A segunda vaga do medo

Chega às salas Um Lugar Silencioso 2, após ter sido o primeiro blockbuster sacrificado pela covid. A continuação do sucesso de 2018 que imaginava uma praga a ameaçar a humanidade...

Guardar tudo para o começo e iniciar uma sequela com o melhor que o original tinha. O arranque desta segunda parte da saga da família Abbott é em si mesmo a lembrança do quão magistral era o primeiro A Quiet Place (2018), porventura o melhor filme de ficção-científica e terror dos últimos anos saído de um grande estúdio de Hollywood. Agora, tudo começa no exato momento em que a pequena cidade americana é atacada pelos extraterrestres exterminadores. Trata-se de uma sequência em que a coreografia do horror é precisa e sinónimo do mais requintado entretenimento emocional: John Krasinski a filmar uma invasão com um peso dramático ancorado no silêncio e no ruído, afinal as coordenadas fundamentais de uma receita de suspense que já no primeiro iria dar às mais elementares regras do suspense mais puro.

Tal como na primeira parte, todo o filme vive da vitalidade de cada sequência de ameaça e na qual se joga sempre a sobrevivência das personagens, frequentemente com o mesmo dispositivo: não fazer barulho e viver num mundo de confinamento. Logo a seguir aos eventos do primeiro filme, os Abbotts deparam-se agora com a presença do vizinho Emmett (Cillian Murphy, sempre intenso), homem traumatizado pela morte de toda a sua família. Estes sobreviventes acabam por se dividir, enquanto alguns ficam para trás, Reagan (Millicent Simmonds, menina surda-muda) e Emmett, graças à canção de Bob Dylan Beyond the Sea, procuram um sinal de esperança de uma possível comunidade que se refugiou numa ilha - supostamente, as criaturas exterminadoras não sabem nadar.

Já sem o efeito de novidade e com algumas situações de confronto algo recicladas segundo um esquema de franquia, Um Lugar Silencioso 2 está bastante aquém dos abalos do primeiro, mesmo quando respeita escrupulosamente essa ideia de "som e fúria". Ainda assim, atinge-se sempre uma atmosfera de tensão que raramente tira o pé do acelerador. Krasinski consegue um pequeno feito: assustar com o mesmo material. É um truque poderoso e engenhoso, tanto mais que aqui chega a ensaiar muitas vezes a peripécia do medo em simultâneo, ou seja, cenas de suspense em paralelo...

dnot@dn.pt

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