A caveira que ilumina os vivos

Estreou na aldeia da Vela, Guarda, em dezembro e chega agora a Lisboa a peça de Jacinto Lucas Pires, encenada por Marcos Barbosa, Os Coveiros. É um diálogo dos nossos tempos sombrios com Shakespeare e a sua capacidade de rir da vaidade humana.

O texto é mítico na História do Teatro mundial. Entre os coveiros, Hamlet, príncipe da Dinamarca, invoca a memória do bobo Yorick, cuja caveira segura nas mãos: "Conheci-o, Horácio; um sujeito de chistes inesgotáveis e de uma fantasia soberba. Carregou-me muitas vezes às costas. E agora, como me atemoriza a imaginação! Sinto engulhos. Era aqui que se encontravam os lábios que eu beijei não sei quantas vezes. Onde estão agora os chistes, as cabriolas, as canções, os rasgos de alegria que faziam explodir a mesa em gargalhadas? Não sobrou uma ao menos, para rir de tua própria careta? Tudo descarnado."

A cena, retirada do último ato de Hamlet, de William Shakespeare, inspirou a Jacinto Lucas Pires (texto) e Marcos Barbosa (encenação) a peça Os Coveiros, em cena até domingo na Escola do Largo, em Lisboa, depois de se ter estreado em dezembro na Casa do Povo de Vela (distrito da Guarda) e com a próxima "paragem" já marcada para Torres Vedras a 28 de janeiro. Com interpretação de Raquel Silva, Joana Pialgata, Pedro Moldão, Pedro Fontes e Marcos Barbosa, Os Coveiros nasceu do amor, comum a encenador e autor, pela obra de Shakespeare (o que os levará a apresentar um Hamlet em 2023, anuncia o primeiro), mas também dos desafios mentais que nos foram colocados pela crise pandémica: "Creio que tomámos uma nova consciência da omnipresença da morte e da nossa própria fragilidade", diz Marcos Barbosa. "A cena shakespeariana dos Coveiros é tão brilhante por isso, porque é uma brincadeira sobre um tema tão pesado, feita por aqueles que trabalham com a morte todos os dias, desde o princípio dos tempos."

Jacinto Lucas Pires admite que esta cena em particular o interpelava há muito: "Eu já tinha esta ideia mas ainda não encontrara o modo mais apropriado de a desenvolver. É algo de notável porque, apesar de falar da morte e da fragilidade da nossa condição, este é um momento de alívio cómico (um conceito muito caro ao teatro britânico) numa peça que se pode considerar claustrofóbica, porque enquanto espectadores nos sentimos sempre assombrados pelos fantasmas que vivem na cabeça do protagonista." Tal como Marcos Barbosa, também Lucas Pires pensa que a luz irradiada por este momento em particular do texto é ainda mais luminosa após quase dois anos de pandemia e de estatísticas ameaçadoras: "Durante o processo de escrita, com o Centro de Dramaturgia da Guarda, e nos ensaios, é como se a caveira de Yorick nos iluminasse o caminho e nos ajudasse, ao despertar para a transitoriedade de tudo isto, a estar mais presentes nas nossas vidas."

O diálogo com Shakespeare (já estabelecido anteriormente na peça Henrique IV, parte 3) não atemoriza o escritor e dramaturgo português: "O maior respeito que se pode ter pelas grandes obras é olhá-las como coisas vivas, com as quais podemos jogar e brincar. Este episódio dos coveiros permite muito esse jogo porque os próprios intervenientes estão a dessacralizar a morte, ao mesmo tempo que denunciam a hipocrisia da sua época e do sistema social. Em vez de ficarmos intimidados por esse monumento de pedra que é o Hamlet, temos de nos colocar em modo criança, a brincar e a jogar, porque essa é também a essência do teatro."

Essa quase informalidade esteve também na mente do encenador, que não quis montar um espectáculo shakespeareano à moda do londrino Old Vic: "Do ponto de vista da encenação, esta experiência proporcionou-me uma espécie de regresso a uma forma de teatro mais simples, muito assente no jogo dos atores, dos corpos no espaço, próximo daquele que fazia há 20 anos quando comecei a trabalhar. Chegámos à aldeia de Vela e foi como se ali tivesse chegado uma troupe de atores, que era, aliás, o espírito original de Shakespeare. Foi muito bom porque as pessoas nos acolheram com grande entusiasmo, até porque a peça em si tem várias camadas de compreensão e reflexão." Um entusiasmo que parece extensivo a Lisboa já que as quatro sessões previstas (da passada 5.ª feira até amanhã, 16) estão esgotadas. "Não esperava tanto", admite Marcos Barbosa, "atendendo a que ainda estamos em pandemia. Creio que há uma ansiedade do público em voltar ao teatro e isso é muito bom."

Na próxima 6.ª feira, 21, subirá ao palco do Teatro Aveirense uma outra parceria de Marcos Barbosa com Jacinto Lucas Pires, em que o clássico interpelado não é Shakespeare mas vários textos do Padre António Vieira. "Trata-se de uma peça coral, em que assumimos o risco, politicamente incorrecto em tempos de cancel culture, de falarmos da Amazónia e do Padre António Vieira no mesmo texto. Mas eu gosto de pensar como a Sophia de Mello Breyner Andresen no poema Biografia: Odiei o que era fácil. São essas as pegadas que procuro seguir."

dnot@dn.pt

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