A última palavra em sequelas

A Paramount ressuscita a saga Gritos com um Gritos que é meio sequela meio reboot. Autointitula-se de "requel" e é divertidíssimo. Parte do elenco original está de volta.

Como dar a volta a um remake? E o que fazer com a moda do reboot, técnica que permite que uma saga comece do ponto zero? A Paramount, que ficou agora com o franchise Scream neste quinto tomo, apostou num conceito revolucionário: misturar tudo e gozar com todo este procedimento. Este Gritos, que deveria ser Gritos 5, goza com o seu próprio título e é uma sequela que é um remake que é um reboot. A dada altura, há uma personagem que fala em "requel", a fusão do reboot com sequela. Sim, o argumento aqui adquire níveis de insubordinação metarreferenciais com o atual estado do cinema de terror americano. Aliás, tudo é meta e mais meta aqui: temos personagens a referenciar este universo, sequências em avalancha de cópia e gozo ao primeiro Scream e um diálogo aberto e profundo com os clichés dos chamados slashers, os filmes de terror com assassinos imortais, de Sexta-Feira 13 a Halloween.

Mas o grande prato da caricatura é a própria série Scream, em particular a sua falência após a quebra da novidade, especialmente a partir do terceiro capítulo. "É tão nineties", ouve-se dizer... Uma caricatura que é de tal forma inspirada e certeira que a legenda do crédito final, "para Wes Craven", faz sentido. Por muito divertido que seja, esta revolução do franchise está do lado da frescura que o mestre falecido conseguia impor. Trata-se de um humor diabólico que não anula o respeito pela arte do susto e um comentário sobre as dependências com as plataformas e a celebração da toxicidade dos fãs.

Tal como no primeiro Gritos, em 1996, tudo começa com um assassino de voz modificada a ligar para uma adolescente sozinha em casa. Logo a seguir, a jovem é esfaqueada por um mascarado com a máscara Ghost Face, a mesma máscara de Gritos. Logo a seguir, percebemos que em Woodsboro, pequena cidade americana assolada por crimes sucessivos ao longo dos anos, todos estão ligados direta ou indiretamente aos crimes dos assassinos de Ghost Face, nem que seja pela memória dos filmes Stab, obras de cinema de terror que tentam recrear as tragédias anteriores. Óbvio que Stab é o espelho invertido de Gritos mas nesta versão já existem nove sequelas, algumas delas fantasiosas. A verdade é que, desta vez, a vítima perseguida parece ser Sam, uma jovem cujo pai era um dos mascarados serial killers do primeiro surto de mortos. E à medida que novas vítimas voltam a colocar Woodsboro no mapa das notícias, alguns dos icónicos sobreviventes anteriores começam a surgir, pretexto para revermos atores em estado de esquecimento como Neve Campbell, David Arquette e Courtney Cox.

Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillet não têm o know-how de um Wes Craven ou de um Carpenter, mas são realizadores expeditos nas noções de ritmos e na gestão dos saltos na cadeira, mas a relação entre o susto e o riso parece presa a uma mecânica algo sintética. Ainda assim, este Scream reciclado soa mesmo a novidade e na sua cinefilia de wi-fi impõe-se uma capacidade de reformular fórmulas. Só por isso já se perdoa muito da fragilidade do projeto.

dnot@dn.pt

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