A paródia zombie que surpreendeu Cannes

Coupez! trouxe sangue e gargalhadas à gala de abertura. Uma pequena surpresa francesa do realizador de O Artista. Entretanto, Thierry Frémaux, homem-forte do festival assume a importância dos grandes filmes de Hollywood na seleção.

Flatulência, diarreia, vómitos, sangue e decapitações. Foi assim que os 75 anos do festival foram celebrados graças a uma escolha polémica para filme de abertura. Coupez!, de Michel Azanavicius, comédia zombie com Romain Duris e Bérenice Bejo. Polémica por antes se chamar Z e muitas vozes acharem que era mau timing o festival abrir com um filme cujo título poderia remeter para uma mensagem de apoio às tropas russas, mas sobretudo por ser um remake de Mortos, Vivos, Câmara, Ação! (2017, disponível na Spamflix), de Shin"ichorô Ueda, sobre uma equipa de rodagem de série B a fazer um mau filme de zombies, mas também por parecer uma escolha apenas para agradar a indústria francesa - tornou-se regra que o filme de abertura tem de se estrear em França nesse mesmo dia. A boa nova é que Coupez! surpreende, mesmo importando as melhores ideias ao original japonês. Trata-se de uma interessante parábola sobre as metas referências ao cinema de culto supostamente low budget e mau. Tem também uma ideia de humor burlesco e físico muitíssimo bem executada. Esta câmara-zombie tem nos seus primeiros 20 minutos uma partida ao público: sobreviver ao "mau cinema" de propósito.

E foi também no arranque deste festival que evita festas que Thierry Frémeaux falou ao jornalistas, queixando-se de um ataque informático que perturbou o "cada vez melhor" sistema digital de entradas dos festivaleiros. O delegado-geral do certame foi confrontado com o veto à imprensa russa: "isso é falso! O Festival de Cannes apenas nega a acreditação a meios russos que sejam controlados pelo regime de Putin". Frémaux foi também claro quanto à decisão de manter em competição o filme russo de Kirill Serebrennikov, Tchaikovsky"s Wife: "todos os dias recebo muitos e muitos emails para tirarmos da competição este filme por supostamente ser financiado por Roman Abramovich, mas a verdade é que o filme foi feito antes da invasão à Ucrânia e para nós isso é importante", mencionando ainda que o realizador é um verdadeiro dissidente deste governo russo.

Quanto à inclusão de Top Gun-Maverick, a sua defesa passou por garantir tratar-se de um filme muito bom: "O Festival de Cannes precisa de ter blockbusters americanos! Ao longo dos anos houve sempre uma camaradagem entre a América e o festival. Foi Hollywood que nos ajudou a construir este grande festival. Este ano, mais do que nunca, todos quiseram estar cá. Para mim, é significativo termos na seleção oficial obras da Paramount, da Warner e da Universal! E é também por isso que vamos homenagear Tom Cruise, estrela verdadeira de cinema, alguém que nunca fez nada para as plataformas e sempre recusou entrar em séries!!".

dnot@dn.pt

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