A batina faz o padre

Nomeado para o Óscar de melhor filme internacional, Corpus Christi - A Redenção, do polaco Jan Komasa, traz ao grande ecrã as dores de um jovem delinquente em metamorfose espiritual.

Costuma dizer-se que o hábito não faz o monge. No caso do jovem protagonista de Corpus Christi - A Redenção, a batina faz mesmo o padre... e isso não comporta nada de pejorativo. Entenda-se: ao invés do típico conto do vigário, que em geral não improvisa nem aprofunda a leitura da alma humana, esta é a história de alguém que se transformou espiritualmente a partir de uma mentira. Não a desfez, antes aproveitou para lhe dar sentido benéfico. Mais curioso ainda: o filme é inspirado num caso real.

Nomeado para o Óscar, na categoria agora designada de filme internacional, esta obra do realizador polaco Jan Komasa alicerça-se na impressionante expressão do seu ator, Bartosz Bielenia. Ele, Daniel, carrega ao mesmo tempo a beleza sacra do convertido (veja-se a candura com que canta os salmos) e os olhos fundos da sua noite interior, a que não podemos logo aceder. É neste misto de fragilidade e melancolia que o vamos encontrar num centro de detenção juvenil, juntamente com outros reclusos que espelham a violência do lugar, notando-se a sua vontade isolada de refazer a vida quando puser os pés dali para fora. Chegado esse dia, apesar da genuína intenção de ingressar no seminário, os seus antecedentes criminais impedem-no de concretizar o desejo. Segue para trabalhar na serração de uma pequena aldeia, que recebe jovens com a sua condição de ex-recluso, mas ao escapar-se para visitar a igreja local acaba por se tornar o respetivo pároco... a título temporário.

Tudo acontece de maneira espontânea, um simples mal-entendido que não se desmancha e que leva a crer que Daniel poderá ser um bom substituto para o velho pároco, este a precisar de se ausentar para uma reabilitação. Sem quaisquer coordenadas, ele atira-se de cabeça à inesperada missão, não só forjando uma revigorante abordagem religiosa como sondando uma ferida aberta na comunidade, relacionada com uma tragédia recente.

Nesta confluência engenhosa de duas situações - a farsa de Daniel e o mal-estar daquela aldeia -, os dilemas da carne e do espírito tomam forma numa muito bem conduzida parábola mundana, sem sermões fáceis. A câmara de Komasa segue de perto as chagas deste cristo de perturbantes olhos azuis, sem nunca vacilar nas questões que o envolvem e naquelas em que ele se quer envolver. E essa atitude de realização que adensa e tonifica o drama é uma constante num filme que passa a perna ao previsível, com um desconcertante final.

Não é, contudo, apenas o efeito surpresa ou a inteligência narrativa que garantem o rasgo de Corpus Christi. A pesquisa aturada de Jan Komasa pelas intenções do protagonista, o modo como este se deixa habitar simultaneamente pela fé e pelos seus fantasmas e o retrato que salta à vista de uma Polónia profundamente católica (sem caricaturas) são aspetos que, do íntimo para o coletivo, refletem os códigos de uma sociedade. Aqui, saber contar uma história passa também por isto: condensar o olhar num corpo em desassossego e revelar o que está à sua volta. Eis que há mais valores além de Pawel Pawlikowski no atual cinema polaco.

*** Bom

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