António Ribeiro Telles: a Sinfonia do Toureio

Miguel Ortega Cláudio faz a crónica da corrida desta terça-feira, a fechar a época da Palha Blanco, em Vila Franca de Xira.

Ontem, dia 9 de outubro, dia da Tauromaquia, a praça de toiros de Vila Franca de Xira esgotou para ver o mano-a-mano, entre o cavaleiro António Ribeiro Telles e o rejoneador Diego Ventura. e a despedida de Ricardo Castelo de cabo dos Amadores de Vila Franca.

Dois expoentes máximos da tauromaquia a cavalo mediam forças na mais exigente praça de toiros portuguesa e António Ribeiro Telles foi o grande triunfador!

António mostrou ontem o valor firme da nossa cultura, da nossa herança cultural e da história do toureio a cavalo. António ontem deu uma lição e mostrou por A+B como se lidam toiros de diferente condição, sem números acessórios nem lides preconcebidas... Se no primeiro andou em plano de mestre, no terceiro de lidador, no quinto executou quiçá a melhor lide da sua vida. Ainda estou arrepiado com o que vi, só os génios podem fazer o que ontem fez o Mestre da Torrinha na arena da Palha Blanco. Obrigado! A maior música que um toureiro pode criar nasce da relação entre o toiro e o toureiro... e António Ribeiro Telles criou uma sinfonia quase impossível de se descrever. A genialidade não precisa de ser procurada. Nasce, salta, brota e ontem saltou e emocionou todos os que ouviram a sua melodia e explodiram em jubilo por terem sido testemunhas daquela obra de arte.

O primeiro toiro da noite levava o ferro da Casa Prudêncio, toiro bonito e nobre. Foi o colaborador ideal para o Mestre dar a primeira lição de toureio. Falhou o primeiro comprido mas a partir daí, bom... Lidou, bregou, escolheu os terrenos para deixar grandes ferros, que aqueceram o ambiente e o embalaram para uma noite histórica.

O terceiro era um Palha, também bonito de tipo mas orientado desde que saiu. A brega foi fundamental para a lide resultar em pleno e para António dar a volta "à tortilha". O toiro fez sempre o papel de distraído para no momento do ferro travar nas investidas. Foi esperar o oponente à porta dos curros, dois bons compridos, nos curtos bregou o toiro pela esquerda para o equilibrar para o momento do ferro, mudou constantemente os terrenos ao toiro para lhe deixar os ferros, os dois últimos curtos são de livro, ao estribo e de alto abaixo.

O que saiu em quinto tinha o ferro de Cortes Moura. Toiro nobre, com som e classe nas investidas. Com ele o Mestre abriu o "frasco das essências" e deleitou os presentes com uma verdadeira obra de arte! Remates dos ferros em piaffe, recortes que foram verdadeiras Verónicas com as mãos soltas das rédeas, preparações de ferros sublimes, a passo, sem pressas, com temple requintado, cravando ao estribo de alto abaixo, ali na biqueira da bota. O público de certo modo parecia surpreendido com o que estava a ver, se seria mesmo verdade que aquilo estava a acontecer... esta lide fica na história da Palha Blanco, da tauromaquia portuguesa e mundial.

Diego Ventura rejoneador triunfador de quase todas as feiras de Espanha e França, possuidor de uma quadra de cavalos genial, veio medir forças com o mais clássico dos nossos cavaleiro e a noite não lhe correu de feição até ao sexto da noite.

O segundo da corrida um Prudêncio manso não facilitou a vida a Diego, alguns toques e colhidas sem consequências nos cavalos foram intercaladas com ferros de boa nota. O público mostrou divisão de opiniões e entre assobios e palmas decorreu uma lide sem música.

O quarto foi um bravo de Palha, um taco, baixo e bonito. Com ele o luso-espanhol também teve uma lide intermitente. Deixou bons ferros para depois rematar a lide com violinos de frente que acabaram por não resultar. Num houve um toque na montada e noutro o ferro ficou descaído, mais uma vez divisão de opiniões nas bancadas.

O sexto da ordem foi de Cortes Moura, toiro grande, nobre que veio a mais com o decorrer da lide. O rejoneador deixou bons compridos, curtos de alta nota mas o público só explodiu de verdade com os pares de bandarilhas sem a cabeçada posta no cavalo. Foram dois e ainda um palmito a pedido do público.

A noite também era de despedida do cabo dos Amadores de Vila Franca, Ricardo Castelo e da entrada para o seu lugar de Vasco Pereira.

Abriu a noite Ricardo Castelo para executar uma grande pega à primeira tentativa, na qual o grupo ajudou de forma exemplar. Para o segundo da noite saltou o novo cabo Vasco Pereira que só à quarta tentativa resolveu a papeleta, o toiro pareceu-me meter a cabeça muito humilhada no momento da reunião tirando o forcado da cara.

Francisco Faria pegou o terceiro de forma exemplar o terceiro da ordem, grande pega com o público a aplaudir de pé a decisão e raça do forcado e grupo.

David Moreira à primeira tentativa noutra grande pega dos Amadores de Vila Franca, bem a citar, reunir e o grupo a ajudar como mandam as regras.

Márcio Francisco à segunda tentativa, numa pega de valentia, garra e determinação. Na primeira tentativa não reuniu da melhor forma, sendo colhido de maneira violenta, ficando bastante combalido mas a garra deste forcado não tem fim e novamente bateu as palmas ao toiro para fazer uma das pegas da noite.

Fechou a noite Rui Godinho numa boa pega à primeira tentativa, com o toiro a sair franco, o grupo a entrar no momento certo.

Síntese da corrida

Toiros: Ganadarias Prudêncio, Palha e Cortes Moura dispares de apresentação e comportamento. Destaque para nobre primeiro de Prudêncio, o bravo Palha que fez quarto e o super classe quinto de Cortes Moura.

Artistas: Cavaleiro António Ribeiro Telles (Volta, Volta e Duas Voltas com chamada aos médios); Rejoneador Diego Ventura (Silêncio, Ovação nos médios e Volta); Forcados - Amadores de Vila Franca: Ricardo Castelo (Duas Voltas); Vasco Pereira (Silêncio); Francisco Faria (Volta); David Moreira (Volta); Marcio Francisco (Duas Voltas); Rui Godinho (Volta)

*As voltas à arena no final das lides são concedidas pelo diretor de corrida como prémio à qualidade da performance artística dos intervenientes ou pela bravura dos toiros.

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