À espera de Timão de Atenas

Espetáculo do Teatro Praga reflete sobre o teatro e a sociedade contemporânea a partir do texto de Shakespeare.

Reúnem-se para ver Timão de Atenas. Trazem-lhes presentes. O Poeta traz um poema, o Pintor fez-lhe um quadro, o Joalheiro algumas joias. Apemanto, o filósofo, critica toda a gente. O militar Alcibíades também não está muito satisfeito, mas Timandra parece disposta a gostar de tudo. Afinal, estão ali por Timão. E toda a gente sabe como é Timão. Toda a gente conhece o seu gosto pelo luxo e a sua generosidade. "E a verdade é que nós estamos aqui. Para o Timão", admite o Senador. "E acho que devemos estar super agradecidas porque estamos nesta ágora que, digam o que disserem, é uma ágora fantástica." Mas desta vez não há canapés nem sequer um espumante e Timão está atrasado. Passa-se alguma coisa. "Isto costumava ser bastante mais movimentado e sentia-se uma erótica generalizada", comenta Alcibíades. "Há sossego a mais para o meu gosto." Onde estará Timão?

A partir de Timão de Atenas, de Shakespeare (1564-1616), e da composição musical homónima de Henry Purcell (1659-1695), o Teatro Praga estreia a sua própria versão de Timão de Atenas este sábado no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Seis anos depois de A Tempestade e nove anos depois de Sonho de Uma Noite de Verão, o grupo completa a sua trilogia shakesperiana. "A ideia sempre foi termos total liberdade para fazermos o que quiséssemos", explica o ator e encenador André e. Teodósio.

E o que quiseram foi pegar nas peças do Shakespare e com elas refletirem sobre o seu próprio trabalho, sobre o que é isso de fazer teatro. No primeiro espetáculo, o Sonho, o foco estava no público - "o público é que comanda o olhar". Na Tempestade, como não podia deixar de ser, centraram-se na intenção do autor. E neste Timão de Atenas as questões viraram-se para a parte mais material do espetáculo: do que é que uma obra precisa para funcionar e que realidades materiais potenciam ou não a criação?

A fase seguinte foi decidir que tipo de diálogo iriam estabelecer com o original, como explica o dramaturgo José Maria Vieira Mendes. "Há sempre um piscar de olho ao texto. Podemos aproveitar a estrutura narrativa, a temática, algumas personagens, algumas frases..." Nesta versão de Timão de Atenas, em que há tanto de Shakespeare como de Praga, o grupo fez questão de manter "a estrutura dual" da personagens - entre a civilização e a floresta. Ou seja, na primeira parte, que "segue um pouco mais de perto a narrativa de Shakesperare", estamos no mundo da civilização e das convenções. Timão é um homem rico e poderoso, adorado por todos (e de quem todos se querem aproveitar). Timão é o símbolo do luxo, conhecido pelas festas faustosas que organiza. "Mas ele não vem e é sobre essa expectativa que é construída toda a primeira parte."

"Quando ele vem, desaparece tudo." Na segunda parte, vemos como Timão foge da civilização e se refugia na floresta, renegando a todos os aspetos materiais. Procura estar sozinho e mais em contacto com a natureza. De uma partilha passa-se para um individualismo. E de uma noção de luxo enquanto riqueza passa-se para uma outra ideia de luxo, algo mais experiencial. "É uma coisa que acontece hoje em dia, também, a ideia de luxo foi-se alterando e democratizando. Dizemos que poder ir à praia e apanhar sol é um luxo", explica Vieira Mendes. "O luxo deixa de ser para mostrar e passa a ser para sentir."

Nesta segunda parte, o espetáculo muda completamente. Enquanto na primeira estamos a assistir a uma peça de acordo com os cânones clássicos do teatro, personagens que entram, dialogam e saem, levando ao desenvolvimento da ação, na segunda parte entramos numa lógica de fragmentação e de quadros, quase como que entrando no delírio de Timão. Os atores estão por trás de um telão e apenas temos acesso às personagens através de um vídeo feito em direto. "Timão vai para a floresta, que é o lugar do anticapitalismo, mas ele está a ser filmado, portanto é quase como aqueles reality shows em que uma pessoa vai para o Alasca viver sem nada mas depois tem um drone sempre a filmá-lo, e alguém está a editar e a vender aquilo. Nós associamos o eremita ao anti-capitalista, mas todas as suas estratégias de visibilidade são capitalistas."

O epitáfio de Timão - "Nothing brings me all things" (o nada traz-me todas as coisas) - mostra um pouco da falácia desta mudança radical de Timão. "Quando ele já não tem dinheiro e está na falência, ele pede dinheiro e ninguém lhe dá e ali uma desilusão, de facto, e ele vai para a floresta fugindo da civilização que o vai sugando. Mas depois encontra uma maneira de fazer com que as pessoas peçam para ele voltar e há uma espécie de vingança que ele consegue executar sem dinheiro. Portanto, há um lado perverso. Ele não é apenas uma vítima mas também um vencedor."

Da mesma forma, também a música muda da primeira para a segunda parte. Na primeira, a orquestra de época Ludovice Ensemble interpreta toda a música de Purcell (são os momentos de festa, quase como discoteca, enquanto os convidados esperam por Timão). Na segunda parte, entramos numa zona de liberdade, onde as escolhas musicais foram feitas pelos elementos do Praga.

Datada de 1694, e composta por encomenda do poeta e dramaturgo Thomas Shadwell (1642-1692), a obra de Purcell - uma mask ("mascarada") - segue de perto a adaptação do texto original de Shakespeare, A Vida de Timão de Atenas, assinada por esse escritor. A"'mascarada" era uma forma de entretenimento praticada entre membros da corte, em moda nos séculos XVI e XVII, que envolvia música, dança, canção e representação, pautada por cenografias elaboradas e figurinos sumptuosos. Os "mascarados" eram, habitualmente, membros da corte e, por vezes, até o próprio rei, acompanhados por atores e cantores profissionais.

A dirigir os quase vinte músicos do Ludovice Ensemble está Fernando Miguel Jalôto - cocriador, em 2004, juntamente com Joana Amorim, deste grupo especializado na interpretação historicamente informada de música antiga. A interpretação é de André e.Teodósio, Cláudia Jardim, David Mesquita, Diogo Bento, Joana Barrios, João Abreu, Marcello Urgeghe, Patrícia da Silva e Pedro Penim. A cantar vão estar as sopranos Ana Quintans (Cupido) e Joana Seara (Ninfa), o barítono André Baleiro (Baco), e os tenores Fernando Guimarães (seguidor de Baco I) e André Lacerda (seguidor de Baco II).

Timão de Atenas
Um espetáculo do Teatro Praga com a colaboração musical do Ludovice Ensemble
Centro Cultural de Belém, Lisboa
sábado e segunda às 21.00
domingo às 16.00
Bilhetes: 19 - 22 euros

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