Já lá vai o tempo em que escrever dicionários e histórias do cinema implicava distância formal, ou pelo menos a ideia de que o autor do texto não punha a sua pele no trabalho. Um pouco a sensação com que se lê hoje, por exemplo, a História do Cinema Mundial de Georges Sadoul; e mesmo esse foi acusado de pendor ideológico... O que dizer então do dicionário biográfico do cinema de David Thomson, ou do volume dedicado ao género musical em que João Bénard Costa escreve sobre atores e atrizes num discurso pessoalíssimo, cheio de confissões de paixonetas juvenis e alfinetadas noutros intérpretes de Hollywood que não lhe caíram no goto? É mais nesta segunda linha que entronca o livro Espelho Mágico: Uma História do Cinema (edição Orfeu Negro), qual ângulo do seu autor, Francisco Valente, que segue no comboio do tempo para oferecer aos leitores uma paisagem da evolução do cinema, vista a partir do interior da carruagem mental onde carrega a mala dos conhecimentos e impressões e estabelece diálogos entre filmes. Com uma particularidade: no centro da sua proposta está a relação do espectador com a grande tela branca onde se projetam as imagens em movimento. .Enfim, a metáfora do comboio não é minha. Logo nas primeiras páginas, o crítico, realizador e programador (atualmente membro do departamento de cinema do MoMA em Nova Iorque), conta como a origem do livro se associa a uma viagem de comboio que fez para ir entrevistar Manoel de Oliveira. Nascia aí a evidência de que “o cinema tem algo de semelhante ao movimento de uma locomotiva: era visto através da projeção de rolos (carruagens) de película, unidos pelo mecanismo de projetores (carris) que contavam, a espectadores (passageiros), a ilusão de uma história (viagem) com imagens retiradas da realidade (janelas).” .Diz ainda Valente que o cinema procura responder ao desejo que temos de “ver passar a vida à nossa frente”. E será aqui que a ideia do comboio, arrisco eu, se aproxima da essência do título Espelho Mágico: ver passar a vida diante de nós, num ecrã, pode ser também vermo-nos ao espelho, projetar-nos no movimento, quiçá, interior das personagens, ou sentir uma qualquer identificação secreta que não ousamos verbalizar. Na exploração desse mistério delicado - o do “romance que existe entre nós, espectadores, e as imagens em movimento”, nas palavras do autor - parece estar o fascínio deste compacto livro de bolso, um maravilhoso transporte que suscita reflexões cinéfilas, enquanto se faz ele próprio de uma extensa reflexão sobre a condição, tão primitiva quanto mutável, do viajante do grande ecrã. .Espelho Mágico: Uma História do CinemaFrancisco ValenteEdição Orfeu Negro628 páginas.Começando no espanto provocado pelas primeiras projeções do cinematógrafo (que tem também o comboio como elemento de modernidade) e acabando na questão da sobrevivência das salas de cinema, essa crise dos nossos dias, ao longo de mais de 600 páginas, Francisco Valente percorre as fases tecnológicas da sétima arte, os moldes históricos e industriais que a definiram num determinado momento, os estilos, temas e correntes de cineastas (alguns, muitas vezes omitidos pelos artigos académicos) que ajudaram a estabelecê-la como uma linguagem diversa, tudo isto sempre de uma forma não rígida, orientada por uma cinefilia que mistura linhas de tempo e salta fronteiras geográficas em função da fluidez do texto. Pode-se falar de Stanley Kubrick, Larisa Shepitko e David O. Selznick na mesma página e fazer sentido? Pode, e é a prova da inteligência de uma escrita que consegue conjugar a maleabilidade do sonho cinematográfico com o núcleo duro dos factos históricos. .Para quem, ainda assim, considera que a história de uma arte não pode ser contada sem incorrer no peso da enumeração de acontecimentos, sublinhe-se em favor de Espelho Mágico que o que está em causa é sobretudo a dúvida romântica - o livro está cheio de interrogações - do espectador que se pensa a si próprio, deixando-se pensar pelos filmes que traz na bagagem. .E é, no mínimo, uma leitura imensamente sedutora, que inclusive na evocação de figuras-símbolo como Marilyn Monroe ou Marlene Dietrich sabe como resumir a narrativa destes corpos na memória coletiva. Escreve Valente sobre o efeito da atriz alemã: “(...)foi das primeiras pessoas a surgir no ecrã com a consciência de ser observada por espectadores que a desejavam ou que queriam levar o que ela lhes fazia sentir para fora da sala de cinema”. É, portanto, na tensão entre os lados do ecrã, e entre a experiência individual e coletiva, que esta história abraça a magia dos filmes. .Quanto ao embalo da viagem, é certo que andamos sobre carris...