Ela própria diz isso!.… mas também há o outro lado da vida das pessoas que têm de ir viver para longe e sair do seu meio. Ela vai morar para os arrabaldes. Ela diz: “É extraordinário, a minha cidade e o meu bairro estão mais bonitos, a minha freguesia está mais bonita, está mais cuidada, não é suja, é menos perigosa, mas, ao mesmo tempo, não me permite que eu more cá”. Ela vive nesse constante dilema entre o que agrada à vista e o que lhe prejudica a carteira e a própria vida..Fala-se muito agora na questão do excesso de turismo em Lisboa, mas no Porto também acontece? É a mesma coisa. Por isso é que este é um dos temas centrais do livro..Sente que as pessoas, por um lado olham para a oportunidade de negócio, de emprego, que o turismo traz, mas por outro também acham que está a tirar autenticidade ao Porto? Eu sinto que as pessoas apreciam por um lado o facto de este turismo de massas ter trazido vida e movimento económico à cidade, mas também sentem uma preocupação grande por ele estar a descaracterizá-la e por poder colocar em perigo a própria identidade e a cultura da cidade. Se os portuenses saem de lá e a cidade é ocupada por outras pessoas, é evidente que a cidade dos dias de amanhã não será a mesma, será outra. É evidente que as pessoas que moram no Porto estão preocupadas com isso. Isto é um tema porque é um tema universal, a mim não me interessava só o Porto em particular. Nós vimos agora os turistas a serem maltratados em Barcelona, a serem expulsos de outras cidades, assistimos às medidas restritivas numa série de outras cidades europeias, portanto este é um tema de dimensão global..Aquilo que não é global, que é muito do Porto, é o falar das pessoas, nomeadamente todas aquelas expressões populares que nós identificamos e associamos ao norte, se calhar, mesmo ao Porto. Isso é algo que conhece do seu dia a dia desde criança ou teve de fazer alguma pesquisa? Não, conheço isto muito bem, não precisei de pesquisar rigorosamente nada. Houve duas ou três expressões que eu apanhei em alguns livros e que usei aqui. Por exemplo, há uma que eu acho muita piada que é “frita lêndeas” que é um insulto que eu não conhecia. Apanhei a expressão completamente por acaso num livro, mas a generalidade deste linguajar é-me muito familiar e eu próprio utilizo muitas destas palavras em contexto mais informal, mas utilizo muito e gosto..Há alguma que utilize e que seja citável no jornal? Tantas! Por exemplo, “morcão” utilizo todos os dias, sai-me sempre quando estou no trânsito frente a alguém que está a fazer asneiras, a primeira palavra que me sai é “morcão”..É muito ofensivo ou já é quase… O “morcão” pode ser carinhoso, eu posso dizer a um amigo “Ó meu grande morcão!” Tal como no Porto, entre amigos somos capazes de nos chamar por “boi”, ou dizer “Ó meu grande cabrão” e isso pode ser carinhoso e amistoso. É evidente que o contexto define o peso das palavras..Achei muito interessante no livro a referência a Germano Silva. Germano é um veterano do JN, um jornalista que se afirmou muito como o homem que mais conhece o Porto. Fez questão desta homenagem a Germano porque também foi beber muita informação aos livros dele? Eu sou um grande admirador do Germano Silva, um homem quase centenário, apesar de parecer muitas décadas mais jovem pois tem uma energia extraordinária, uma vitalidade invejável. Eu tenho uma grande admiração por ele e, num primeiro nível, por conta do seu percurso de vida. A forma como ele se fez jornalista é absolutamente extraordinária. Quem não conhecer a história do Germano deve procurar e perceber de que forma é que aquele homem que não tinha nada que ver com jornalismo, que vinha de Recezinhos em Penafiel, se torna jornalista. Essa história é extraordinária, a forma como ele depois se forma, aprendendo com os mestres e o modo como ele chega ao trabalho jornalístico e de crónica em torno da cidade do Porto, apaixonando-se em absoluto por essa história e fazendo disso o centro da sua vida. Tendo isso acontecido, ele tornou-se o principal divulgador da história da cidade do Porto, um cronista popular, capaz de chegar às massas através da imprensa e capaz de ensinar às pessoas e de cultivar o gosto que as pessoas têm pela própria cidade. A paixão que muita gente sente pela cidade do Porto tem sido cultivada ao longo das últimas décadas através da leitura das crónicas e dos livros do Germano Silva. O mesmo aconteceu comigo, eu devorei todos os livros dele, não propriamente para escrever este livro, mas à medida que eles foram saindo. Ao longo dos últimos anos fui lendo os livros do Germano e apanhando uma série de histórias que ficaram dentro de mim e que eu muitas vezes cito em conversa com os amigos e que, depois, muito facilmente vieram desaguar a este livro, porque é o tipo de história que também me interessa. O Porto é uma cidade muitíssimo literária. Há um poema extraordinário de um poeta lisboeta que, no meu entender, é dos mais bonitos sobre a cidade do Porto. O Nuno Júdice diz: “Shakespeare podia ter vivido aqui”. Eu acho que ele diz isso muito bem porque o Porto tem essa alma funda e profética de que a Agustina falava e que é muitíssimo literária..Escreve sobre o Porto, é muito a sua vivência, há estas leituras do Germano, mas se tivesse que pensar, há alguém como escritor que o influenciou? Quando escreve sente que há alguém que lhe serve de modelo? Há muitos escritores que eu admiro e aprecio e cujas características sei que desaguam nas coisas que eu faço. Não de forma totalmente evidente, mas que eu identifico. Vou dizer alguns nomes: Laurence Sterne, claramente; aquele trio do Vargas Llosa, Carlos Fuentes, García Márquez; Juan Rulfo também, se calhar, mas talvez mais os outros três; Calvino, Saramago, Miguel Esteves Cardoso, que tem uma grande influência sobre as coisas que eu faço..Nenhum propriamente do Porto… Entre os autores do Porto há muitos que aprecio, mas acho que não foi aí que fui buscar o meu estilo..Há alguma dificuldade especial em ser editor e ser escritor? Não. Acho que para mim é uma vantagem no sentido em que o meio não me é estranho. Eu conheço o meio e tudo o que acontece a um autor. Não fico frustrado se as vendas não forem boas, não fico deslumbrado se as críticas forem positivas porque já passei por isso tudo enquanto editor. Portanto, não há novidade em nada disso para mim, o que também tira, às vezes, uma certa emoção à coisa. Eu estou preparado para tudo o que vai acontecer porque já me aconteceu como editor, mas o autor e o editor não se atrapalham. O autor não permite que o editor entre na sua oficina de escrita, mas o autor também não tem nada que ver com o trabalho do editor..Quem não o conhece e o lê vê que a gentrificação é uma preocupação , mas há outra preocupação que também está patente no livro que é a das alterações climáticas. Isso aparece no livro como coisa importante da sua vida ou faz apenas parte da narrativa? Estamos a falar de dois temas que me são caros. Eu não sou um ativista contra o turismo nem contra a gentrificação, são temas que me preocupam enquanto cidadão e enquanto munícipe do Porto, e também não sou um ecologista. Sinto, como escritor, que tenho a obrigação de mostrar o meu tempo, é isso que eu quero fazer. Se daqui a uns anos olharem para trás, para os meus livros, e disserem “este tipo retratou o tempo que viveu”, é isso que eu quero que aconteça. Acho que é impossível fazê-lo sem mostrar quais são os problemas prementes e eu puxo para a minha literatura aqueles que são mais importantes para mim. Por isso é que no primeiro livro falava da desertificação do interior, do abandono a que são votados os mais velhos, são tudo temas que me são muito caros. Portanto, eles acabam sempre por desaguar na minha literatura, acompanhando os temas clássicos da literatura de sempre. Aqui também está presente o tema da perda, o tema do amor, que também já estavam no livro anterior. Há uma mistura entre os temas clássicos e os temas contemporâneos, sendo que estes são aqueles que me dizem mais e me preocupam mais. Choca-me bastante o negacionismo das alterações climáticas. Eu não acho que o rio Douro vá desaparecer, mas aquilo serve como metáfora de coisas que, às vezes, são absolutamente evidentes e que parece que nós não queremos ver..Morro da pena ventosaRui CouceiroPorto Editora 382 páginas19,99 euros