"Saúde no século XXI: universalidade, ética e tecnologia" foi o mote para uma troca de ideias.
"Saúde no século XXI: universalidade, ética e tecnologia" foi o mote para uma troca de ideias.Foto: Gerardo Santos

Grande conferência DN: Inteligência artificial, ética. Os desafios do "médico humano"

"Saúde no século XXI: universalidade, ética e tecnologia" foi o mote para uma troca de ideias entre João Varandas Fernandes, Maria de Belém Roseira e Pedro Gouveia.
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Empatia, ética, integração do sistema público, social e privado e a vantagem da utilização da inteligência artificial na saúde. Estes foram os principais temas abordados no painel que encerrou a manhã na Grande Conferência do DN, que decorre esta segunda-feira, 15 de junho, no auditório da Fundação Champalimaud.

O tema "Saúde no século XXI: universalidade, ética e tecnologia" foi o mote para uma troca de ideias entre João Varandas Fernandes, médico e professor universitário, Maria de Belém Roseira, ex-ministra da Saúde, Pedro Gouveia, médico e fundador do Laboratório de Cirurgia Digital da Fundação.

Concordando que a transição digital é um fator importante para o setor, ficou também claro que há situações em que a Inteligência Artificial não conseguirá substituir o profissional a que João Varandas Fernandes chamou "o médico humano". "A máquina não substitui a relação humana, na saúde a empatia deve estar, mas também sabemos que na saúde muitas vezes não existe", acrescentou a antiga ministra da Saúde.

Maria de Belém Roseira destacou aquilo que considera ser um dos problemas que o setor enfrenta: "Temos a vontade de regular tudo de uma maneira pesada e completamente antagónica com aquilo que é a velocidade das coisas." E dá como exemplo o facto de na saúde não poder ser seguido um dos pontos burocráticos da administração pública: a data de entrada. "O que interessa é a gravidade do caso e esse tem prioridade", recordou.

João Varandas Fernandes reforçou a questão da ética lembrando que os processos de decisão que acompanham as tecnologias da saúde - quer a digitalização, quer a inteligência artificial, quer a robótica - devem seguir princípios de ética. Recordando os avanços que o setor da saúde sofreu em Portugal - "nas últimas cinco décadas, aumentamos a esperança média de vida em 14 anos" -, defendeu o trabalho conjunto entre os setores privado, público e social.

E apresentou três princípios que considera importantes para uma boa gestão no setor. "Primeiro, tem de haver literacia em saúde. As pessoas têm de estar informadas daquilo que se passa em matéria de saúde. E muitas das vezes não estão. O segundo aspecto é que, além de se explicar o que é, tem que se explicar aos pacientes o que é isto das novas tecnologias, o que é isto da IA, o que é isto da digitalização, o que é isto da robótica. Eu acho que grande parte da população não sabe o que é", começou por explicar, concluindo esta ideia com a defesa de que o sistema de saúde em Portugal não deve ser único. "Deve ser um sistema de saúde privado, público e social", frisou.

"O Serviço Nacional de Saúde é um pilar fundamental, imprescindível e que não pode recuar. Agora, os outros parceiros em matéria de saúde, devem entrar, devem modular, não deve haver antagonismo em relação a essa matéria", destacou.

Tecnologia ao serviço

Já Pedro Gouveia, médico e fundador do Laboratório de Cirurgia Digital da Fundação, destacou a importância da utilização das novas tecnologias dando como exemplo o cancro da mama e um estudo efetuado na Suécia em que foram utilizadas duas técnicas: com um radiologista que fez o rastreio normal e um outro radiologista que utilizou um software, e o resultado foi que diminuíram o trabalho do radiologista em cerca de 40% e foram detetados mais 12% dos chamados "cancros de intervalo" que são os que surgem entre os rastreios habituais. "O que isto quer dizer? Uma melhoria em termos de qualidade. Temos menos ancros de intervalo e os que aparecem são 27% biologicamente menos agressivos", explicou.

O responsável do Laboratório de Cirurgia Digital lembrou que "quando falamos em incidência artificial aplicada à saúde, é preciso que esteja muito claro que estamos a falar em dispositivos médicos sob a forma de software". Uma possibilidade que foi aprovada pela União Europeia e que, portanto, "pode amanhã ser implementado em Portugal e é uma excelente oportunidade para mostrar como é que se pode melhorar com menos custos, de um dia para o outro, a saúde da mulher de uma forma categoricamente positiva".

A importância da empatia

A questão da relação entre os profissionais de saúde e os doentes também foi abordada neste painel, com o destaque a ser dado à forma como em Portugal essa relação é importante. "Nós realmente somos diferentes, a empatia tem de estar em toda a relação humana. A máquina não substitui a relação humana, não deve substituir, mas também temos muita relação humana, também na saúde, que também não é empática, como nós sabemos, não é? Portanto, a empatia tem de estar e deve estar, "sublinhou Maria de Belém Roseira.

João Varandas Fernandes concorda: "Já trabalhei nos Estados Unidos, em Nova Iorque, em Barcelona. Os profissionais de saúde, lá, são mais frios, são mais distantes. E nós, cá, somos mais afetivos e mais, não é, num direito de paz, ou padrinhos, no bom sentido, mas somos mais afetuosos. "

Num dos pontos da sua intervenção, chamou a atenção para um tema que considera importante: os investimentos na saúde, lembrando que, na sua opinião, a utilização das novas tecnologias não diminuem essa necessidade, antes pelo contrário.

"As tecnologias, cada vez mais, por aquilo que nós percebemos e por aquilo que nós lemos e que estudamos, são cada vez mais caras. Porque é um mercado aberto, é um mercado europeu, americano e asiático, concorrencial para as novas tecnologias, e vai ser cada vez mais caro. E, portanto, temos que estar a pensar nisso", adiantou.

Defende ser, por isso, uma "preocupação, em termos políticos, de ter uma atenção especial para o investimento em tecnologias na área da saúde".

No final do painel Pedro Gouveia lembrou a necessidade de os médicos puderem aceder e trabalhar os dados de um doente seja em que unidade hospitalar for. "O problema é que ele consegue ver o espelho dos dados, mas depois não consegue trabalhar nos mesmos. O problema não é tecnológico, mas é audiovisual e digital", adiantou. E deixou mesmo um desafio lembrando exemplos de faculdades que têm cursos no final dos quais os alunos não são só médicos, são também engenheiros biomédicos, especialistas em inteligência artificial.

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