Prova de Vida, agora em livro, começou como série de verão no DN em julho de 2023, mas durou até agosto de 2024. Foi porque há demasiadas vidas para contar?Talvez a ideia da série de verão fosse um bocadinho para convencer o Diário de Notícias [risos]. Mas não foi preciso convencer muito, porque de imediato acederam à minha proposta. De resto, eu já fazia os obituários no Expresso. Aqui, nesta série, chamo-lhes, um bocadinho maldosamente, “quase obituários”, o que é um bocadinho injusto, até me penitencio por isso. Mas realmente tinha todo o ar de série de verão, porque tem um certo ar revivalista e trata de coisas mais soltas, aparentemente mais leves, mas acho que isso talvez seja uma cilada, porque sobre aquele lado um bocadinho cómico ou trágico-cómico destas vidas, e como o próprio subtítulo do livro diz, pretendo fazer um retrato do Portugal contemporâneo, um fresco, vá lá, do país que somos no pós-25 de Abril. Mas eu próprio também me surpreendi com a duração da série. Devo dizer que não escrevia um texto por semana, porque a investigação que aquilo requer não se coadunava. Já tinha uma série deles, já devia ter dez ou 15 biografias preparadas quando propus ao jornal, e, portanto, tive assim uma espécie de folga e permitia-me ir investigando. Houve investigações que demoravam duas, três semanas, as vidas mais ricas, como, por exemplo, o António Sala ou o Carlos Cruz..Falar de “quase-obituários” é uma provocação sua, como diz, mas se muitas vezes há pessoas retratadas até com uma idade mais avançada, também há jovens, por exemplo, a atriz porno Érica Fontes, ou a deputada Joacine Katar Moreira. O critério foi escrever sobre pessoas que tinham estado de alguma forma na ribalta e depois praticamente desapareceram?No caso da Érica Fontes não desapareceu muito, mas trata-se de um segmento do mercado que nós muito provavelmente não acompanhamos. Se falarmos de critérios, isto tem uma certa ligação com a ideia da efemeridade da fama, e tem uma certa crítica à tirania da notoriedade que hoje existe, em que as pessoas se acotovelam e põem em bicos de pés, colocam nas redes sociais “Eu hoje vou fazer isto”, “Hoje vou fazer aquilo”, “Hoje vou estar ali”. Eu quis, talvez, mostrar que isso muitas vezes é efémero e, portanto, quando eu digo quase-obituários, não é de morte física, é sim da pior das mortes, que, para essas pessoas que estão obcecadas com a notoriedade e com a fama, é a morte cívica ou o esquecimento. Portanto, há pessoas que têm uma presença muito intensa na esfera pública, como o caso da Joacine, e depois essa presença quase que se esfuma, e muitas pessoas convivem mal com isso. Há casos de exílios e travessias do deserto que são voluntários, mas a maior parte das vezes é por perda da razão que as levava a terem uma presença muito intensa na esfera pública. Isso, curiosamente, é tanto válido para os políticos, no exercício de um cargo, como para cançonetistas, como para atores, etc. Por outro lado, há casos aqui que são feitos em jeito de homenagem. É o caso da primeira biografia, que foi, aliás, sobre a única pessoa que me escreveu, que foi Eládio Clímaco. Muito simpaticamente, escreveu-me, mostrando que era um senhor. E também aqui não se trata apenas de textos de ajustes de contas, vá lá, maldosos ou mal-intencionados. Pelo contrário, digo até isso no livro, peço desculpa, se ofendi a alguma das pessoas, pois nunca foi a minha intenção. Agora, há outros que são em jeito de homenagem, como o caso de Ana Zanatti, o caso de Eládio Clímaco, são pessoas, sobretudo no caso do Eládio Clímaco, hoje mais esquecido, que merecem a nossa gratidão..Nota-se quando o seu biografado lhe é simpático. Basta ler, por exemplo, o texto sobre o professor Galopim de Carvalho também, que é uma pessoa …Sim, falo por vezes de pessoas que não desapareceram inteiramente. Mas o caso de Galopim de Carvalho é admirável, pois é uma pessoa com 90 e tal anos, com a atividade que ainda mantém, todo um percurso cívico. Então, digamos que só quis ajustar contas com as pessoas mais peneirentas, as pessoas que têm em si uma pose. Porque casos como o de Galopim de Carvalho também mostram que é possível, através do trabalho e do esforço, e da honestidade, as pessoas terem uma presença na esfera pública, sem terem a arrogância típica de muitos, até muitos jovens, sem razões nenhumas para isso. Galopim de Carvalho é um caso exemplar, que é um professor, mas também uma pessoa com uma intervenção cívica muito ativa, e depois que conta a sua vida, desde Évora e tudo, com uma desarmante candura, e eu acho isso fascinante e muito comovente..Acabou por não fazer obituários, mas houve alguns casos realmente de pessoas que morreram depois dos textos publicados no jornal.Sim, infelizmente, já houve, dos que fiz, três casos, e dois estão incluídos neste livro. Um deles é Marco Paulo, e ainda tive tempo de inserir na introdução essa informação, que tinha morrido entretanto, e o outro foi Celeste Caeiro. Outro ainda, que não surgiu neste volume, provavelmente irá vigorar se houver no segundo volume, é Paulo Alexandre. Eu, de qualquer forma, decidi integrá-los, apesar de já terem morrido, porque foram escritos, e acho que faz todo sentido. O texto sobre Marco Paulo foi muito escrito em homenagem a ele, e visava transmitir uma mensagem ao Marco Paulo, pessoa que, como digo, não conheço, nos seus últimos tempos de vida, uma mensagem de solidariedade perante aquilo que estava a passar..Um pormenor curioso que é escreveu sobre pessoas que não conhece pessoalmente.Nenhuma das pessoas. Eu sempre fiz questão de duas coisas: não conhecer pessoalmente nenhuma das pessoas. Com a Clara Pinto Correia tive um encontro fugaz há uns anos, mas não é uma pessoa que eu conheça pessoalmente, nem ela a mim; e, por outro lado, não falar com pessoas próximas ou distantes, para não ser contaminado por amizades ou inimizados. Toda a minha investigação foi baseada apenas em fontes escritas, tiradas da internet, tiradas de livros, muitos consultados na Biblioteca Nacional. Há já muitas biografias e autobiografias de várias dessas pessoas. Nunca fiz trabalho de contactar pessoas próximas, de obter informações ou má-língua, precisamente para não ser contaminado..Alguns elementos mais críticos que aparecem em algumas destas biografias até foram escritos ou assumidos pelas próprias pessoas em entrevistas anteriores, não é?Exatamente. Houve duas ou três pessoas que exerceram direito de resposta, uma delas foi Torres Couto e outra foi Narciso Miranda. Podem ter questionado o modo como eu as apreciei, o que é mais do que legítimo, mas nenhuma delas apontou um erro factual. Ouve um erro factual que cometi na biografia de Clara Pinto Correia, que teve uma resposta desabrida, que aliás não era uma biografia negativa, porque eu tenho admiração por muita coisa que ela fez, mas que foi em relação à irmã mais velha, mas isso foi um erro de pormenor que eu cometi, olhe, levado por um artigo do decano do nosso jornalismo, que é Adelino Gomes. No resto, muitas das coisas que eu escrevo ali são discursos diretos ou indiretos dos próprios biografados. Eles próprios é que não se lembram ou então querem reconstruir outra persona. Por exemplo, falando do caso da Clara Pinto Correia, ainda há pouco ela veio falar daquelas célebres fotografias do orgasmo que tirou, como se não tivesse tido nada a ver com isso. Se calhar já não se lembra que houve uma exposição, que ela própria deu entrevistas, etc. As pessoas têm uma tal obsessão em construir uma imagem maquilhada da sua própria persona, que se reinventam várias vezes, não querem assumir a persona que tiveram no passado. Há muitos textos que vivem de declarações dos próprios, pois para além das coisas escritas, vi horas e horas de entrevistas no YouTube e não só, vi e ouvi também na RTP Memória, noutras televisões e rádios das mais variadas..Prova de VidaAntónio AraújoTinta da China 19,90 euros440 páginas.Falou de Torres Couto, antigo secretário-geral da UGT, que foi uma das pessoas que exerceu direito de resposta. Não entrou neste livro, mas é mera opção sua, editorial?Sim, ainda bem que me lembra. O livro ao todo seria umas 800 páginas, que é muito material, e eu agradeço mais uma vez a paciência que o Diário de Notícias teve muitas vezes para publicar longos lençóis, que acho que, apesar de tudo, as pessoas gostaram. Mas teve de se fazer uma seleção de metade, portanto o que sai agora neste primeiro volume é metade das biografias, e portanto houve alguns que ficaram de fora, já nem me lembrava. Torres Couto ficou de fora, mas será integrado noutro volume. Outra coisa também que - e já agora é uma preocupação - não fiz, porque seria um trabalho ciclópico, foi atualizar os textos depois de saírem no jornal. Entre 2023 e 2024, pode haver informações que, entretanto, surgiram, mas o que está no livro é praticamente o que saiu no jornal..O leque de pessoas que biografou é muito diversificado. Mas há alguns casos que têm a ver com a Finança que me parece daqueles que é mais crítico. Dou o exemplo dos textos sobre Isabel dos Santos e Pedro Caldeira. É uma posição sua de intervenção cívica?No caso de Pedro Caldeira, é preciso dizer que foi absolvido de tudo. Há muitos casos em que eu tomei as pessoas como pretextos, e, portanto, o leitor perceberá que há muitas pessoas que ali estão, mas não tanto por elas. Não é pelo Pedro Caldeira em si que escrevi, o que eu quis ali retratar foi a euforia bolsista daqueles anos 80, que, aliás, depois se prolonga na crise financeira de 2008, e qualquer dia teremos outra. Quis falar de coisas que não estão diretamente ligadas à vida das pessoas. No caso de Isabel dos Santos, quis falar da euforia angolana que houve cá, e a facilidade com que pessoas esclarecidas, banqueiros, elites políticas e tudo, aderiram a essa euforia. Isto também é uma sina nossa. Nós, desde o ouro do Brasil às remessas dos emigrantes, aos fundos da União Europeia, aos angolanos, aos chineses, estamos sempre a procurar ter uma fonte de salvação externa. Muitas vezes temos de perceber os custos, temos de perceber que o dinheiro não é todo igual. E eu digo isso. Não é igual dinheiro angolano ou chinês, cuja proveniência muitas vezes não conhecemos, ou um investimento da Auto Europa, ou da Lufthansa, são coisas um bocadinho diferentes….Há aqui também, muito, um retrato da sociedade portuguesa.É isso mesmo..Com os seus extremos, e com as suas figuras típicas, umas mais admiráveis, outras menos. Há, por exemplo, um biografado, que depois de ler sobre ele, e falo de Zezé Camarinha, me parece que o quis fazer representativo de alguma coisa?Eu quis falar de Zezé Camarinha, porque, e eu digo isso no livro, se nós, hoje em dia, nos lembramos de uma personalidade do Algarve, é Zezé Camarinha. Isto é, ele representa o Algarve, se quisermos, bem ou mal, mas nos nossos universos de representações, acorre-nos logo um bocadinho Zezé Camarinha. E aí está outro caso em que a personagem em si é desinteressante, mas o que ela evoca, em termos metafóricos, é muito interessante. É um homem que não trabalhou, não estudou, e dedicou-se, realmente, àquela faceta das estrangeiras e tudo, e isso é um bocadinho a metáfora do que é o Algarve. Que é o Algarve que não tem tecido produtivo, indústria, agricultura, e apostou tudo no turismo. E, de certa forma, é quase para dizer, Zezé Camarinha pode dizer, Algarve c’est moi, eu sou o Algarve ou vice-versa. Portanto, o destino de um algarvio e o destino da região onde está surgem muito cruzados. Há muitos casos em que eu utilizei as pessoas como pretextos para falar de várias facetas da sociedade portuguesa. Seja a política a um nível mais regional ou local, seja, vá lá, o modo como as elites do Norte muitas vezes manipulam os sentimentos bairristas das pessoas do Norte contra Lisboa. É o caso da biografia de Pinto da Costa, ou melhor, eu não fiz a biografia de Pinto da Costa, fiz de Carolina Salgado. É o caso de Narciso Miranda e de Valentim Loureiro. É, para falar dos furacões angolanos que tivemos, a Isabel dos Santos. Muitas vezes, os delírios de um certo wokismo com o caso da Joacine. Mas nada disso, é preciso que se veja, nada disso teve intuitos persecutórios ou justicialistas: nada tenho contra a Joacine, há partes do trabalho dela que admiro, inclusivamente académico. Tenho é muito contra a forma, muitas vezes demasiado exposta e demasiado autocentrada, como as pessoas se apresentam na esfera pública..Cruzou-se com alguma destas pessoas, pessoalmente, e teve alguma troca de palavras com elas depois da publicação?Não, não, não. Até agora, não..Além de um segundo volume que está em preparação...Sim, é possível que saia,.......Imagina voltar a uma série destas em páginas de jornal, porque ainda há muita gente para biografar.Há bastantes, há alguns que tive muita pena por falta de disponibilidade, e de não encontrar fontes. Dou três ou quatro exemplos. Não fiz do José Luís Judas, gostava de ter feito. Não fiz do Dias Loureiro, não fiz do Duarte Lima. Há uma série de figuras que eu gostaria muito de ter estudado. E, com o tempo, se o Diário Notícias assim estiver interessado, talvez... Agora, uma coisa destas dá muito trabalho e, portanto, isto tem de ser planificado à la longue. Talvez não fazer um ano inteiro, ou mais, de crónicas. Isto são quase 60, acho eu. Mas talvez fazer mais umas 20 crónicas..Uma série de verão…Aí sim, uma verdadeira série de verão [risos].