Addams, uma família pouco moderna

Eis a estreia da semana com sabor a Halloween: A Família Addams está de volta, em versão animada, para lembrar que nada se sobrepõe a uma boa tradição familiar. Por mais bizarra que esta possa parecer ao cidadão comum...

Num tempo em que se tornou importante renovar o discurso da tolerância e da diferença, a recuperação no grande ecrã de uma das mais peculiares famílias do imaginário popular americano não é um lance nada inocente. Realizado pela dupla que assinou Salsicha Party, Greg Tiernan e Conrad Vernon, esta versão em desenhos animados de A Família Addams surge não apenas como uma proposta familiar enquadrada pelo espírito de Halloween, mas sobretudo como um atualíssimo comentário social: somos capazes de conviver com "o outro"? Ou melhor, somos capazes de assimilar a excentricidade alheia?

Assente na popularidade das personagens góticas criadas pela pena do cartoonista Charles Addams, a animação que chega agora às salas não perde pitada desse universo macabro. Começamos por assistir ao casamento noturno de Morticia (com a voz de Charlize Theron) e Gomez (Oscar Isaac), cujo ritual levanta a ira de uma vizinhança intransigente que os escorraça da localidade onde estavam a viver e, como autênticos refugiados, eles seguem estrada fora à procura de um sítio a que possam chamar casa. Encontram esse lugar idealizado numa colina em Nova Jersey, onde figura uma mansão abandonada na paisagem sombria - perfeita noção de "lar" para os recém-casados Addams (que pelo caminho arranjaram um mordomo, Lurch, aparentado de Monstro de Frankenstein). O tempo passa, a família cresce - com os sinistros rebentos Wednesday (Chloë Grace Moretz) e Pugsley (Finn Wolfhard) - e a dinâmica bizarra do quotidiano ganha forma nos detalhes mais característicos do humor negro das personagens.

A quebrar esta paz caseira surge a enjoativa presença de uma estrela de TV que está a erguer uma comunidade formatada na base da colina, com casas iguais umas às outras e uma vivência social plástica e cor-de-rosa. Neste cenário de guloseima, a mansão dos Addams destoa, e por isso será alvo, mais uma vez, de um fermentado ataque da população vizinha. Mas, entretanto, a mórbida Wednesday decide frequentar a escola local, faz amizade com a filha da personalidade televisiva, e a própria Morticia terá problemas com a educação da sua adolescente, que um dia entra em casa exibindo um colorido gancho de unicórnio no cabelo... Inadmissível, entenda-se, na doce negritude doméstica dos Addams.

Ainda que não haja propriamente originalidade na "mensagem" do novo arranjo narrativo, o que confere simpatia ao modesto trabalho de Greg Tiernan e Conrad Vernon é, antes de mais, o respeito pelos pormenores deste imaginário com história na cultura americana. Teve início nos desenhos humorísticos de Charles Addams para a New Yorker, em 1938, passou pelo formato de série televisiva na década de 1960, e depois cimentou a popularidade nos filmes de Barry Sonnenfeld, de 1991 e 1993, com uma icónica e curvilínea Anjelica Huston, de realçado sex appeal, a interpretar a lânguida Morticia ao lado do caliente Raúl Juliá, no papel expressivo de Gomez. É, de resto, ao estilo enérgico destes filmes que o novo A Família Addams vai buscar inspiração, tirando partido de todas as pequenas coisas que definem as relações entre os membros do clã, como seja a cómica paixão ardente do casal, as travessuras entre os dois irmãos, ou, no fundo, aquilo que torna esta gente tão estimável: as estranhas formas de afeto que desenham o convívio familiar e a vivência das suas tradições. Se é verdade que não há grande rasgo humorístico ou uma dose consistente de ironia nos bonecos, há pelo menos este sentido de celebração do "fora do comum".

Na versão dobrada, o elenco de vozes é composto por, entre outros, Filomena Cautela (Morticia), Renato Godinho (Gomez), FF (Pugsley) e Carla Garcia (Wednesday). Mas para quem quer ficar mais próximo da tonalidade do burlesco americano, aconselha-se mesmo a versão original legendada, que conserva melhor esse paladar.

** Com interesse