7 dias, 7 propostas por Aldina Duarte

Aldina Duarte é uma das grandes vozes atuais do fado. Foi residente durante 25 anos numa das mais relevantes casas de Fado de Lisboa, o Senhor Vinho, com direção artística de Maria da Fé. Tudo Recomeça é o seu mais recente trabalho. Estas são as suas sugestões para os próximos sete dias.

1. Filmes
Cinema Ideal
Rua do Loreto 15
Domingo, 29 de maio

O Cinema Ideal fica no centro histórico de Lisboa com uma programação exemplar, sendo que a qualidade e a diversidade cinematográficas são garantidas, (gostos, à parte): filmes nomeados e premiados em festivais conhecidos, Cannes, Veneza ou nos Óscares, entre outros; filmes do mundo inteiro e cinema português de realizadores de todas as gerações, incluindo curtas metragens e documentários, muitas vezes as sessões são apresentadas pelos próprios realizadores, actores ou técnicos participantes no filme e convidados das mais diversas áreas do conhecimento. O horário das sessões é favorável a todos os estilos de vida, incluindo manhãs! Também se pode beber um café, ler jornais, comer uma das melhores empadas de galinha que já provei e perder a cabeça na loja dos DVD da Midas Filmes, que tem um catálogo espantoso. Gosto muito de ir ao cinema de eléctrico, há qualquer coisa de infância feliz neste ritual domingueiro.

2. Música
Vida Nova
Manel Cruz
Segunda, 30 de maio

Manel Cruz - Vida Nova - este disco tornou-se a banda sonora, durante a pandemia, e continua a fazer parte da minha lista de CD favoritos, faço questão de o ouvir ao acordar, do princípio ao fim, para começar bem a semana. Se eu voltasse a nascer cantor gostava de ser o Manel Cruz! Enquanto objecto, é um livro graficamente muito bonito, pode ler-se como um livro de banda desenhada poética, sendo que as letras das canções são a matéria visual, a voz e a interpretação do Manel estão mais profundas que nunca, as melodias são comoventes e a sonoridade tem a assinatura da originalidade que define o seu criador.

3. Livros
Auto-retrato com radiador
Christian Bobin
Editora Flâneur
Terça, 31 de maio

O Auto-retrato com radiador, de Christian Bobin, da editora Flâneur, é um diário que se tornou o meu livro de cabeceira, já com folhas soltas e tudo, uma espécie de "bíblia", quando a grande literatura nos torna imediatamente inteiros, isto é, seres com cabeça, corpo e alma, desde as primeiras frases até ao fim do livro, é caso para dizer: já ganhei anos de vida. No dia 31 de Maio, por exemplo: "Mozart escreveu, a propósito de um dos seus concertos: É brilhante, mas falta-lhe pobreza.", ou no dia 2 de Novembro, outro exemplo: "Não sei se gostaria de viver com alguém como eu. Creio que não. Graças a Deus, não vivo comigo.!"

4. Ouvir
Podcasts
Vários
Quarta, 1 de junho

A par de vários programas de rádio que sigo com regularidade - O Tempo e a Música, de Rui Vieira Nery; A Contar, de David Ferreira; Portugália, de Henrique Amaro; Fala Com Ela , de Inês Meneses - estão a minha última decoberta delirante os podcast: Perguntar Não Ofende, de Daniel Oliveira; Política a 45 Graus, de José Maria Pimentel; Fuso, de Bumba na Fofinha; A Beleza das pequenas Coisas, de Bernardo Mendonça, Programa Cujo Nome Estamos Legalmente Impedidos de Dizer, de Carlos Vaz Marques, João Miguel Tavares, Pedro Mexia e Ricardo Araújo Pereira. Por recomendação médica imperativa tenho de caminhar meia-hora, no mínimo, todos os dias, e gosto muito de andar a ouvir podcast nos auscultadores, já a rádio prefiro em casa ou no carro, sempre é uma companhia.

5.Passeio
Almoçageme, Praia das Maçãs, Colares
Quinta, 2 de junho

Prefiro os dias de semana, em todas as alturas do ano, para passear pelos recantos sintrenses e gosto de interromper a semana de trabalho a meio para recuperar forças, afinal, no meu trabalho não há fins de semana nem feriados; visitar monumentos e ruas da vila, passando pela Sapa para saborear as melhores queijadas do mundo; de seguida, ir de carro pelo meio da serra até à praia da Adraga, uma das mais bonitas do planeta, ouvir, cheirar, ver e mergulhar ou, simplesmente, molhar os pés no mar; de Almoçageme, aldeia de todas as minhas férias, sigo para a Praia Grande e faço a minha caminhada pelas arribas até à Praia das Maçãs e, por vezes, almoço em casa de familiares, amigos ou na esplanada do Neptuno. Também, gosto sobremaneira de assistir ao pôr-do-sol e beber um chá de hortelã fresca na esplanada do Hotel Arribas. O meu sonho é envelhecer em Colares, entre o mar e a serra.

6. Livrarias
Snob e Almedina
Tv de Santa Quitéria 32A
e Rua da Escola Politécnica 225
Lisboa
Sexta, 3 de junho

Costumo ir a pé à "minha" livraria, como gosto de dizer, a Snob, quer pela simpatia dos donos, quer pela competência dos livreiros. Fico por lá à vontade, sem tempo, a ler excertos dos livros que são novidade, dos autores que desconheço, a conversar sobre tudo um pouco, a sugerir livros que acabei de ler e que me marcaram. O assunto muitas vezes são os meus autores e os seus livros que me impressionam, dos quais saliento "O Meu Corpo Humano", de Maria do Rosário Pedreira, "Dicionário de Artistas", de Gonçalo M Tavares, (amigos, à parte), ou as sugestões do Duarte, da Rosa e do Marcus, como "O Meu Suicídio", de Henri Roodra, da editora Snob, que é a maior declaração de amor à vida que alguma vez li, apesar do título, as edições de poesia de uma editora caseira maravilhosa, a Contracapa, ou a colecção Imago, da editora KKYM, são tantos os livros e os autores, que bom! Dali também sigo para a Almedina do Rato, onde também gosto muito de ir.

7. Conversar
Entre amigos e família
Sábado, 4 de junho

Faço por manter o hábito de estar com aqueles a quem mais amo. Para quem vive sozinha com duas gatas, e não quer outra vida, a partilha com os outros é fundamental para manter a sanidade a todos os níveis. Gosto muito de abraçar, de aprender conversando, (devo tanto às boas conversas), de rir às gargalhadas, de dar presentes, de dançar, de ir a concertos, de comer cozido à portuguesa e sardinhas assadas com salada de pimentos, de festejar aniversários, de ir de férias, ou seja, estas são as coisas que, basicamente, gosto mais em boa companhia do que sozinha, mas, ainda assim, nada é mais insuportável que estar mal acompanhado. A minha experiência diz-me que não é "impossível ser feliz sozinho", como dizia a bela canção de Tom Jobim, talvez porque tenha uma natureza solitária evidente desde pequenina, mas claro que não sinto qualquer solidão graças ao amor e à inteligência dos que me rodeiam, disso não tenho a menor dúvida.

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