Dolemite, o melhor Eddie Murphy voltou!

Radiante biografia de Rudy Ray Moore, figura central da subcultura afro-americana nos EUA dos anos 1970, Chamam-lhe Dolemite é também uma hilariante comédia com valores nostálgicos. Um regresso de Eddie Murphy na Netflix a partir de sexta-feira.

"Blaxploitation". Palavra que para muitos é sinónimo de algo distante e incompreensível. O movimento cultural que a América negra dos anos 1970 formou é um imaginário que em Portugal parece algo distante e ancorado nas brumas da memória de Shaft, mas a verdadeira lenda terá sido Rudy Ray Moore, criador da personagem Dolemite, primeiro através de shows de humor, depois por intermédio de discos que terão ajudado na formação do hip-hop e, finalmente, como criador e protagonista de filmes de série Z que misturavam humor picante e ação mal filmada. Moore foi uma espécie de papa do mau cinema de culto nas famosas sessões da meia-noite no Harlem.

No último Festival de Toronto, Dolemite is My Name teve uma das maiores ovações e confirmou as expectativas: Eddie Murphy tem um "comeback" daqueles que Hollywood gosta de festejar. O ator torna-se literalmente em Rudy Ray Moore, uma transformação em forma de força de natureza e com um humanismo que poucos acreditavam ser possível. Tal como o filme, Murphy exala uma energia genuína, capaz de tornar tão divertido como comovente um verdadeiro "entrepreneur" do showbizz americano.

O filme acompanha a ascensão de Rudy na Nova Iorque do começo dos anos 1970, mostrando como criou a personagem, sobretudo a partir da tradição oral das ruas americanas onde se idealizava um ideal de homem excêntrico e com a sua sexualidade confiante. Mas é no processo de filmagens de Dolemite, recordista de bilheteiras em 1975, que a narrativa acaba por se concentrar. Rodagem que foi feita ao sabor do improviso e onde os técnicos eram estudantes de cinema sem grande experiência.

Francamente divertido e com um respeito explícito sobre cada personagem (e aqui a aposta é na fórmula do "ensemble"), Chamam-lhe Dolemite é cinema no terreno da irrisão mas com um amor incomensurável pelo ato da criação. De alguma maneira, a abordagem de Craig Brewer (cineasta que em 2005 espantou o mundo com esse excelente Hustle & Flow) não difere muito do olhar de Tim Burton perante o cinema mau de Ed Wood: há veneração e fascínio perante a feitura da "má arte". Mas o guião está do lado da vontade de sonhar de Rudy Ray Moore. E mais do que assuntos de cinema ou de cinefilia, celebra-se um orgulhoso movimento afro-americano.

Nesse sentido, sentimo-nos convidados para uma festa da cultura negra americana: ostensiva, larga e alegre! E esta "masterclasse" de veneração por um folclore esquecido deixa-nos contagiados com um humor que é tão malicioso e específico como aberto e vibrante. A câmara de Brewer compreende bem o fenómeno de Moore e na fórmula do "biopic" há sempre novidades que evitam lugares comuns. Faz-nos também gostar muito das personagens e dos seus excessos, por muito que digam asneiras e abusem do "swag". Toda aquela exuberância apanha-nos desprevenidos, mesmo quando aqui e ali seja difícil digerir todos aqueles códigos de um mundo que goza com a própria natureza e orgulho afro-americano...

Numa altura em que vivemos momentos de medo perante o controlo do humor "politicamente correto", um filme como este vem mostrar que a liberdade de expressão nas artes, por muito "vulgar" que seja, é um arremesso de verdade. Além do mais, Dolemite is My Name assume-se como um testemunho melancólico de uma Nova Iorque multicultural e com uma subcultura que foi abafada por uma estética de consumo imediato.

Na sua extravagância de tributo a um padrinho do cinema "trash", temos um objeto que celebra a diversidade. Prolegómenos à parte, Chamem-me Dolemite atua de forma corrosiva quando deixa qualquer espetador de qualquer idade feliz a revisitar uma época em que o cinema poderia ser tudo. De um golpe de karate mal dado a uma piada de gosto duvidoso com bicada política.

Resta esperar se a nova polícia do feminismo em Hollywood não vai implicar com a tal swag de Eddie Murphy e de toda esta cultura que até desmistifica o mito do machismo do "brother" duro dos anos 70...

Por cá, sugere-se a formação de uma claque para ajudar a maravilhosa Da'Vine Joy Randolph a estar na corrida dos prémios na categoria de atriz secundária...

4 estrelas

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