A garota de Ipanema já é vovó mas a música que inspirou é uma eterna jovem

Helô Pinheiro tinha 17 anos quando deslumbrou Tom Jobim e Vinicius de Moraes ao passar junto ao botequim do Veloso. Hoje tem 75, no cabelo trocou o moreno pelo loiro mas continua charmosa.

Hoje Helô Pinheiro é loira e dentro de um mês faz 75 anos, mas quando passou naquela tarde de 1962 junto do botequim do Veloso, na praia de Ipanema, e deslumbrou António Carlos Jobim (ou melhor, Tom Jobim) e Vinicius de Moraes era morena e tinha 17 anos. Conta o jornalista brasileiro Ruy Castro, grande contador de histórias do Rio de Janeiro, que "de facto, Helô Pinheiro pode ter inspirado aquela letra de Vinicius em particular. Mas, como o próprio Vinicius sabia melhor do que ninguém, ela não foi o protótipo, nem de longe, das garotas de Ipanema. Estas - moças inteligentes, independentes, corajosas e livres - já tinham sido muitas e vinham desde os anos 1940. Em meu livro Ela É Carioca - Uma Enciclopédia de Ipanema, trato de cada uma delas. E dou também o devido crédito à Helô como, por um mero acaso, recém-chegada do conservador bairro do Grajaú, onde nascera e morara durante toda a adolescência, tendo motivado aquela canção ao passar diante do bar".

De seu nome completo Heloísa Eneida Menezes Paes Pinto, a jovem beldade de olhos azuis era filha de um oficial do exército e de uma funcionária pública e a mudança para a zona das praias cariocas só aconteceu depois do divórcio dos pais. Mesmo assim, assegura Ruy Castro, a "professorinha" Helô nunca foi ali como peixe na água e os seus planos de vida eram bem conservadores: não tardou muito, casou com Fernando Pinheiro, herdeiro de uma siderurgia e craque do vólei do Flamengo. O casal teve três filhas e um filho. E entre os netos destaca-se Bruna, de 22 anos, que a vovó diz ser a nova garota de Ipanema.

Foi preciso os negócios do marido correrem mal no final dos anos 1970 para Helô, agora com o sobrenome Pinheiro, finalmente aceitar propostas para entrar em filmes e telenovelas e até apresentar programas de televisão. Em 1987, já quarentinha, posou para a revista Playboy brasileira.
Jobim e Vinicius, um mais velho do que Helô 16 anos e o outro 31, deixaram-se enfeitiçar pelo contraste entre o corpo esbelto e a timidez da garota e o cantor chegou a declarar-se à musa, levando um doloroso não que mesmo assim não impediu que assistisse ao casamento dela com o noivo de sempre.

Não foi só a dupla Jobim/Vinicius que se apaixonou por Helô. Desde a primeira gravação, a Garota de Ipanema revelou-se um sucesso e em 1964, pela voz de Astrud Gilberto, foi o mundo que se rendeu à música que no original em português começa assim: "Olha que coisa mais linda/ Mais cheia de graça/ É ela a menina que vem e que passa/ Num doce balanço a caminho do mar."

Frank Sinatra interpretou a versão em inglês escrita por Norman Gimbel (com Jobim e Vinicius a terem de se impor para a palavra Ipanema não desaparecer), igualmente lhe deram voz Plácido Domingo, Madona ou Amy Winehouse.

Em Portugal, Camané também não resistiu um dia a cantar em público a canção inspirada em Helô Pinheiro. "Tom Jobim é um dos meus compositores favoritos e de uma inspiração acima da média. Compôs tantos temas intemporais em que se inclui a inesquecível Garota de Ipanema, tema de beleza e sensualidade extraordinárias", comenta o fadista.

Helô está, porém, longe de corresponder a um estereótipo da mulher brasileira, afinal de tão variados tipos, graças à miscigenação e à imigração.

Helô, que de início não sabia ser a musa da célebre canção, viveu sempre bem com a fama associada. E quando decidiu há uns poucos anos escrever uma autobiografia o título escolhido, claro, foi A Eterna Garota de Ipanema.

De morena a loira, mas sempre charmosa, resistindo bem ao passar das décadas como se pode ver em muitas fotografias que dela vão sendo publicadas, Helô está, porém, longe de corresponder a um estereótipo da mulher brasileira, afinal de tão variados tipos, graças à miscigenação e à imigração. Como sublinha Ruy Castro, biógrafo também de Carmen Miranda, a musa de Jobim e Vinicius "é apenas um desses. Temos brasileiras de todas as cores de pele, cabelo e olhos, e nenhuma é menos ou mais brasileira do que as outras. A escolha é infinita..."

Tão infinita que na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, Daniel Jobim, neto do compositor, interpretou ao piano Garota de Ipanema enquanto desfilava a top model brasileira Gisele Bündchen, cujas formas alongadas estão muito distantes das curvas que Helô mostrava quando corria na areia de Ipanema a caminho do mar nos anos 1960.

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