A dança do luto de Isadora Duncan pelos filhos

Apresentado no LEFFEST, Os Filhos de Isadora é uma serena e fascinante introdução ao trabalho de Damien Manivel, o vencedor do Leopardo para melhor realização no último Festival de Locarno.

A obra de Damien Manivel (n.1981) ainda não foi devidamente apresentada ao público português. Os primeiros esforços nesse sentido foram feitos recentemente, na última edição do LEFFEST, que organizou uma retrospetiva dos seus filmes à boleia da futura estreia de Os Filhos de Isadora. Chegado agora às salas, o filme que traz no título a referência à lendária bailarina e coreógrafa Isadora Duncan (1877-1927) é uma doce celebração da dança enquanto gesto libertador.

Desde logo, vindo de um realizador francês com um passado de bailarino, este objeto cinematográfico - na aceção mais artística do termo - não cede aos apetites modernos de rapidez e ligeireza. A sua atenção aos movimentos dolentes dos corpos é o que torna a experiência imersiva; já de si minimalista e profunda. Minimalista porque será apenas um motivo que une as três partes de Os Filhos de Isadora, e profunda porque cada uma dessas partes comunicam a sua emoção de uma maneira muito rara no cinema. Dito de outra forma, Manivel não tem medo do silêncio e usa-o como matéria dramática num processo de composição de gestos intercalado por um único e belíssimo tema musical, o Estudo para Piano de Scriabin.

Partindo de uma memória trágica de Isadora Duncan - a morte dos seus dois filhos, ainda crianças, em 1913, num acidente que acabou com o carro afundado nas águas do Sena - Manivel pega no solo (Mother) que a artista americana criou, motivada pelo sentimento dessa dor maternal, para alinhar as interpretações de quatro figuras femininas nos dias de hoje. Na primeira parte, seguimos uma bailarina (Agathe Bonitzer) que lê a autobiografia de Duncan, à procura da justeza e intimidade dos gestos no momento de interpretar essa coreografia de despedida; depois, uma jovem bailarina com trissomia 21, de novo em ensaios, e a sua professora, que refletem juntas sobre a história funesta e a necessidade de a transmitir ao público através da beleza desses gestos, como o de embalar um filho; e, por fim, uma espectadora (a bailarina e coreógrafa Elsa Wolliaston) que se comove com a representação da jovem, tendo também ela uma relação espiritual com este solo de Isadora Duncan, como se verá na derradeira parte do filme.

Para além da coreografia terna e magoada de Duncan, o que liga os três blocos narrativos de Os Filhos de Isadora é um meticuloso estudo da emoção através do corpo. O modo como a dança comunica a interioridade e liberta a alma. E nessa suave observação, que é também uma filosofia em movimento, Damien Manivel encontra o próprio caráter ensaístico do filme. Não estamos nem diante de uma ficção acabada, nem de um projeto documental, mas sim de imagens que nos aproximam da anatomia de uma dança, por si só, na mesma medida em que nos aproximam das mulheres que a vivem de diferentes maneiras.

Esta é, sem dúvida, a obra mais invulgar e delicada em exibição neste momento nas salas de cinema. E para a abordar do seu ponto de vista artístico, a Medeia Filmes organizou sessões comentadas por especialistas da dança - como Olga Roriz ou Né Barros - no Espaço Nimas, em Lisboa, e no Teatro Campo Alegre, no Porto.

*** Bom

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