O striptease de Jennifer Lopez a caminho do Óscar

Dizem os analistas americanos que Jennifer Lopez pode estar a caminho de uma nomeação para os Óscares: Em Ousadas e Golpistas, ela interpreta uma stripper que enfrenta as muitas convulsões geradas pela crise financeira de 2008.

A propósito de Ousadas e Golpistas, vários setores da imprensa dos EUA têm especulado sobre a possibilidade de Jennifer Lopez chegar a uma nomeação para um Óscar... Mas será essa a questão central? Tenho dúvidas. E começo por um pormenor que está longe de ser secundário: o filme, sobre um grupo de mulheres que trabalham num clube de striptease em Nova Iorque, tem um título original, Hustlers, realmente difícil de traduzir. Nada a ver, entenda-se, com a obra-prima The Hustler (1961), de Robert Rossen, em que Paul Newman interpreta a saga de sobrevivência de um jogador de bilhar (personagem que ele próprio retomou, em 1986, em A Cor do Dinheiro, sob a direção de Martin Scorsese).

Em qualquer caso, as memórias ajudam-no a perceber que "hustler", palavra visceral do imaginário "made in USA", não se limita a definir um, ou uma, especialista em golpes mais ou menos ilegais. A sua ação para enganar os outros envolve sempre um perverso efeito de retorno: "hustler" é também aquele, ou aquela, que sofre as consequências da sua arte do engano, desde logo no plano afetivo e também na consciência moral. Recordemos que, entre nós, o filme de Rossen recebeu o título pobremente simbólico de A Vida É um Jogo (a versão brasileira não é melhor: Desafio à Corrupção).

Dito de outro modo: é duvidoso que a "ousadia" das personagens principais de Ousadas e Golpistas resulte do facto de mostrarem o seu corpo aos clientes que lhes pagam para sessões mais ou menos privadas de simulação de alguma atividade sexual. O motor dramático de Ousadas e Golpistas, inspirado em factos verídicos, é bem diferente: trata-se de fazer o retrato íntimo de uma atividade que, a pouco e pouco, sob o efeito da crise financeira de 2008, vai deslizando dos artifícios o cabaret para diversas formas de prostituição.

A sensação muito física, potencialmente obscena, da circulação do dinheiro constitui, sem dúvida, o principal elemento dramático da realização de Lorene Scafaria (dela conhecíamos uma comédia de estranha envolvência, Até que o Fim do Mundo nos Separe, lançada em 2012). Nessa medida, o filme conserva uma dimensão de investigação jornalística, obviamente ligada ao artigo da autoria de Jessica Pressler ("The Hustlers at Scores"), publicado em 2015 na revista New York, que serve de base ao argumento - a sua organização narrativa corresponde mesmo a uma série de "flashbacks", nem sempre muito subtis, justificados pela evolução do trabalho da jornalista interpretada por Julia Stiles (agora identificada apenas como Elizabeth).

É pena que a encenação de Scafaria se revele algo redundante na apresentação das rotinas do grupo liderado por Ramona e Destiny, interpretadas, respetivamente, por Jennifer Lopez e Constance Wu. Em boa verdade, a amizade que liga as duas mulheres constitui a mais importante componente emocional do filme: é através da sua relação que vamos sendo confrontados com os rituais (e o dinheiro) da estupidez machista e, mais do que isso, os efeitos devastadores do abalo financeiro que começou a manifestar-se nos cenários de Wall Street (de onde provem a maior parte dos clientes registados na agenda de Ramona).

Claro que é possível que Jennifer Lopez possa chegar a uma nomeação para um Óscar: expondo as muitas nuances emocionais de Ramona, ela tem aqui aquela que é, talvez, a sua mais elaborada composição desde Out of Sight/Romance Perigoso (1998), notável "thriller" de Steven Soderbergh em que contracenava com George Clooney. Mas resta perguntar: qual Óscar? Isto porque uma eventual nomeação na categoria de melhor atriz parece algo "abusiva", já que o verdadeiro centro dramático do filme é a personagem de Destiny, assumida com igual brilhantismo por Constance Wu.

Enfim, nesta revisitação das convulsões financeiras da década passada através de actividades (mais ou menos) ilegais, importa fazer um contraponto e recordar o notável Molly"s Game/Jogo da Alta Roda (2017), de Aaron Sorkin. Aí, Jessica Chastain interpretava a personagem, também verídica, de uma mulher que se especializa na organização de jogos de poker em que se movimentam quantias cada vez mais elevadas, a ponto de atrair algumas figuras do submundo do crime. Face à fascinante complexidade do filme de Sorkin, Ousadas e Golpistas não pode deixar de revelar a sua condição de honesto, mas rudimentar, objeto de cinema... Mas, como diria o outro, ninguém é perfeito.

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