A ligação perdida de Donald Sutherland 

Uma modesta adaptação de uma novela de Stephen King, O Telefone do Sr. Harrigan precisava de mais Sutherland mais do que de mensagem sobre os malefícios da cultura do smartphone. Estreia Netflix.

Quando foi a última vez que vimos estrear um filme ou uma série baseada num livro de Stephen King? É simplesmente impossível acompanhar o ritmo da máquina. E, entretanto, aí está mais um: O Telefone do Sr. Harrigan parte de uma novela homónima do escritor americano (que se encontra na coletânea Se Tem Sangue, editada pela Bertrand) e resulta numa daquelas adaptações fiéis que contentam o seu autor (aqui, produtor executivo), por "respeitar o espírito do livro", sem que isso signifique muito em termos de cinema. Pela mão de John Lee Hancock, que o ano passado dirigiu Denzel Washington no thriller As Pequenas Coisas, este é um filme que começa por sugerir algo do território da amizade e nostalgia de Conta Comigo - uma das melhores adaptações de King - mas perde impacto quando a parábola sobre o terror dos iPhones se sobrepõe às emoções subtis geradas pelo encontro entre as duas personagens principais.

Craig é um miúdo humilde que faz leituras na igreja de uma pequena cidade quando um velho multimilionário (Donald Sutherland) repara nele e pede autorização ao pai para lhe dar um part-time como leitor na sua própria mansão. Órfão de mãe e tão solitário como o magnata das finanças, o rapaz vai-se afeiçoando a esse homem "assustador e interessante", que, com uma regularidade semanal, e sempre na sua pose serena e soberana, o ouve ler grandes clássicos da literatura, de D.H. Lawrence a Conrad, de Dickens a Dostoiévski. Os anos passam e, com os sinais de vetustez mais acentuados, só se acrescenta uma mantinha nas pernas.

É por essa altura, ano 2007, que surgem os primeiros iPhones. E Craig, como qualquer jovem do secundário, não está imune à moda, acabando por conseguir que o pai lhe compre um. A partir daqui a história poderia seguir pelo caminho óbvio do rapaz que perde o interesse no seu pequeno ofício de leitor, mas em vez disso, ele não só continua a desfrutar da companhia do Sr. Harrigan, como se encarrega de lhe apresentar o admirável mundo novo da tecnologia. Que primeiro não o seduz, mas depois o agarra pelo acesso rápido ao mercado de ações e às notícias do The Wall Street Journal... Sem surpresa (está explícito no cartaz e no trailer), chega o dia da morte do ancião e Craig, de impulso, mete no bolso do defunto o smartphone que lhe deu, provocando o que vem a ser uma comunicação do outro mundo.

Entre o coming of age e o retrato de uma amizade com luz e sombra, Hancock parece ter o filme ganho durante todo o período de vida da personagem de Sutherland, que nos prende com os gestos mínimos, e sem ceder, por um único momento, à imagem convencional do homem rico com segredos obscuros - ele não se deixa ler facilmente, mas permanece uma figura de pura dimensão humana.

Infelizmente, O Telefone do Sr. Harrigan não produz respostas à altura do seu intrigante tópico narrativo. Vai perdendo força quando troca a biblioteca do milionário pelo terror frouxo do vilão iPhone, por sua vez, martelado com uma banda sonora que não tem outro propósito senão enfeitar o ambiente dramático. Um pouco mais de Sr. Sutherland e talvez tudo se elevasse.

dnot@dn.pt

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