A constante chegada de novos álbuns de banda desenhada às livrarias portuguesas deve significar que há publico para os comprar e ler. Ou seja, não é uma arte dominada pelo passado em que tintins e astérixes eram os reis do mercado e roubavam a atenção dos leitores, antes de aparecerem revistas como a Métal Hurlant. No entanto, em vários títulos continua a sentir-se a influência das gerações de autores que mais marcaram a banda desenhada franco-belga nos tempos áureos e, por estranho que pareça, em muitos dos novos álbuns que surgem não se encontra por parte dos contadores de histórias e dos ilustradores uma experimentação de novos cenários e técnicas como os “antigos” tentaram em inúmeros volumes.Essa sensação de que o publicado atualmente não se distanciou assim tanto de certos mestres está bem exemplificado num dos álbuns mais curiosos desta leva de novidades. Trata-se de Rever Comanche, que o autor, Romain Renard, regista na própria capa ser “baseado na obra de Greg e Hermann” homónima. Assim é, sendo que o leitor não escapa ao sentimento de que está a mergulhar numa homenagem com décadas de distância do aparecimento do primeiro volume da série original, que surgiu em 1969 na revista Tintin. A história estende-se por 150 páginas e regressa a algumas das situações de antes: recupera as referências ao rancho 666 no Wyoming; refaz no confronto entre a protagonista Vivienne e um dos personagens míticos da antiga série, o irascível Red Dust, intrigas que encheram os álbuns dos dois autores, sem esquecer de revisitar outras figuras e cenários. Nada que seja uma repetição do território onde Greg e Hermann faziam atuar as suas personagens, antes uma narrativa que parece estar a passar no ecrã de um cinema - como a primeira imagem do álbum sugere – e que se vai lendo como uma fábula do Velho Oeste revisitada numa ilustração e um argumento que valorizam a série original. .REVER COMANCHERomain RenardEdições ASA150 páginas .Com um aroma à banda desenhada franco-belga de uma época posterior à de Hergé e companhia, surgem dois álbuns em muito diferentes um do outro a não ser numa fixação histórica dos tempos da ascensão do nazismo. Se Ulysse & Cyrano, de Stéphane Servain, Xavier Dorison e Antoine Cristau, materializa a história em função do tempo e das consequências da II Guerra Mundial, Duas Raparigas Nuas, de Luz, irá ser capaz de ultrapassar essa época. Ulysse & Cyrano tem uma história que se pressente qual será o final, mas o seu desenvolvimento ao longo de 170 páginas reserva muitas surpresas gráficas e de uma elaboração a nível do desenho excecional. Um álbum perfeito para quem aprecia a gastronomia, chef’s tão ambiciosos como caprichosos e aprendizes tenazes..Ulysse & CyranoVáriosEdições ASA173 páginas .O álbum de Luz, Duas Raparigas Nuas, apresenta logo na capa os esbirros das SS nazis e as cruzes suásticas nas braçadeiras pretendem que não se esqueçam os tempos de censura e violência do poder perante a liberdade artística. Tal como os dois álbuns anteriormente referidos, a qualidade da ilustração percorre as duzentas páginas do álbum. No entanto, não sendo tão ao género esfumado como Rever Comanche ou floreado como Ulysse & Cyrano, as surpresas perante o desenho são constantes, ou não se tratasse de um álbum sobre pinturas e pintores, em que o convite a uma visualização inesperada começa logo nas primeiras páginas, com um espaço em branco dominante, que vai sendo preenchido com o deslindar da situação inicial. Entre os pintores e pinturas de Yves Klein ou Andy Warhol, a história vive em redor de um quadro que não se observa senão nas páginas finais, com ótimas informações bibliográficas; trata-se da pintura que dá título ao álbum, um quadro o pintor Otto Mueller inspirado nas poses da mulher Maschka, e do percurso do quadro por várias décadas devido a ser considerado como “degenerado”, como várias outras obras suas. Acompanhando a história do quadro, vão surgindo muitas das aventuras do mundo da pintura: a falsificação, roubo, confisco e expropriação. Uma investigação que é também uma lição de história da pintura bem convincente..DUAS RAPARIGAS NUASLuzEdições ASA200 páginas .O menos preocupado com questões sociais e históricas, ou regressos ao passado e homenagens a autores fundamentais da banda desenhada, é Um Livro Esquecido num Banco, com argumento de Jim e desenhos de Mig. Com um pouco mais de 100 páginas, trata-se de uma história citadina e própria de um tempo contemporâneo mais soft nos temas que aborda, no entanto preocupado com a leitura e o livro através de um mistério com que tenta valorizar este hábito. A sucessão de volte-faces justifica a sua leitura..UM LIVRO ESQUECIDO NUM BANCOJim e MigEdições ASA110 páginas LANÇAMENTOSA MITOLOGIA VAILLANTEntre os personagens de BD do tempo em que as corridas de Fórmula 1, ralis, 24 Horas de Le Mans e tudo o mais sobre quatro rodas eram lidas de forma voraz, o clã Vaillant era uma referência. Criado por Jean Graton, o destaque ia para o piloto Michel Vaillant, que continua a ter direito a novos álbuns: Corridas Lendárias – No Inferno de Indianápolis, de Lapière e Dutreuil; e Remparts, de Lapière, Bourgne e Eillam. A produção de novas histórias após a morte de Graton segue o mesmo caminho que o dos autores de Blake & Mortimer e de Astérix, que periodicamente ressurgem. Remparts faz parte de uma série própria, com características que agradam principalmente aos grandes fãs, enquanto No Inferno de Indianápolis estão todos os ingredientes deste “herói” e não desilude o leitor tradicional.Inesperadamente, a lenda Vaillant foi recriada na ambiência das décadas anteriores às vitórias de Michel e Steve Warson e é a vez de se saber como é que tudo começou. Ou seja, conta-se a história de como o pai Henri fundou a fábrica de automóveis no pós-II Guerra Mundial, de como enfrentou a concorrência e, também, porque se dedicou às corridas enquanto forma de promover a marca. Além de todas essas peripécias desenvolvidas bem ao estilo de Jean Graton, vai ser conhecido o nascimento de Michel enquanto piloto neste álbum intitulado Henri Vaillant – Uma Vida de Desafios -, de 170 páginas e escrito e desenhado pela dupla Marc Bourgne e Claudio Stassi. Um clássico para os leitores que há décadas – para o ano cumprem-se 70 anos do seu aparecimento na revista Tintin - acompanham as grandes provas de automobilismo e que através de Michel Vaillant conheceram os grandes circuitos e pilotos do planeta. .HENRI VAILLANTCORRIDAS LENDÁRIASREMPARTSVários autoresEdições ASA