A angústia do adolescente roubado

No Cinema Trindade arranca esta quinta-feira o ciclo das novas cineastas brasileiras com Mãe Só Há Uma, de Anna Muyalert, relato de uma fratura familiar no Brasil de todas as convulsões sociais.

É com atraso grande que chega este filme de 2016 que fez furor no Festival de Berlim. Mãe Só Há Uma inspira-se numa história real (o sequestro de Pedrinho, em Brasília, em 1986) de um rapaz de 17 anos que descobre que a sua mãe o roubou à mãe biológica ainda em bebé. Pierre acaba por ir parar ao seio da sua família biológica. Uma família burguesa, onde encontra um novo irmão e um estilo de vida no oposto ao anterior. Uma família que também terá dificuldade em aceitar a sua androginia.

Anna Muyalert, realizadora que vinha do sucesso Que Horas ela Volta, parece mais interessada em estar perto de um pulsação de um jovem perdido do que nos contornos dramáticos de um caso de sensacionalismo de tabloide. A sua câmara vai sempre para direções imprevisíveis e mesmo os métodos dos avanços narrativos são auto-dinamitados. Para esta cineasta que filma tudo com distância sociológica o importante é um um ponto de vista interior.

O filme está do lado do rapaz em crise de identidade - em última análise, Mãe Só Há Uma é uma reflexão sobre um corpo no limbo do seu género e identidade, mas por vir de um Brasil efervescente acaba por ser um conto de moral acerca da condição social e ficam no ar questões prementes: somos quem somos pela influência do meio ou há sempre a predominância da genética? .Pierre, nas mãos da cineasta, não é um proveta de estado social, é uma personagem de uma enorme complexidade, espelho honesto de uma atitude dos novos adolescentes onde se mandam os rótulos às urtigas. Por isso, nem é transgénero, crossdresser ou queer. Pierre não tem de ser nada, nem mesmo quando beija rapazes ou faz amor com raparigas. O mundo deste jovem não é aqui devorado com juízos de valor. A câmara apenas segue os seus desejos, a sua desorientação e os seus tempos da adolescência. Trata-se de um processo com todos os artifícios do cinema do real mas sem esconder uma palpitação emocional. E é aí que Mãe Só Há Uma marca pontos...

Para que este conto de meninos roubados resulte, a perícia deste argumento reside no facto da personagem protagonista não estar construída como uma tese. É um personagem de cinema, tão simples quanto isso, daquelas que nos fazem pensar sobre a essência da nossa singularidade. E é quando vai direto ao coração que maior impacto tem. Esta hora e vinte de cinema direto não se parece com muita coisa do novo cinema brasileiro. A sua curta duração sabe a pouco, coisa raríssima nestes dias.

Este é o primeiro filme de um ciclo dedicado às novas cineastas brasileiras. Todas as semanas o Trindade, no Porto, recebe filmes inéditos de jovens realizadoras. Dia 8 teremos Mata-me por Favor, de Anita Rocha da Silveira e oito dias depois Amor, Plástico e Baruljo, de Renata Pinheiro. Depois, seguem-se Pendular, de Julia Murat e o excelente A Cidade onde Envelheço, de Marília Rocha, o prato forte destas escolhas.

*** (bom)

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