Ingmar Bergman desmonta o teatro conjugal

Um pequeno ciclo de filmes, em cópias restauradas, permite-nos ver ou rever alguns momentos emblemáticos da obra do mestre sueco Ingmar Bergman - a começar por Da Vida das Marionetas, o seu único título falado em alemão.

Quase sempre, quando evocamos meia dúzia de filmes de Ingmar Bergman (1918-2007), suscetíveis de resumir o génio do mestre sueco, Da Vida das Marionetas é um dos títulos que fica de fora. Saudemos, por isso, o facto de surgir agora a abrir um pequeno ciclo de reposições de Bergman, em cópias restauradas (a partir desta quinta-feira, durante duas semanas, no Nimas, em Lisboa).

Trata-se, de facto, de uma referência emblemática na evolução da sua obra. Em boa verdade, da sua vida: na sequência de um complicado conflito com as autoridades fiscais da Suécia, o cineasta tinha-se exilado na Alemanha, acabando por realizar Da Vida das Marionetas, em 1980, com produção de um canal televisivo alemão. Ficou, por isso, como uma das exceções linguísticas da sua filmografia: é o seu único trabalho falado em alemão, cerca de uma década depois de The Touch/O Amante (1971), em inglês.

Dizer que o filme reflete as convulsões da vida privada de Bergman é, por certo, o mais elementar - ele próprio o confirma, aliás. Seja como for, nada disso tem que ver com o narcisismo grosseiro hoje em dia favorecido pelas chamadas redes "sociais". Da Vida das Marionetas impõe-se como um caso extremo de exploração e depuração de um tema transversal no universo "bergmaniano". A saber: como é que se estabelece (ou se rompe) uma relação entre um homem e uma mulher?

Há qualquer coisa de enigma policial na estrutura narrativa de Da Vida das Marionetas, quanto mais não seja porque toda a ação é pontuada por um crime. Mais do que isso, as relações labirínticas de um casal, em particular na sua dimensão sexual, surgem assombradas por uma violência psicológica que envolve um contínuo frente a frente com a possibilidade da morte.

Como Bergman recordava, as personagens centrais, Peter e Katerina Egermann, são desenvolvimentos do casal que encenara em Cenas da Vida Conjugal (1973). Estamos perante uma verdadeira arqueologia da vida íntima, tanto mais admirável quanto, para além das qualidades de Bergman como realizador, argumentista e escritor de diálogos, ele sempre foi um inigualável diretor de atores - observem-se as sublimes composições de Robert Atzorn e Christine Buchegger, respetivamente como Peter e Katerina.

Cenas da Vida Conjugal também está incluído neste ciclo, sendo o filme final a ser exibido. Completam-no, por ordem de apresentação: Uma Lição de Amor (1961), Ritual (1969), Persona/A Máscara (1966) e Lágrimas e Suspiros (1972). Eis o trailer deste último, apresentado pelo próprio Bergman.

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