Ana Anjos Mântua junto a busto e retrato de Anastácio Gonçalves. Pintura é de Malhoa.

Ana Anjos Mântua

"Anastácio Gonçalves ama arte e pede à PIDE para ir à URSS. Visita o Hermitage e morre"

Ana Anjos Mântua é a nova diretora do Museu Nacional de Soares dos Reis, no Porto. O DN republica uma entrevista de vida datada de 5 de agosto de 2019, quando era coordenadora da Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, em Lisboa, legado de um médico republicano, ateu e amante da arte. Conta como o avô materno a fez gostar de arte e de história.

Como é que esta belíssima Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, que coordena, entra na sua vida?
Tenho de recuar um bocadinho. Trabalhava, quando acabei a licenciatura em História da Arte, na biblioteca do Banco de Portugal, mas sentia-me um bocado infeliz. Fui fazer uma pós-graduação num curso de Gestão das Artes, coordenado pelo Jorge Calado, e aí conheci diversas pessoas que mudaram completamente a minha vida. Colegas e professores. Deixei a biblioteca e fui trabalhar a recibos verdes para os Jerónimos. Na altura, os meus pais ficaram aterrorizados por deixar o certo pelo incerto. Era então ainda casada, e o meu marido apoiou-me. Tinha 31 anos, já era mãe.

O risco em troca da promessa de uma carreira mais aliciante?
Foi. Naquela altura, foi extremamente complicado porque passávamos seis meses sem receber e depois recebíamos tudo junto. Dos Jerónimos passei para o IPPAR, depois para o Museu do Azulejo. Foi na altura em que trabalhava nos Jerónimos que conheci o meu grande amigo José Alberto Ribeiro. Já estava no Museu do Azulejo quando o José Alberto foi nomeado diretor aqui da casa-museu e convidou-me para vir trabalhar com ele. Entrei como técnica superior na área da investigação, em 2009.

E Anastácio Gonçalves, a extraordinária figura que deu origem a esta coleção, era alguém que conhecia já?
Conhecia a casa-museu do ponto de vista do visitante e a partir do momento em que o José Alberto veio para cá vim fazer outras visitas e envolvi-me mais, mas não fazia ideia do que ia descobrir ao longo destes dez anos. Como diretor, ele fez uma coisa que as anteriores direções não fizeram: as anteriores direções focaram-se nos objetos que ele tinha comprado, fizeram-se catálogos do mobiliário, da porcelana, da pintura naturalista portuguesa e houve uma valorização dos objetos, sem nunca se pensar em quem era este homem, qual o papel que ele desempenhou nas artes. Em 2010, fizemos uma exposição chamada Colecionar para a Res publica. Associamo-nos às comemorações do centenário da República e daí fizeram-se várias pesquisas sobre o colecionador, muitas pessoas contribuíram para um catálogo que continua a ser a bíblia da casa-museu.

Estamos a falar de um oftalmologista, republicano, ateu. Um colecionador obsessivo, que viajava muito também. E que morreu depois de ver um museu fantástico...
As circunstâncias da morte dele são extraordinárias. Anastácio Gonçalves foi à União Soviética no início dos anos 60 e quando chegou a Leninegrado era quinta-feira, feriado nacional, e tanto o museu Hermitage como os outros museus do Estado estavam todos encerrados. Tentou ficar para o dia seguinte, mas ia numa excursão organizada e não podia fugir ao programa. Ficou chateado, voltou para Portugal e ficou sempre com aquela ideia de voltar a Leninegrado, a atual São Petersburgo.

E era um turista do Portugal salazarista a visitar a União Soviética...
Sim, mas em excursões organizadas a partir de Paris, pois não havia ligações diretas. Tem uma frustração imensa e então faz um requerimento à PIDE a dizer que é um amante de arte, que gosta de visitar museus e que visitara já os maiores museus do mundo e que lhe faltava o Hermitage. Conta a história e a PIDE dá-lhe autorização. Ele vai novamente por Paris, na agência que normalmente utilizava para viajar. Vai para Leninegrado em 1965, visita o Hermitage e morre nessa noite no quarto de hotel.

Feliz?
Creio que sim. Tinha 77 anos. Não era um homem velho.

Esta casa-museu no centro de Lisboa, junto ao Saldanha, existe porque ele não tinha descendentes...
E legou tudo ao Estado. Manifestou sempre esse desejo. Há uma caderneta predial de 1937, cinco anos depois de ter comprado a casa, que diz na descrição que é uma casa destinada a habitação e museu.

Quando é que a Ana assume a coordenação da casa-museu?
Em 2013. O José Alberto faz o concurso para o Palácio da Ajuda, fica com o lugar de diretor e eu sou nomeada coordenadora da casa-museu. Estamos ligados ao MNAC e ao Museu do Chiado. A diretora do MNAC é a nossa diretora, eu sou a coordenadora.

A Ana nasce onde? O caminho da história da arte é natural em si?
Nasci em Lisboa, sou filha já da terceira geração enraizada em Lisboa. O meu avô ainda tinha nascido no Cadaval. Esse avô materno teve uma influência enorme na minha formação como pessoa e no gosto pela arte, pela história. Chamava-se Joaquim, reformou-se quando eu tinha 5 anos e tive o privilégio de ele ter todo o tempo disponível para mim. Todos os museus que conheço, todas as exposições que vi a partir dessa altura até aos 14 anos, foram pela mão dele. Íamos ao cinema, ao teatro, visitávamos museus e exposições, às vezes ele arrependia-se de me ter levado por não serem próprias para a minha idade. Lembro-me de ter visto uma exposição de fotografia sobre a Guerra Colonial e de haver corpos... Mas nunca se falou no assunto. Muitos anos mais tarde a minha mãe falou-me nisso, que o meu avô chegou a casa a dizer "Aida, fiz asneira".

Estudou em Lisboa?
Sim. Pensei ir para Arquitetura mas acabei por ir para História, com variante História da Arte na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Quando vem para a casa-museu, não se limita a ser técnica superior, publica também, nomeadamente uma biografia da mulher americana de D. Afonso, o único irmão do rei D. Carlos.
Fez há dias anos do nascimento de D. Afonso.

No fundo, é a história de uma americana caçadora de fortunas que já depois da queda da República conhece o membro da família real e casa-se com ele. É uma personagem fascinante.
Chamava-se Nevada Hayes, tem o nome do segundo marido, que foi quem lhe deixou uma fortuna em dólares. Ela era rica mas tinha sido caçadora de fortunas, depois foi caçadora de títulos.

A Ana publicou sob a forma de romance, mas é uma ficção muito baseada em pesquisa histórica?
Sim, e em documentos. É curioso que habituamo-nos à fonte, ao documento que pode ser interpretado, mas a minha formação em História e em História da Arte faz que possamos eventualmente explorar um pouco mais e de uma forma mais fantasiosa, mas não muito. Temos de nos restringir ao documento.

Os documentos podem ser jornais da época?
Usei imensos jornais da época, o DN foi um deles, para perceber o quotidiano da família real, porque dizia sempre onde é que os membros da família real andavam. Como o Times, de Londres. Tinha uma coluna diária em que relatava onde estava e o que estava a fazer a família real e a aristocracia.

Uma das mais emblemáticas notícias do número um do DN é: "Suas majestades gozam de perfeita saúde", ou seja, não havia notícia. Daquilo que depois investigou, o jornal ia ao pormenor de dar toda a agenda da família real?
De todos os membros e da própria corte, dos nobres que faziam a entourage da família real.

Consegue, através de um jornal, saber que no dia tal...
D. Afonso estava em Sintra, àquela hora, e que tinha levado o carro com um amigo.

A figura de Nevada é fascinante, mas podia ter feito uma biografia do também chamado Arreda, mas fez antes uma biografia dela.
Faço a biografia dela, mas uma do Arreda não está posta de parte.

A conselho da editora ou foi opção sua?
Foi opção minha, porque tem que ver com as fontes. A área em que me tenho especializado desde que entrei aqui é o mundo do colecionismo e dos mercados de arte. Quando estava a fazer esses estudos apareceram-me uma série de objetos que eram provenientes da família real portuguesa e que apareceram em leilões no estrangeiro. E eu fui fazer o percurso desses objetos. Já depois de ter publicado o livro sobre a Nevada descobri muito mais coisas. Esses objetos levaram-me ao testamento de D. Afonso, ao que ele tinha herdado da família real, do avô, D. Fernando, do pai, D. Luís, objetos que estavam mais ou menos identificados, de que segui o rasto e cheguei à Nevada.

Quer explicar porque é que ele se chamava Arreda, de alcunha?
Os primeiros automóveis em Portugal foram de D. Carlos e de D. Afonso. Até formaram o primeiro clube automóvel, com corridas e tudo. Era o Arreda porque não havia estradas, não havia noção de se manter fora da estrada. Nos caminhos iam carros, carros de bois e pessoas. Ele a acelerar, àqueles 30 km/h, dizia "arreda, arreda" para quem estava no caminho

Quando caminha por esta casa-museu, há peças que lhe dizem mais do que outras?
Claro.

Quais são as suas paixões aqui dentro?
Uma das minhas paixões é a rapariga nua, de Silva Porto, da segunda metade do século XIX, do Grupo do Leão. Aliás, Anastácio Gonçalves colecionava essencialmente os autores do Grupo do Leão, esse grupo que tinha em Silva Porto o "divino mestre", que era como chamavam ao membro mais conceituado entre eles. Ele morreu muito novo mas tem uma produção imensa. Fui eu que trouxe a rapariga nua da reservas para aqui. É curioso que numa mesma pintura possamos ver a modernidade de quem a pinta, está ali situada na década de 1870, altura em que Silva Porto estava como bolseiro do Estado em Paris, mas depois eles fazem uma viagem pela Bélgica, Alemanha e Itália e esta pintura foi feita em Nápoles. Não sei nada sobre ela mas o que gosto naquela pintura é uma rapariga que tem feições rudes, não é um modelo, é uma rapariga do campo, com uns pequeninos pendentes nas orelhas, está timidamente deitada sobre um tapete e todo o envolvimento remete para uma moda, na altura, que era o orientalismo. Há ali uma grande modernidade de Silva Porto ao apresentar esse orientalismo já tão em moda em Paris e, por outro lado, temos a figura de uma rapariga, possivelmente camponesa, que ele aproveitou para fazer aquela pintura. Além disso, é uma pintura rara porque Silva Porto dedicou-se muito mais à paisagem do que à pintura humana. Outra peça que destaco é uma pintura do chamado Brueghel de Veludo. É um pintor do princípio do século XVII, muito prolífico. Há muitas pinturas dele em todos os museus europeus e Anastácio Gonçalves compra essa pintura no estrangeiro e é uma pintura que é uma alegoria aos quatro elementos, onde numa paisagem imaginada europeia aparecem araras do Brasil, essa novidade exótica que são os pássaros do Novo Mundo. E depois em primeiro plano, no chão, temos frutas e legumes abertos como se fosse um compêndio de história natural. Sempre que olho para aquele quadro vejo coisas novas, e é curioso porque, por um lado, temos um lado mitológico, uma alegoria aos quatro elementos em que na água vemos um cortejo de Neptuno que reforça o elemento água, e depois temos o lado mais tangível dos animais, das frutas, dos legumes, as criaturas dos diferentes elementos: da água, do ar e da terra.

Não me falou da porcelana chinesa, mas é um dos pontos fortes deste museu?
É o ponto forte deste museu. Tornou-se uma coleção de referência, a melhor a nível nacional. Embora não abarcando todos os períodos da produção cerâmica da China - as nossas mais antigas são Song -, tem objetos de grande qualidade que são muitas vezes pedidos para exposições no estrangeiro.

Também se destacam aqui dois Courbet, nomeadamente um de grande dimensão.
É um Narciso.

Isso mostra também que Anastácio Gonçalves conhece bem nomes como Gustave Courbet e que tinha muita perceção do que era bom?
Sim. Aliás, podemos logo verificar pela sua biblioteca... Ele fazia assinatura de todos os catálogos dos grandes antiquários estrangeiros e depois tinha assinaturas de revistas de arte muitíssimo importantes e também monografias de história da arte. Ele era um estudioso que sabia o que comprava. Estudava as peças, estudava a história da arte, inclusivamente sabemos que havia antiquários que não tinham certezas acerca de peças que tinham adquirido e que vinham cá ter com ele para ele dar a sua opinião.

A Ana também tem essa alma de viajante? Já trabalhou no estrangeiro?
Sim, na ilha de Moçambique, na formação da salvaguarda de património, em 2004, na altura em que trabalhava no IPPA

Esteve num sítio mítico dos nossos Descobrimentos.
Foi uma experiência de vida, de facto. Contactar com uma população e com uma juventude ávida de conhecimentos, foi isso que me deu ainda mais alento nessa formação.

Essa população tem noção do papel que teve no império português?
Creio que sim. Quando se deu a independência, uma das coisas que fizeram foi derrubar as estátuas que representavam portugueses e na ilha de Moçambique há duas: uma de Vasco da Gama, que foi cortada pelos pés e derrubada, e outra de Luís de Camões, que curiosamente nunca foi derrubada. Quando lá estive em 2004, a estátua de Vasco da Gama já estava novamente em pé, na praça principal, junto ao Palácio do Governador, hoje museu, e eu achava imensa graça que, quando queríamos encontrar-nos com alguém, eles diziam "encontramo-nos junto à estátua do Luisinho", que era Camões. Houve uma pacificação em relação aos portugueses, porque foi uma zona palco de grandes lutas, de guerra... E por que razão Vasco da Gama de pé, se já tinha estado depositada num armazém, e tratarem o Camões por Luisinho... Eles gostavam! Ainda mantenho correspondência com algumas pessoas a quem dei formação, foi uma experiência fantástica.

Além de coordenar este museu, este é também uma casa que antes de ser de Anastácio Gonçalves foi de outra grande figura das artes portuguesas.
Foi do José Malhoa. Aliás, chama-se Casa Malhoa, porque foi assim designada no Prémio Valmor. Foi mandada construir em 1904 pelo José Malhoa, o projeto foi encomendado ao arquiteto Norte Júnior. O que é um facto é que é a primeira grande moradia unifamiliar e a primeira casa de artista em Lisboa porque este imóvel vai conciliar duas funções: no rés-do-chão o lado doméstico da casa, a habitação onde Malhoa morava com a mulher, e depois o ateliê, a zona de trabalho.

Ele viveu aqui quantos anos?
Creio que veio para aqui em 1904, depois em 1905 ganha o Prémio Valmor e vende a casa em 1919. Há documentação fotográfica acerca do trabalho dele neste ateliê. Existem fotografias no arquivo com o Malhoa aqui nesta zona. É uma casa de artista porque é um projeto onde ele englobou os seus amigos.

(Artigo originalmente publicado a 5 de agosto de 2019)

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG