100 anos depois, 'O Garoto de Charlot' continua ser um filme de muitas emoções

The Kid continua a ser um dos títulos mais universais da obra de Charlie Chaplin: a sua estreia ocorreu há um século, no dia 21 de janeiro de 1921, no Carnegie Hall de Nova Iorque.

A cinefilia é, muito simplesmente, o amor do cinema. Um dos seus poderes mais radicais envolve a transfiguração do próprio tempo: um filme amado reaparece sempre como um objeto do nosso presente. Assim, por exemplo, The Kid, o lendário O Garoto de Charlot, um dos símbolos mais universais da obra de Charlie Chaplin (1889-1977): é bem verdade que o vemos e revemos como uma história intemporal de emoções à flor da pele; o certo é que foi há um século que ocorreu a sua estreia, no dia 21 de janeiro de 1921, no Carnegie Hall de Nova Iorque.

A história do vagabundo que acolheu e criou um bebé abandonado pela mãe possui uma vibração dramática que, além do mais, representou um salto decisivo na evolução do próprio Chaplin. A partir de 1914, os seus pequenos filmes burlescos tinham-lhe conferido o estatuto de uma das figuras mais populares, um genuíno pioneiro, do cinema mudo. Mais ainda: depois de The Tramp (1915), a sua figura de vagabundo transformara-se numa personagem de muitos ecos simbólicos (a pobreza perante a riqueza, a compaixão contra a misantropia, etc.), repetida e reinventada em inúmeras curtas-metragens.

É bem verdade que, em 1915, através do épico O Nascimento de Uma Nação, David W. Griffith tinha já mostrado que, tanto em termos artísticos como no plano comercial, era possível explorar uma duração (superior a duas horas, neste caso) muito para lá das breves aventuras burlescas de "polícias & ladrões". Mas era ainda uma das exceções. Aliás, é curioso reparar que os cartazes originais de The Kid, além de celebrarem a autoria de Chaplin ("escrito e dirigido por..."), sublinhavam também a sua duração pouco vulgar, ligeiramente superior a uma hora: "6 reels of joy", quer dizer, "seis rolos (ou bobinas) de alegria".

Alegria e lágrimas, convém acrescentar, ou não fosse The Kid um modelo exemplar dos valores e das potencialidades da narrativa melodramática. O vaivém da personagem do "garoto", interpretado pelo irresistível Jackie Coogan (1914-1984), com 6 anos na altura da rodagem, integra, de facto, três princípios fundamentais do melodrama: a constituição de um laço afetivo, o seu confronto com a lei (familiar ou social) e, por fim, a possibilidade (ou não) de consolidar a relação original.

Títulos posteriores de Chaplin, como Luzes da Cidade (1931) e Luzes da Ribalta (1952), constituem exemplos modelares dessa filiação melodramática. Isto sem esquecer, claro, que o tema da pobreza é transversal na obra de Chaplin, remetendo para memórias da sua infância em Londres.

Tal como aconteceu com outros dos seus títulos mudos, Chaplin compôs uma banda sonora para The Kid, por ele refeita para a reposição do filme, a 4 de abril de 1972, nas salas dos EUA (numa versão que também remontou, com uma duração ligeiramente inferior à da estreia). Poucos dias depois, a 10 de abril, esteve em Los Angeles, na 44.ª cerimónia dos Óscares, para receber um prémio honorário "pelo incalculável efeito que teve na transformação do cinema na arte do século."

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