Um homem que caminha pelas ruas de Nápoles. Podia ser este o subtítulo de Nostalgia, filme que se estreia em Portugal na mesma altura em que o realizador, Mario Martone, acaba de apresentar o seu mais recente documentário no Festival de Berlim (Laggiù Qualcuno mi Ama, sobre o estimado ator Massimo Troisi). A coincidência não deixa de ser curiosa, até porque foi também num festival em Lisboa, o último LEFFEST, que conversámos com o cineasta italiano sobre esta anterior ficção baseada num romance de Ermanno Rea: em Nostalgia seguem-se os passos de Felice Lasco (a musicalidade dos nomes importa), um homem que trocou o seu bairro em Nápoles pelo Egito e regressa para se reencontrar com o passado e abraçar a mãe idosa, que deixou para trás na sua fuga de adolescente..Nos olhos tristes e silenciosos de Pierfrancesco Favino vislumbramos a mistura de sentimentos desse corpo que não resiste a fundir-se com as ruas, como que à procura do trajeto íntimo da memória. Alguém que agora fala árabe mas reaprende a língua afetiva, em jeito de dialeto de amor, numa busca de identidade pronta a responder ao apelo da nostalgia. É aí que entram as lembranças do seu melhor amigo, Oreste Spasiano - uma página luminosa e sombria do passado -, e o desejo de perceber a dinâmica do bairro "vigiado" pelo pároco que orienta os mais jovens na luta local contra os gangsters rivais..Martone, napolitano como as suas personagens, não se perde numa simples visão doce da nostalgia. Tudo aqui tem a textura rugosa das paredes velhas, o prazer romântico de um passeio de mota e um prenúncio trágico que nos faz saborear a presença de Favino pela sua discreta intensidade. Um ator que fala através da postura - veja-se a suavidade do trato nas cenas com a figura materna - e que preserva a grandeza ou secura das emoções ao virar da esquina. É um dos melhores da sua geração, num dos melhores filmes de Martone, que deixa entrar o fantasma de Pasolini..A grande maioria dos seus filmes passa-se em Nápoles. Inclusive já adaptou Elena Ferrante, uma autora visceralmente napolitana, e agora adapta Ermanno Rea - por acaso dois filmes que têm em comum protagonistas que regressam à terra natal. Ainda assim, em Nostalgia há uma maior sugestão de interioridade na própria aparência pulsante das ruas... .Sim, é verdade que Nostalgia tem pontos de contacto com L"Amore Molesto (o filme que fiz em 1995, a partir de um romance de Elena Ferrante), e é verdade também que a narração deste romance é ainda mais interior. O tema do regresso, apesar de contemplar o lado da separação, o estar afastado de qualquer coisa e voltar, na realidade é um tema interior, não necessariamente ligado a uma distância física: é uma condição existencial. As personagens dos meus filmes trazem essa condição no corpo, são sempre estrangeiras na sua própria pátria, e depois isso traduz-se no modo de as filmar. O que tento fazer é com que a paisagem, ou aquilo que se vê, reflita a interioridade da personagem..Enquanto via Nostalgia, lembrei-me várias vezes das primeiras obras de Pasolini [Accattone, Mamma Roma], com protagonistas que deambulam. Não é por usar uma epígrafe dele no filme, mas de facto sente-se o fantasma... Faz-lhe sentido? .Gosto muito da expressão "fantasma", e penso que é a mais adequada aqui, porque de resto não há uma referência concreta a Pasolini. Mas, sim, reconheço que o seu fantasma está presente, em particular no lado coral do bairro de Sanità, onde fui buscar para os pequenos papéis as pessoas da vizinhança, que não são atores profissionais - são pessoas "verdadeiras". Os seus rostos evocam um pouco o modo como Pasolini trabalhava com os seus atores não profissionais. Ele observava a humanidade que havia à sua volta..Citaçãocitacao"Pasolini amava Nápoles, e escavava mais profundamente no ser humano, mas Fellini interessava-se pela fisionomia dos rostos napolitanos e sabia olhar para eles.".A propósito de rostos, Fellini escolhia muitas vezes Nápoles para fazer castings, à procura de personagens secundárias, porque achava que "não havia nada como as caras napolitanas"... .Sim, é certo que Pasolini amava Nápoles, e escavava mais profundamente no ser humano, mas Fellini interessava-se pela fisionomia dos rostos napolitanos e sabia olhar para eles. Acima de tudo, acho que Nápoles é uma cidade especificamente humana, da mesma forma que o são todas as cidades do Mediterrâneo... Se eu fizesse um filme aqui em Lisboa, tenho a certeza de que iria encontrar rostos muito diferentes daqueles que vi há pouco tempo em Nova Iorque ou Paris (estou a incluir Lisboa na bacia do Mediterrâneo, embora tecnicamente não seja)..Também por isso o seu filme tem algo de documental. Pensou nesse ajuste com a ficção? .Pensei. Foi, aliás, uma viragem decisiva. Quando estávamos a preparar o filme, assim de uma forma mais tradicional, à procura de atores e figurantes e de como encenar a vida da rua, com motas e outros veículos... nessa altura percebi que precisava de encontrar uma via mais próxima do documentário: era preciso "atirar" o filme para a rua e deixar que a vida o atravessasse. Isso não foi fácil, porque tínhamos um ator como o Favino, que em Itália é famosíssimo - seria impossível passar despercebido -, mas encontrámos um modo de estar com as pessoas. É aí que se define o documentário dentro do filme..O que é que viu em Pierfrancesco Favino para lhe dar este papel tão justo? .Quando nos meus filmes há uma personagem central tão forte como esta, o ator é escolhido logo no início do projeto, no sentido em que se escreve o argumento a pensar no ator ou na atriz que o vai interpretar. E com o Pierfrancesco aconteceu o mesmo. Fez a viagem connosco desde o princípio: desde o momento em que lhe entreguei o livro para ler e ele aceitou o papel. É o ator perfeito, sob todos os pontos de vista, pela sua capacidade metamórfica em termos de língua, mas sobretudo pela sua sensibilidade. E nesta personagem há uma sensibilidade quase feminina, que é uma coisa muito bonita. Estou a falar da maneira como ele cuida da mãe, por exemplo. Há ali uma alma... O Pierfrancesco é alguém que tem isso..Há uma cena especialmente comovente em que ele pede à mãe para não ter vergonha e deixá-lo dar-lhe banho. Quão delicado foi filmar esse momento? .Foi um desafio. Quando li a cena no romance, pensei logo: como é que vou fazer isto? Tinha medo de fazê-lo, até porque não sabia se ia encontrar uma atriz disponível e capaz de se entregar daquela maneira. Ao encontrá-la, a questão que se colocou depois, nos aspetos cinematográficos mais específicos, foi relativamente ao local onde filmar uma cena assim... Eu não queria demasiada sombra ou penumbra, aquele jogo do "ver sem ver", queria antes uma luz uniforme, porque a ideia é que se visse tudo. Portanto, desde os atores até esta questão técnica da luz a cena parece simples mas foi muito complexa no processo de alcançar a imagem que se vê..Passando para outra personagem importante, o padre de Sanità, a ação e atitude que vemos nele é algo que faz parte daquela realidade comunitária ou é apenas uma personagem de ficção? .O padre existe mesmo! Chama-se Antonio Loffredo, é mais velho do que o Francesco Di Leva (o ator que o interpreta) e deu-nos uma grande ajuda. Foi um elemento fundamental para a rodagem, porque filmámos na sua igreja, com os jovens que a frequentam. E o que é extraordinário, como disse e bem, é o seu modo de atuar. Há nele esta capacidade de interferir no bairro de Sanità, onde tem deixado uma marca ao longo do tempo graças à sua interação com esses jovens. Não é alguém que se ponha acima deles, nem ao seu lado, escolhe estar no meio dos jovens e falar exatamente a sua linguagem, porque sabe que está numa batalha, e para vencer essa batalha é preciso usar as armas do inimigo..Nápoles tem uma conotação trágica? .A tragédia e a comédia são duas faces da mesma moeda no que diz respeito a Nápoles. Por exemplo, no meu filme anterior, O Rei do Riso [2021], o protagonista é um comediante e naturalmente há uma inclinação maior para a comédia. Mas digamos que a forma de o napolitano estar no mundo implica uma luta constante, que tanto pode dar mais para a comédia como para a tragédia..No caso de Nostalgia a tragédia impõe-se... .Nostalgia é uma tragédia, claro. E fascinava-me a possibilidade de, à semelhança da tragédia grega, ter um coro à volta das poucas personagens principais, que estão bem definidas - esse coro, como já aqui se disse, é a forma de trazer a cidade para dentro do filme..dnot@dn.pt