A moda (não muito nova) dos atores-realizadores

Em Hollywood, cada vez mais se dá luz verde para os atores irem para o outro lado da câmara. Estão aí uma série de filmes realizados por atores, muitos deles estrelas de cinema, de George Clooney a Denzel Washington.

Da fornada de 2021 continuámos a ver uma moda que já não é propriamente nova: realizadores que são também atores. Será que o cinema americano continua a gostar de filmes de atores? Ou melhor, será que esses filmes de atores são filmes meramente de "acting"? A resposta ou as variadas respostas não apontam para uma conclusão, o que se percebe, isso sim, é que o poder dos atores na indústria está maior. Um poder que lhe deixa fazer cinema de autor, espera-se que nunca de capricho.

Se Rebecca Hall em Identidade, drama racial perdido nas catacumbas da Netflix, mostrava que ter filmado com nomes como Woody Allen, Antonio Campos ou Chris Nolan sempre serviu para alguma coisa, o caso mais flagrante de uma atriz a mostrar mesmo um olhar de cineasta é o de Maggie Gyllenhaal, autora de A Filha Perdida, a partir de Elena Ferrante, drama psicológico sobre os traumas de uma mãe sem vocação para a maternidade. Chegará aos nossos ecrãs em fevereiro e tem uma Olivia Colman talvez ainda melhor do que em A Favorita. Um filme de uma força tão convulsa como suave e onde se prova que isso da sensibilidade feminina atrás de uma câmara não é um lugar comum coisa nenhuma.

Já para a semana, regresso ao cinema de George Clooney com The Tender Bar, pequena produção que pega na história pessoal do escritor J.R. Moehringer, da sua infância a contas com o trauma de um pai bêbado ao momento em que na juventude ganha a consciência literária depois de ser rejeitado pela namorada. Um Clooney em espiral de vaidade pessoal que desta vez não entrou no cast, apenas um Ben Affleck que pode, injustamente, ser nomeado aos Óscares. Esperemos que este cineasta volte àquilo que já fez em filmes como Boa Noite, E Boa Sorte e Nos Idos de Março...

Para setembro, Olivia Wilde, a atriz de Rush- Duelo de Rivais, propõe Don"t Worry Darling, onde é uma das estrelas ao lado de Chris Pine. Dela esperam-se coisas boas, sobretudo após o estardalhaço que o seu primeiro esforço na cadeira de realizadora provocou, a comédia Booksmart- Inteligentes e Rebeldes. Wilde está tão bem cotada que já teve luz verde para avançar para outro projeto, Perfect, sobre a ginasta olímpica Kerry Strug. Consta também que será uma das próximas realizadoras de um filme da Marvel ainda sem título, mas isso não são boas notícias.

Em grande parece estar um homem que veio do teatro e que é para muitos o maior ator de Shakespeare vivo, Kenneth Branagh, provavelmente conhecido tanto como ator como realizador. Está neste momento na crista da onda: em Belfast, filme com ressonâncias autobiográficas, está fadado para os Óscares. Um trabalho de realização maioritariamente a preto & branco, pronto a ser visto por cá só em fevereiro, o mesmo mês em que o seu filme anterior, entretanto adiado devido à pandemia, Morte no Nilo, tem também estreia. Mais uma adaptação de um clássico de Agatha Christie onde Branagh dá vida a Hercule Poirot. A Disney a tentar capitalizar a popularidade do detetive belga com sotaque caricato.

Sem estreia ainda agendada entre nós está a nova realização de Denzel Washington, A Journal for Jordan, drama sobre um soldado que antes de morrer deixa um diário para o seu filho. Poder-se-á pensar que Washington fez este filme para dar um papelão a um dos atores que é visto como seu herdeiro, Michal B. Jordan. Um cineasta que vai construindo um caminho no cinema afro-americano.

Para lá de Hollywood, esta moda chegou também em força ao cinema francês e aí é quase tradição de estatuto. Que o diga Mathieu Amalric, cada vez mais realizador. Ele que está em pausa como ator e que em breve vê a chegar às salas portuguesas o excelente Abraça-me com Força, sobre uma mulher que tenta abstrair-se de uma tragédia familiar e inventar uma vida para os mortos dos quais não consegue fazer luto. Um cineasta a recusar a ideia de teatro filmado e a inventar um território de fantasia interior. Esteve em Cannes, tal como De Son Vivant, da atriz Emmanuelle Bercot, a filmar a relação de uma mãe com o filho em fase terminal. Bercot a oferecer o papel de uma vida a Benoît Magimel. Ainda de Cannes outro filme de um ator popular, A Cruzada, de e com Louis Garrel, simpático filme infantil com mensagem ecológica urgente. Garrel tem um mérito: nunca copia o pai Philippe.

Por fim, importante não perder de vista em março a Charlotte Gainsbourg como cineasta, neste caso numa espécie de home-movie para a mãe, Jane par Charlotte, onde se filma a sua relação com a mamã Jane Birkin. Fascinante psicanálise em forma de cinema.

No geral, a maioria destes atores que vai para atrás da câmara, sabe o que esta a fazer...

dnot@dn.pt

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