Exclusivo A vertigem do desejo segundo Park Chan-wook

Das mãos do cineasta sul-coreano nunca sairia um drama policial comum. Decisão de Partir pega nesse género e dá-lhe uma investida romântica sem meias-medidas. Valeu a Park Chan-wook o prémio de melhor realizador no último Festival de Cannes.

Ninguém come um polvo vivo e não há vislumbres de sadismo, nem nada que se pareça. Eis o que importa começar por dizer sobre o novo Park Chan-wook. Em todo o caso, por trás de Decisão de Partir está o mesmo realizador de Oldboy - Velho Amigo e A Criada, agora muito mais moderado na violência, mas com aquela reconhecida habilidade para explorar os impulsos humanos numa teia narrativa que nos mantém em agradável suspensão e desequilíbrio até ao fim. Mais ou menos como o protagonista do filme, um detetive que é apenas "um tipo normal a fazer o seu trabalho de maneira comum". A descrição vem do próprio realizador, que confessou à publicação The Hollywood Reporter ter-se cansado do estilo "detetive durão e/ou genial" que abunda nos thrillers dramáticos. E se é verdade que este detetive (excelente Park Hae-il) está mais próximo de um comum mortal do que de Sherlock Holmes, o mesmo princípio de normalidade não tem cabimento na abordagem de Park Chan-wook ao género. Mas vamos por partes.

Como em qualquer policial, o aparecimento de um cadáver faz as honras da história. Neste caso, um homem que terá caído de um penhasco durante uma escalada. Ou não. É preciso investigar - começando e acabando na bela viúva (Tang Wei) que é chamada para interrogatório, e que aos olhos desse agente principal desafia algo da ordem comum dos suspeitos. A atração é imediata e evidente, mas não se cose pelas linhas tradicionais da intriga de femme fatale e quejandos. Ele passa a observá-la à distância, tanto no trabalho (ela é cuidadora domiciliária de idosos) como em casa, mas nessa visão mediada por binóculos tudo pode acontecer. Por exemplo: ele imaginar-se no sofá onde ela se senta à noite para jantar gelado e fumar um cigarro, cujas cinzas ele apara com o cinzeiro... Sim, é através destes toques ou truques sensoriais que Chan-wook aplica o seu barroco dispositivo cinematográfico, quebrando as leis da física para privilegiar a imaginação romântica que une as duas personagens, para lá de qualquer limitação do plano real. Ou seja, a simples contemplação através de uma lente equivale à fantasia de estarem a respirar o mesmo ar. De resto, ele não é solteiro mas a vida de casado é apenas um capítulo cómico.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG