A epígrafe escolhida por José Saramago para a peça A Noite foi: “Todos faremos jornais um dia». Assinada como de “autor desconhecido”, quase cinquenta anos depois vem confirmar as atuais suspeitas sobre o fim do jornalismo como o conhecemos. Mais, a própria feitura dos jornais à época em que Saramago foi subdiretor do Diário de Notícias já há muito deixou de existir, sendo ultrapassada pela tecnologia que tornou obsoleta toda a produção de um jornal como o que o escritor dirigiu durante boa parte do ano de 1975, o do Verão Quente, e do qual com o golpe de 25 de novembro foi despedido. Não sem antes ter apreendido toda a forma de ser dos jornalistas, fotógrafos, funcionários e administrativos, uns ainda com os vícios da longa ditadura salazarista e marcelista e outros com os vícios de sinal contrário do pós-25 de Abril.José Saramago imprime na explicação inicial da peça que “qualquer semelhança com personagens da vida real e seus ditos e feitos é pura coincidência”. Acrescenta um “evidentemente”, que reforça essa separação entre autor de teatro e um polémico subdiretor de um jornal. Não será assim tão verdadeira esta separação, ou uma das poucas mulheres jornalistas do DN não se teria visto tão refletida numa personagem. Quanto aos outros, quem viveu esses tempos em que a “ação passa-se na redação de um jornal, em Lisboa, na noite de 24 para 25 de Abril de 1974”, reconhecerá muitas outras personagens-tipo, pois as redações de então e até à Revolução dos Cravos não eram assim tão diferentes umas das outras.A Noite será uma boa leitura para os que deixaram de se preocupar com a liberdade adquirida em Abril e veem com bons olhos as ideologias de direita radical que se têm vindo a implantar na Europa e em Portugal. Um bom exemplo está logo no diálogo inicial, quando o chefe de redação pede para lhe fazerem uma ligação telefónica para o “exame prévio” e em seguida fala com o coronel Miranda para saber que cortes serão feitos nos artigos do jornal. Para quem não percebe o significado da expressão “exame prévio” diga-se que é a Censura, que cortava de forma unilateral palavras, frases e até páginas inteiras dos jornais portugueses até 1974.A peça decorre nessa noite em que o 25 de Abril está em marcha e o que Saramago pretende é mostrar a realidade em três tempos: ao princípio da noite, um retrato de como se vivia então nas redações, não deixando de mostrar a instabilidade política do fim da ditadura, as crises trabalhistas, as orientações ideológicas no noticiário e as de uma direção de jornal que é mão do poder político; já a noite ia longa quando o que se viveu nessa redação passa a ser em função da chegada da informação sobre o levantamento militar em vários quartéis do país e que se dirigem para Lisboa, ocupam rádios, televisão e outros setores fundamentais para que o pronunciamento militar saia vitorioso, a par de uma disputa entre a direção, a administração, jornalistas e tipógrafos sobre o que noticiar na primeira página sobre o que está em marcha; e uma terceira, de apenas uma página, em que se confirma que a rotativa que imprime o jornal começou a trabalhar e os profissionais que queriam registar as notícias sobre um golpe de estado militar em curso saem vitoriosos da discussão. “A máquina já está a andar” é uma das deixas finais, até o som da rotativa não deixar ouvir mais nada.Aliás, é com estas palavras finais que José Martins, encenador, ator e ex-jornalista, começa o seu texto incorporado nesta edição comemorativa e que o define como “um final épico”, descrevendo a história da peça: “No início de junho de 1979, no palco e na sala da Academia Almadense, onde então o Grupo de Campolide (atual Companhia de Teatro de Almada) estava sediado, que as palavras escritas por José Saramago na sua primeira peça de teatro ganharam corpo e alma e a sua estreia como dramaturgo foi um dos momentos mais emocionantes da vida da companhia”. Recorda que o escritor a fez a pedido de Luzia Maria Martins, para comemorar o quinto aniversário da Revolução, e que recebeu o Prémio da Associação de Críticos Portugueses. Um ano depois de A Noite, Saramago estrearia outra peça, Que Farei com Este Livro, com a mesma companhia e encenador Joaquim Benite.Esta edição conta com três dezenas de páginas finais onde se encontra uma reportagem fotográfica sobre a encenação, atores, notícias e críticas. Uma edição especial que, segundo o editor da Caminho e da totalidade da obra de José Saramago após A Noite, Zeferino Coelho, reproduz a “rota de uma editora” cinquentenária e responsável pela publicação de milhares de títulos na ficção, ensaio e poesia, bem como pela revelação de inúmeros autores. .A NOITEJosé SaramagoCaminho143 páginas . Outras novidades literáriasO NOBEL DE 1929Com a entrada dos direitos de autor no domínio público está-se a assistir a uma reedição da obra do escritor Thomas Mann, Prémio Nobel da Literatura de 1929. Não que tenha sido esquecido nos últimos cem anos, pois tem havido sucessivas reedições de A Montanha Mágica e de Os Bruddenbrook, bem como edições de várias outras obras de Mann nestas duas editoras, D. Quixote e Livros do Brasil (tal como na Relógio D’Água) que agora regressam ao escritor. A Montanha é por agora denominador de ambas já em janeiro, que prosseguem os lançamentos, respetivamente, com um outro clássico do escritor alemão, Mário e o Mágico (janeiro), o relato da história de uma família de férias em Itália que se sente marginalizada pelas questões nacionalistas que já prenunciavam o fascismo italiano de Mussolini e o nazismo alemão de Hitler. .A MONTANHA MÁGICAMÁRIO E O MÁGICOThomas MannD.QuixoteNO DOMÍNIO PÚBLICODesordem e Primeira Paixão (janeiro) e Os Buddenbrook (março) estão entre os romances de Mann que também regressam às livrarias em novas edições pela Livros do Brasil. O primeiro é o livro que sucedeu ao A Montanha Mágica e não se afasta da temática, apenas na grandiosidade com que o escritor aborda as mudanças políticas em curso. O segundo, que foi a apresentação do autor ao público em 1901, narra a vivência de quatro gerações de uma família. As traduções são, respetivamente, de Gilda Lopes Encarnação e Ana Maria Carvalho; e de Herbert Caro e de José Lobo Antunes e novamente de Herbert Caro. .A MONTANHA MÁGICAOS BUDDENBROOKDESORDEM E PRIMEIRA PAIXÃOThomas MannLivros do Brasil