Cartaz da exposição  Imagem retirada da revista Vox,  publicada na Alemanha nazi de 1933 a 1945, em várias línguas, muitas vezes coexistindo no mesmo
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Cartaz da exposição Imagem retirada da revista Vox, publicada na Alemanha nazi de 1933 a 1945, em várias línguas, muitas vezes coexistindo no mesmo exemplar. DR

“A outra guerra” da Segunda Guerra Mundial: a propaganda feita para “convencer os portugueses”

A exposição “A Outra Guerra – Propaganda em Português na Segunda Guerra Mundial”, de 22 de setembro a 31 de dezembro, no Barreiro, reúne cerca de 200 peças do Arquivo Ephemera e mostra como as potências beligerantes procuraram influenciar Portugal entre 1939 e 1945. Para José Pacheco Pereira, a propaganda constitui uma dimensão menos conhecida do conflito e uma que conserva ecos reconhecíveis no presente.
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Portugal não entrou militarmente na Segunda Guerra Mundial, mas isso não o deixou fora da disputa pela opinião pública. Entre 1939 e 1945, britânicos, alemães, americanos, italianos e franceses fizeram chegar ao país publicações e outros materiais concebidos em português, numa batalha paralela à das armas: a de persuadir, mobilizar e moldar a perceção do conflito.

É essa frente menos visível que a exposição “A Outra Guerra – Propaganda em Português na Segunda Guerra Mundial” recupera a partir do acervo do Arquivo Ephemera. Com curadoria e textos de José Pacheco Pereira, a mostra abre a 22 de setembro no Armazém 150, no Parque Empresarial do Barreiro, e reúne cerca de 200 peças de um núcleo de aproximadamente 600 documentos conservados pelo arquivo.

“Esta exposição, que na realidade não é necessariamente só sobre a Segunda Guerra Mundial, é sobre a outra guerra, a guerra da propaganda e a importância de Portugal nessa guerra”, afirma Pacheco Pereira ao DN.

Essa importância torna-se mais nítida quando se observa a quantidade e a diversidade dos materiais destinados ao público português. “Ingleses, americanos, alemães, italianos e mesmo franceses, todos eles publicaram propaganda em português.”

Folhetos, revistas, caricaturas e outros impressos permitem perceber não apenas o que cada potência queria dizer sobre si própria ou sobre os adversários, mas também aquilo que julgava capaz de produzir efeito em Portugal. Pacheco Pereira fala em “produtos portugueses da propaganda de guerra”, reveladores  “daquilo que cada um dos beligerantes queria dizer e queria convencer os portugueses.”

A especificidade do destinatário é uma das chaves da exposição. Não se trata apenas de propaganda traduzida, mas de mensagens que procuravam reconhecer referências históricas, sensibilidades e ressentimentos próprios do país. “E por isso é tão interessante”, diz o historiador.

É particularmente evidente nos materiais produzidos pela Alemanha nazi. A propaganda alemã recuperou episódios das relações luso-britânicas, sobretudo o Ultimato de 1890, para atacar a imagem do Reino Unido junto dos portugueses.

“O caso mais significativo é a Alemanha. A Alemanha pega em elementos da história de Portugal para dizer: ‘A Inglaterra é um país imperialista e esclavagista. Um país que trata mal os povos nas ex-colónias’.”

O interesse desses documentos, para Pacheco Pereira, está também na forma como factos históricos podiam ser selecionados e reorganizados ao serviço de uma narrativa política. “A denúncia do imperialismo britânico, do comportamento da Inglaterra nas colónias, a maneira como Portugal foi tratado na altura do Ultimato, é rigorosamente histórico, embora aqui seja usado para fins de propaganda.”

Mais de oito décadas depois, alguns desses textos produzem um efeito inesperado. “ Por vezes, faço uma provocação. Leio um fragmento de um texto de propaganda alemã nazi contra o imperialismo e as pessoas pensam que é dos dias de hoje.”

A Alemanha, porém, é apenas uma das vozes presentes. Os materiais mostram como cada beligerante procurava transformar em argumento os elementos que melhor servissem a imagem que queria projetar. Nos Estados Unidos, um desses temas era a transformação do papel das mulheres durante a mobilização industrial provocada pela guerra. “Os americanos fazem propaganda, por exemplo, do papel que as fábricas tiveram na emancipação da mulher. Um dos fatores de liberdade e democracia que os Estados Unidos têm.”

A exposição acompanha, assim, um conflito que também era contado através da economia, das políticas sociais e das condições de trabalho. Pacheco Pereira situa o início dessa disputa na exibição das realizações internas de cada regime, antes de a guerra revelar a sua dimensão mais destrutiva. Ingleses e alemães, recorda, faziam propaganda dos “seus feitos económicos civis a favor dos operários”, das viagens destinadas aos trabalhadores e dos mecanismos de proteção laboral.

A distância histórica permite agora colocar lado a lado esses discursos e aquilo em que a guerra se transformou. “Um conflito mundial que tinha, de facto, uma dimensão de uma enorme crueldade.”

Um dos núcleos da exposição é dedicado ao massacre de Katyn. Milhares de oficiais polacos foram executados pelas forças soviéticas depois da ocupação de parte da Polónia. Quando as valas comuns foram descobertas pelos alemães, a autoria do crime passou também a fazer parte da guerra de propaganda. “Isso deu igualmente uma grande celeuma. Os soviéticos, acusavam os alemães de terem feito o massacre”, diz o historiador,  lembrando que a assunção da autoria pelos soviéticos só foi feita com Gorbachov.”

Se as mensagens variavam consoante o país que as produzia, os meios usados para as difundir estavam em rápida transformação. A Segunda Guerra Mundial coincidiu com uma expansão das técnicas de comunicação de massas, tornando a propaganda mais rápida, visual e capaz de atravessar fronteiras. “Outro dos aspetos da história do século XX aqui referenciados é a modernização das técnicas de propaganda”, diz Pacheco Pereira.

A rádio ocupava um lugar central nessa transformação. “Em particular, alemães e ingleses usavam a rádio, o combate na rádio, usavam banda desenhada, usavam caricaturas e isso era um fator relevante na propaganda.”

É precisamente a rádio que surge no cartaz escolhido para anunciar a exposição. A imagem foi retirada da revista Vox, publicada na Alemanha nazi entre 1933 e 1945 e distribuída em várias línguas, por vezes reunidas no mesmo exemplar. Com capas de grande elaboração gráfica e frequentemente satíricas, a revista representou nesta imagem aquilo que os responsáveis pela mostra designam como a “guerra das rádios”.

Duas figuras femininas ocupam o centro da composição, envolvidas por antenas e círculos concêntricos que sugerem a propagação das ondas radiofónicas. A imagem transforma em cena visual um confronto sem trincheiras: de um lado e do outro, emissões dirigidas a audiências que se procurava conquistar.

Essa dimensão gráfica atravessa a exposição e ajuda a perceber por que razão a propaganda da época não pode ser reduzida ao texto político ou ao comunicado oficial. A persuasão passava também pela imagem, pelo humor, pela caricatura e por formatos capazes de tornar uma mensagem imediatamente legível.

“É uma exposição muito rica do ponto de vista iconográfico”, resume Pacheco Pereira, “muito atrativa e sedutora”.

“A Outra Guerra – Propaganda em Português na Segunda Guerra Mundial” abre a 22 de setembro, às 18h00, no Armazém 150, no Parque Empresarial do Barreiro, junto ao Museu Industrial. Fica patente até 31 de dezembro de 2026, com entrada livre, às terças-feiras, sábados e domingos, das 10h00 às 18h00.

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