150 anos depois: recordar a viagem de Eça de Queiroz pelo canal de Suez

Em novembro de 1869, o escritor português viajou ao Egito e esteve na inauguração do canal de Suez, fazendo depois relato dessa viagem em quatro crónicas publicadas no DN. O momento é evocado num congresso, a partir de sexta-feira, em Lisboa.

A 23 de outubro de 1869, Eça de Queiroz, então com 23 anos, partiu para uma viagem ao Egito a convite do amigo e futuro cunhado, D. Luís de Castro Pamplona, conde de Resende, para assistir à inauguração do canal de Suez marcada para o dia 17 de novembro. Foi um dos poucos portugueses que tiveram oportunidade de estar presentes na abertura daquele canal artificial que ligava o mar Mediterrâneo ao mar Vermelho.

Eça regressou a Lisboa a 3 de janeiro de 1870 e, entre os dias 19 e 21, publicou na coluna Folhetins do Diário de Notícias quatro crónicas de viagem, em forma de carta, com o título "De Port Said a Suez". Foram, escreveu o então jovem escritor, "dias confusos e cheios de factos". E são esses dias que, 150 anos depois, são recordados no congresso "Eça de Queiroz, nos 150 anos do canal de Suez", que se realiza entre sexta-feira e segunda-feira (dias 15,16,17 e 18), em Lisboa.

"Será uma oportunidade para regressar ao Eça, que é uma figura ímpar da nossa literatura, agora com este foco específico", adianta Renato Epifânio, membro da comissão organizadora do congresso que é promovido pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono. "Este Eça, muito jovem, está mais distante de nós, porque foi como que submerso pelo monstro literário em que ele se tornou. E nós achámos que este aniversário seria um bom pretexto para recuperá-lo."

O congresso começa com um dia, sexta-feira, de conferências e debates na Sociedade de Geografia de Lisboa, inclui um almoço-tertúlia no sábado no mesmo local e um passeio cultural pela "Lisboa de Eça e da Geração de 70" no domingo, e termina, na segunda-feira, com mais um dia de conferências e debates na Biblioteca Nacional de Portugal.

Um português nas festas do Suez

No passaporte de Eça de Queiroz foi-lhe atribuída a categoria de "encarregado de despachos". Desembarcou com Luís de Castro em Alexandria a 5 de novembro, viajaram de comboio até ao Cairo e daí seguiram para Port Said, onde, a 17 de novembro, assistiram à inauguração do canal.

"Vínhamos do sossego do deserto e das ruínas, e logo na gare do Cairo, ao partir para Alexandria, começámos a envolver-nos, bem a custo, naquela confusão irritante que foi o maior elemento de todas as festas de Suez. A previdente penetração da polícia egípcia tinha esquecido que 300 convidados, ainda que não tenham a corpulência tradicional dos paxás e dos vizires, não podem caber em 20 lugares de vagões, estreitos como bancos de réus. Por isso, em volta das carruagens havia uma multidão tão ávida como no saque de uma cidade." Assim conta Eça de Queiroz, nas suas crónicas no DN, como foi a sua atribulada viagem para Alexandria, de comboio, e depois, de barco (o Fayoum) até Port Said, que, naquele dia, por causa da inauguração, estava "cheio de gente, coberto de bandeiras, todo ruidoso dos tiros dos canhões e dos hurras da marinhagem, tendo no seu porto as esquadras da Europa, cheio de flâmulas, de arcos, de flores, de músicas, de cafés improvisados, de barracas de acampamento, de uniformes, tinha um belo e poderoso aspeto de vida. A baía de Port Said estava triunfante".

Nos seus textos, o escritor conta como o local estava repleto de gentes de todos os cantos do mundo, convidados reais e imperiais, "oficialidades todas resplandecentes de uniformes, gordos funcionários turcos afadigados e apopléticos, viajantes com os chapéus cobertos de véus e couffés" e muitos outros, uma multidão que se apinhava para assistir a todas as celebrações.

"Quando tudo estava colocado e o grande rumor da chegada e da confusão se acalmou, os ulemás prostraram-se, voltados para o lado de Meca, os padres cristãos começaram a missa, a artilharia salvou nas esquadras. (...) Quando a artilharia findou, Mr. Bauer adiantou-se à beira do estrado e falou. Mr. Bauer é um homem baixo, pálido, de cara feminina e larga, cabelos pendentes em anéis sobre os ombros, asseado, bordado, perfumado, delicado e com uma voz assombrosa. O que ele dizia eram palavras de fraternidade entre o Oriente e o Ocidente, esperanças de humanidade mais profunda, unida por aquela ligação marítima, palavras afáveis aos convidados reais, e recordações piedosas pelos corajosos trabalhadores que durante aquela obra de luta morreram obscuramente. Quando ele disse o nome de Mr. De Lesseps, toda a imensa multidão bateu as palmas. Mr. Bauer findou e o cortejo voltou à praia e dispersou-se pelos navios. Durante toda a noite, os fogos-de-artifício, os clamores alegres da cidade, o ruído dos escaleres, as músicas, encheram a baía de vida."

O escritor não esconde a sua admiração pelo engenheiro que idealizou o canal. Construído pela empresa de Ferdinand de Lesseps, o canal pertencia a França e ao Egito. A construção demorou o dobro do tempo previsto e custou três vezes mais do que o planeado, mas naquele momento ninguém queria saber desses pormenores. O importante era a possibilidade de fazer aquela travessia. As crónicas seguintes de Eça são dedicadas à viagem, algo atribulada, pelo canal, até ao Suez, uma "cidade escura, miserável, decrépita". No final, os convidados dispersaram-se e o escritor também seguiu a sua viagem.

Entre 26 de novembro e 11 de dezembro, os dois amigos estiveram na Síria e na Palestina, visitando sítios bíblicos. Voltaram a Alexandria, de onde saíram a 26 de dezembro. Sobre tudo isto, ele foi anotando as suas impressões. Nos seus cadernos de bolso, o futuro diplomata descreve os túmulos faraónicos, relata os passeios na ruidosa cidade do Cairo, a visita à mesquita de Amr e a outras mesquitas, o porto de Alexandria, as viagens de comboio e de barco. Para além dos textos publicados no DN, Eça não publicou esses apontamento mas serviu-se deles para enriquecer a vida das personagens de Teodorico Raposo (em A Relíquia) e de Fradique Mendes, além de haver referências a estas viagens ainda noutros romances, cartas e contos. Os apontamentos seriam publicados postumamente, pelo seu filho, no livro O Egito. Notas de Viagem. Terá sido também durante essa viagem que Eça de Queiroz ganhou o gosto pela diplomacia que haveria de levá-lo, mais tarde, à América.

Uma oportunidade para recuperar este Eça menos conhecido

Criado há 19 anos, "o MIL é uma associação cultural que promove diversos eventos de cariz cultural, muitos deles a nível lusófono", explica Renato Epifânio. A ideia de celebrar Eça e os 150 anos do canal de Suez partiu do repto de um membro do Conselho Consultivo, Octávio dos Santos, e foi imediatamente abraçado pelo MIL, que organiza o congresso em parceira com o CLEPUL - Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e contando com uma série de outras colaborações.

Entre as mais de 20 intervenções agendadas encontramos nomes como o do historiador e conhecido queirosiano Alfredo Campos Matos, os escritores Miguel Real, Alexandre Honrado e Jorge Chichorro Rodrigues, o professor e político Mendo Castro Henriques e muitos outros. "Fizemos alguns convites e recebemos muitas propostas, que superaram muitos as nossas expectativas. Temos participantes que vêm de Inglaterra, do Egito, do Brasil", sublinha Renato Epifânio.

O congresso detém-se sobre a experiência de Eça no Médio Oriente e os textos que daí resultaram mas vai muito mais além - haverá oportunidade para refletir sobre vários pontos da obra queirosiana, as suas influências e referências, a sua relação com o islão e com os outros autores, seus contemporâneos ou mais recentes. O programa completo do congresso pode ser consultado no site oficial e a entrada é livre para os vários painéis. Os textos serão depois publicados na revista Nova Águia.

Já para as atividades do fim de semana é necessária uma inscrição através do e-mail info@movimentolusofono.org. O almoço, que conta com a participação do diretor do Diário de Notícias, Ferreira Fernandes, realiza-se no sábado, na Casa do Alentejo, em Lisboa, e terá um valor entre os 20 e os 25 euros. Neste dia, o DN publica também na sua edição em papel um destacável com o conjunto dos textos publicados em 1870 por Eça de Queiroz sobre o Suez.

O passeio cultural de domingo será guiado por Fabrizio Boscaglia, doutorado em filosofia, investigador sobre islamismo, literatura e pensamento português, que há alguns anos organiza este tipo de passeios pela cidade de Lisboa a partir da vida e obra de escritores como Eça de Queiroz, Antero de Quental ou Fernando Pessoa. A participação no passeio custa 30 euros.

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